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Diversidade

O primeiro time de trans do Brasil: conheça os Meninos Bons de Bola

Conheça a história do primeiro time de futebol trans do Brasil e como eles lutam para conseguir se manter no esporte, superando o preconceito e apoiando a diversidade e a igualdade.

Por Patrícia Beloni

Eles nasceram no sexo biológico feminino. Mas, se identificam com o gênero masculino. Eles não fizeram cirurgia de mudança de sexo, nem mastectomia (retirada das mamas). E nem por isso eles deixam de ser transsexual. Só que isso não importa realmente, não é mesmo?

O que importa de verdade é que os Meninos Bons de Bola encontraram, no futsal e no coletivo, o apoio e a força que precisam para continuar na luta pelo respeito e pela igualdade todos os dias. Para se abrirem, se comunicarem.

Time de futebol trans brasileiro

“Existem diversos times de futebol gays. Mas, trans, os Meninos Bons de Bola são o primeiro, conta Raphael Henrique Martins, de 30 anos, fundador e diretor do time. E a adesão foi tanta que hoje eles formam cerca de 4 times.

O time nasceu em 28 de agosto de 2016, originado da vontade de criar algo que estimulasse e unisse a garotada transsexual.

Raphael trabalhava no Centro de Referência em Defesa da Diversidade e percebeu a falta de homens trans no espaço LGBT. Junto com a psicóloga do local, ele decidiu montar alguma atividade que atraísse os meninos trans.

“Fizemos uma chamada nos grupos de WhatsApp e Facebook. O primeiro encontro foi uma roda de conversa e futebol. Tivemos uns 30 meninos juntos com seus familiares, amigos e namoradxs!”, conta ele.

E o encontro foi um sucesso. Depois, muitos pediram para continuar com o futebol porque aquilo tinha feito muito bem para eles. Conversaram, então, com o chefe local e a atividade se tornou fixa do centro.

Meninos Bons de Bola

“No começo, tínhamos 4 meninos. Era só encontro com uma pelada.  Hoje somos em cerca de 29. Treinamos todos os domingos, das 9h às 13h”, conta Rapha.

E a faixa etária é bem variada. O mais novo tem 18 anos e o mais velho, 45. E o time de futebol trans não é aberto para virar misto e agregar quem nasceu homem e se reconhece como mulher.

“A gente prefere nossa privacidade mesmo. Pois, além do futebol, temos rodas de conversa com psicóloga e para falar do nosso dia dia. Então se abrirmos para mulher trans, lésbicas ou gays, os meninos acabam não se comunicando. E nossa intenção é que eles falem mais ao invés de se fecharem”, revela.

Nem todos fizeram a mastectomia. E ninguém fez a redesignação sexual (retirada do órgão masculino e a construção de um feminino ou o contrário). E nenhum do time fez cirurgia de mudança de sexo. “Vale ressaltar que por mais que você seja trans, não precisa fazer ambas cirurgias”, explica Rapha.

Como se sustentam e onde competem

A equipe ainda não tem patrocínio. Mas estão em busca de alguém que possa ajudar o time com doações. Bolas e outros aparatos para o treino é o que precisam. Ganhamos um uniforme e contamos com o auxílio de uma técnica”, explica Rapha.

Por enquanto, só fazem amistosos. Nada de campeonato. O único campeonato que competiram foi a Champions Alliance, um campeonato de diversidade e inclusão.

As pessoas procuram o time com certa frequência. No final do ano passado entraram mais 3 meninos para a próxima temporada.

Os treinos são longos porque é o único dia que eles têm para treinar.  “Como conseguimos a quadra sem custo algum com o Sindicato dos Bancários, temos que aproveitar bastante”, revela.

E o preconceito?

Segundo, Raphael, toda vez que vão jogar, os meninos sempre deixam bem claro que são homens trans. Já para evitar o preconceito e as piadas.

“Sofremos preconceito uma vez em um amistoso contra um time de meninos gays. Mas esperamos o jogo terminar e resolvemos tudo”, conta. “Mas sofremos bastante preconceito no dia dia com as meninas lésbicas e meninos gays”, comenta.

Mas é claro que existem times gays que os Meninos mantêm um carinho especial. “A gente admira muito alguns, que sempre estão nos apoiando muito, como o Natus, o Bulls e Diversus”.

E eles já tiveram partidas contra times héteros e foi a maior tranquilidade. “Jogamos uma vez com a galera do Catadão da Lapa. Foi o melhor amistoso. Foram super respeitosos com todos do time”, revela.

Agora, o objetivo deles é o X Gay Games, o maior evento LGBT do mundo. É como se fosse uma olimpíadas. Acontece a cada 4 anos e esse ano vai ser em Paris. “E como sempre foram atletas mais nunca uma delegação brasileira, queremos tentar ser o primeiro time trans nos gay games”, conta.

Vai rolar do dia 4 ao dia 12 de agosto de 2018 e tem mais de 36 modalidades. Ele é aberto a membros de grupos LGBT, com delegações de cerca de 70 países, incluindo o Brasil, e mais de 15 mil atletas. E os Meninos Bons de Bola estão fazendo uma campanha para poder arrecadar a grana.

Fotos: Isabel Abreu

 

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