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A importância do esporte na graduação e na luta contra a depressão

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Bruno Stephan, o Pimentinha, da FAU USP, revela a importância do esporte na vida dele durante a graduação e como ele ajuda na luta contra a depressão

Por Bruno “Pimentinha” Stephan

O esporte nem sempre espanta os fantasmas da vida, mas, sem dúvida, te sustenta nos momentos mais delicados. Atletas de alto nível, como Michael Phelps, muitas vezes sofrem de depressão pós carreira causado pelo esporte de alto rendimento.

Mas o que muitos não relatam é como o esporte pode ser a base para uma pessoa comum, que sofre por acontecimentos do cotidiano, como muitos universitários já sentiram na pele. Bruno, o Pimentinha, da FAU USP, é um deles. Conheça um pouco da história contada por ele mesmo a seguir:

Como a depressão começou a se manifestar

“Acho que a semente da depressão sempre esteve dentro de mim. Em 2011, quando ingressei na FAU, ainda era bastante novo.

Todos os meus colegas já estavam habituados a um grau de independência e proatividade que nunca havia experienciado. Enquanto isso, eu ainda estava dando meus primeiros passos autônomos.

Nesse período, tudo me encantava. Todos eram fascinantes, o mundo era um poço infinito de descobertas. Tento ter compaixão por esse jovem daquele tempo. Acontece que logo desenvolvi uma capacidade imensa de maltratar a mim mesmo.

Entre um convívio problemático com minha família, que nunca percebera que possuía tantas expectativas para mim, e professores que de pedagogos tinham apenas o nome, começaram as primeiras crises de ansiedade. As primeiras explosões.

Nas noites que passava em claro desenhando cidades e edifícios, as brigas eram constantes. Conflitos comigo mesmo e com meus colegas. Me achava medíocre e que não conseguiria de maneira nenhuma me encaixar em nenhum lugar da FAU.

A raiva de mim mesmo, a culpa de me tornar uma pessoa tão difícil e temperamental era tanta que se converteram em uma depressão altamente funcional. Tinha que sacrificar meu corpo e minha mente para poder produzir. Achava ser a única maneira.

Era uma visão muito infantil do arquétipo do artista frustrado, incompreendido. Com o tempo, porém, naturalizei esse comportamento insalubre. Evidentemente, não poderia durar muitos anos”.

Depressão pós intercâmbio

“Em 2014, tive a oportunidade de realizar um estágio que me fora muito proveitoso e logo depois pude ir a Milão, na Itália, pelo programa Ciência Sem Fronteiras.

Foram belíssimas experiências. A minha vida parecia estar resolvida. Ao retornar, entretanto, encontrei um país em crise política, social e econômica.

Todo o futuro que pensara estar traçado diante dos meus olhos estava se despedaçando. Não conseguia mais empregos.

Todas as atividades para as quais me inscrevia fornecidas pela FAU me eram negadas pois deveria estar terminando os estudos. Nenhum concurso de projeto que fiz nesse ínterim me teve resultados amplamente satisfatórios.

Enquanto isso, via os meus colegas lidando de maneira bem mais tranquila com a crise que eu. No meu desespero, acreditava que todos estavam errados. A esperança era uma doença. Era um jeito deveras egoísta de observar todo o contexto.

Logo eu, que era conhecido por ser risonho e empolgado, me vi habitado por um pessimismo sem tamanho. Continuei apostando na alta funcionalidade da minha depressão, mesmo com a decepção crescendo dia após dia.

E aí, em 2017, decidi ingressar no TCC (ou TFG, como conhecemos na FAU) para me formar. Iria abandonar o barco, já que ele não podia me trazer mais nada de benéfico. Ao mesmo tempo, praticamente – como que por ironia – consegui finalmente ingressar num estágio na Prefeitura de São Paulo, na Secretaria de Cultura”.

Quando nada faz sentido

“Foi então que o meu estado emocional se tornou insuportável. Não via sentindo em investir em nenhum dos dois caminhos que estavam na minha frente.

Me formar para quê? Para continuar desempregado, como tantos amigos? Continuar na prefeitura para quê? Para fazer meu ganha-pão, trabalhando para uma gestão da qual fundamentalmente discordava?

Seguir os dois caminhos ao mesmo tempo se tornou insustentável. Com uma pressão gigantesca nos meus ombros, optei pela minha formação. Nesse ponto, já estava bem afeiçoado da equipe com quem trabalhara, sobretudo pela nossa antipatia comum por alguns elementos reacionários da secretaria.

O processo de saída não foi fácil e foi repleto de discussões. Sentia que deixaria todos decepcionados com qualquer escolha que fizesse. Se já tinha o sentimento de que tudo era em vão, foi assim que ele cresceu até atingir dimensões esmagadoras.

Não conseguia mais encontrar as forças para sair da minha cama. Todo dia era um martírio. Imaginava ser um peso para todos que me cercavam, e ser uma pessoa horrível e ridícula. Queria morrer”.

E algumas palavras que machucam…

“Em meio a uma crise completa, um grande amigo me disse, sem pensar nas consequências: “Você deixa a depressão cegar você”. De fato, ela estava me afastando de todos que eu conhecia. Tirando a alegria das coisas que mais amava.

Mas eu queria voltar a sentir o êxtase ingênuo dos meus primeiros anos de curso. Me considerava fraco e incapaz por não conseguir fazê-lo. Essa fala me impactou tanto que acreditei que nem sequer merecia estar vivo.

“Você só pensa em morte”, continuou ele. E, de fato, muito provavelmente, só tivesse pensamentos de morte dentro de mim naquela fase. Parece uma história tão banal, mas me colocou em um lugar do qual simplesmente não conseguia sair.

Tive que ingressar de vez no mundo dos antidepressivos. Foi com a ajuda deles que consegui terminar o meu TCC”.

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Bruno (primeiro agachado da esquerda para a direita) com o time de Vôlei da FAU-USP. Foto por Luenne Albuquerque

A importância do esporte

“Mas, por que escrevo esse texto para a BEAT, afinal? Durante principalmente os últimos anos de FAU, o esporte teve uma dimensão nevrálgica para mim.

Na minha graduação, sempre pratiquei natação. Embora não fosse um atleta exemplar, era uma maneira de praticar algum exercício sem tanto impacto e correria, o que me agradava.

Quando voltei de viagem, contudo, devido ao trabalho excepcional de um técnico novo no time, a rotina de treinos se tornou um dos pilares do meu cotidiano. Fizesse chuva ou sol, era uma espécie de meditação diária.

Alguns dias, o cansaço proporcionado por nadar era a única forma que encontrava para conseguir dormir. Alguns dias, era a minha desculpa para sair da cama e fazer qualquer coisa.

Mesmo que nunca tenha alcançado o título de melhor nadador, minha capacidade melhorava diariamente. Era talvez a única coisa que melhorava na minha vida e na de todos ao meu redor.

Paralelamente, o incentivo ao esporte me convenceu a tentar algo novo: decidi, mesmo sem nenhuma habilidade prévia, entrar no time de vôlei masculino da FAU.

No meu sexto ano de USP, tinha que treinar ao lado dos bixos fauanos porque realmente não compreendia nada da prática. Também não fui e nem serei um destaque do voleibol no mundo. Mas me reunir com esse time e dialogar com eles em torno de um objetivo comum fora uma grande conquista que o esporte me trouxera.

Querendo ou não, o voleibol é um exercício que requer muita comunicação, o que me forçou a me aproximar muito dos membros da equipe. As duas atividades foram a maior constante nos últimos anos de FAU. Não acho que tenha conseguido passar por essa finalização sem o auxílio dos meus amigos advindos de ambos”.

As influências do esporte no corpo e na mente

“Não foi à toa que decidi focar o meu TCC em torno da questão do corpo, e das práticas do corpo. Sobre o prazer desmedido da arquitetura e do espaço. Se fora o que deu sentido para que eu vivesse, nada melhor que estudar esse assunto.

E assim me vi tentando algo diferente, como fizera com o vôlei. Foi levando esse ideal do prazer do corpo – da prática cotidiana do prazer – para o Grajaú que consegui articular um projeto participativo com uma escola da região.

Conhecer pessoas novas ali que estavam de acordo com essa importância fundamental da temática do corpo no espaço foi o estopim para que pudesse criar forças e concluir meu curso.

Penso que tenha terminado minha graduação de maneira muito satisfatória. Embora não tenha muitas perspectivas em relação ao meu futuro (estou desempregado, afinal (risos nervosos)) os meus dois times permanecem. E o Grajaú também.

Porque tive dúvidas durante o processo, hoje acho que ele se fixou melhor em mim. Me formou como indivíduo que sou hoje.

Não abandonei os antidepressivos, e nem tenho sinais de poder parar de utilizá-los. Mas também não abandonarei os esportes e tentarei não mais me maltratar. Seguimos em frente, apesar de tudo”.

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Crédito foto de capa: Bruno (em pé da direita para a esquerda) com seus amigos da Natação da FAU-USP. Por Luenne Albuquerque

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