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Atletas negros quase nem chegam à universidade

por • 20 de novembro de 2017 • Colaboradores, Colunas, DiversidadeComentários (0)767

O esporte universitário representa o contrário do cenário nacional, mas para a população negra ser atleta ainda é um desafio

Por Victoria Damasceno

Quando falamos em políticas públicas para as periferias, majoritariamente negras, sempre podemos destacar a criação de centros de treinamento. Eles oferecem a prática esportiva aos jovens, como é o caso do Centro Olímpico, em São Paulo.

Se isso não acontece, iniciativas individuais tomam conta desses espaços e promovem, sem auxílio governamental, atividades esportivas e de lazer. O objetivo é sempre o mesmo: tirar crianças, adolescentes e jovens das áreas de vulnerabilidade. 

Porém, o incentivo ao esporte no País termina aí, com a falta de centros de treinamento desportivos para esse público. E muitos talentos e vidas negras acabam sendo desperdiçados. 

Salvo os casos do futebol, dominado pela presença de negros em campo.  Ou ocasiões em que algum “olheiro” faz um convite para um atleta de baixa renda participar de treinos em algum clube. Mas ainda assim não é o suficiente. A necessidade da entrada no mercado de trabalho, por exemplo, faz com que muitos negros deixem de participar mesmo quando amparados por centros de treinamentos.

O correto, a exemplo de cenários estrangeiros como nos Estados Unidos, em que os alunos têm a chance de profissionalização nas universidades, seria que os atletas brasileiros pudessem se desenvolver dentro do esporte universitário. Nesse momento uma outra barreira para os negros: eles mal chegam às universidades.

Atletas negros no esporte universitário

Historicamente, o esporte universitário era visto como uma política de permanência. Universidades como o Mackenzie ofereciam aos seus alunos bolsas de estudos em troca da participação em um dos times.

Hoje, entretanto, a política é quase inexistente em todos os cursos superiores. O pré-requisito para a participação no esporte universitário, que é fazer parte da universidade, faz com que a representatividade negra seja baixa dentro dos times.

Não existem números que estabeleçam um censo de atletas negros nos campeonatos universitários, mas podemos fazer um teste ocular. A partir do cenário paulistano, nos jogos na NDU, LAAUSP e Inters, se você puder fazer uma lista mental de 20 amigos que participam, quantos destes seriam negros? Em um País em que 53,3% da população é negra, na minha lista, tive menos de 20%.

A ausência de negros ainda se dá por motivos cada vez mais óbvios. Lembro que todas as vezes em que participei de eventos que tinham negros como público alvo, uma das exigências era de que o horário teria de ser fora do horário comercial. Isso porque participar de atividades durante o dia era “privilégio branco”.

E o pior: esse tipo de fato também acontece no esporte universitário. Os treinos normalmente são fora do horário comercial, pois os alunos trabalham e fazem estágio como qualquer outro. Mas treinos de madrugada, que impossibilitam o uso do transporte público, ou em regiões afastadas do eixo universitário, também servem como mecanismos de segregação.

Sem falar nos custos com técnicos, bolas, tênis, roupas, transporte para jogos, inters e aluguel de quadra. Esses são outros fatores desestimulantes, que somam uma quantia abusiva até para os mais privilegiados, imagine para quem mal consegue se manter no curso.

Atletas negros fora da faculdade

Mas o ponto principal é que os atletas negros sequer chegam à universidade. Além dos desafios enfrentados internamente, quando finalmente chega ao curso superior, existem outros obstáculos. As barreiras do racismo se manifestam antes mesmo dele conseguir entrar na faculdade.

Cursos superiores de instituições particulares, por exemplo, possuem preços abusivos e a população negra não consegue pagar. Instituições públicas fazem vestibulares que impossibilitam o acesso daqueles que estudaram em escolas públicas.

Mas e as universidades que possuem mensalidades a preços populares ou que contam com sistemas de financiamento? Elas, infelizmente, quase não possuem tradição de estímulo ao esporte universitário e de participação em jogos e campeonatos.

Observar a desvalorização do esporte universitário é reconfigurar o próprio olhar. De modo que se enxergue que as políticas públicas precisam olhar para o acesso dos negros ao curso superior e para a falta de políticas de permanência àqueles que conseguem entrar nesse universo. Porque, enquanto isso não acontecer, o esporte universitário, de fato, não deve ser prioridade.

 

Racismo no esporte universitário:

Racismo na Intermed 2017 gera punições| Revista Beat
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Crédito foto de capa: Por Rafael Oliveira

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