racismo na intermed

Racismo na Intermed 2017 gera punições

por • 18 de outubro de 2017 • Colaboradores, Colunas, DiversidadeComentários (0)918

Denúncias de racismo na Intermed marcaram a competição e liga organizadora tomou providências para inibir novos casos

 

Por Victória Damasceno

Após cinco anos treinando voleibol pela Faculdade de Medicina da USP, Pedro Henrique Rodrigues entrou em quadra na Intermed 2017. Os jogos reuniram as principais Atléticas de Medicina de São Paulo entre 2 e 9 de setembro, em Barretos.

Rodrigues fazia, então, a sua estreia na competição ele chamou de “a mais importante do ano”. Sua identidade de atleta e estudante de medicina era comum a de todos os participantes dos jogos. No entanto, a condição de homem negro o fez lidar com uma antiga face dos jogos universitários: os ataques raciais.

Durante a partida contra a Med PUC-Sorocaba, ele ainda aquecia quando ouviu o primeiro grito da torcida adversária. “Olha sua cor, provavelmente passou por cotas”. O apoio dos colegas tentava, em vão, abafar os xingamentos, e mesmo com a vitória nas mãos, o atleta ficou marcado pelo preconceito sofrido. E o pior: não parou por aí.

O que parecia ter acabado ganhou mais força. No segundo jogo, contra a PUC-Campinas, a torcida adversária seguiu com os insultos. “Preto” e “lixo” eram as variações daquilo que dois estudantes usavam para o ofender. O sentimento era de descrença. “Na minha cabeça, eu tentava me forçar para imaginar que, na verdade, eles estavam gritando Pedro, e não preto. Mas, na realidade, eu sabia muito bem o que diziam para mim”.

A denúncia de racismo foi à público por meio de uma postagem no Facebook, que teve cerca de 860 compartilhamentos e chegou rápido aos ouvidos da torcida adversária. Mas ainda assim, as ofensas racistas continuaram. O estudante torcia pelo time de basquete da sua faculdade quando ouviu mais gritos.

Da arquibancada, uma torcedora da PUC-Sorocaba mostrou a ele um cacho de bananas, enquanto outros torcedores imitavam macacos. Alguns ainda gritavam palavras “textão de Facebook”, fazendo menção à publicação que ele havia feito sobre os ataques racistas. Rodrigues ignorou, mas não se omitiu. “Isso não é esporte, não é certo, é inaceitável”, relatou.

Em entrevista à Revista BEAT, o atleta se mostrou indignado. “É um absurdo que tais atitudes existam, violando a dignidade humana. Acredito que todos que sofrem opressão, independentemente da natureza, se manifestem com o objetivo de sensibilizar e reduzir este tipo violência”, disse. Ele afirma ter recebido apoio da Atlética da Med USP e da Liga Esportiva das Atléticas de Medicina do Estado de São Paulo (LEAMESP), organizadora da Intermed.

Outros casos de racismo na Intermed

O caso de Pedro não foi o único. Isaac Costa, aluno da Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), também fez um relato de ofensa racial no Facebook. “Seus pretos cotistas”, foi o que Costa e seu amigo Danilo Buso ouviram enquanto torciam pela sua faculdade. O ataque aconteceu em um jogo de voleibol contra a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. A resposta foi pragmática: “Sim, somos pretos e cotistas”. Apesar disso, os alunos optaram por esperar o fim da Intermed antes de tomar qualquer iniciativa.

Já na capital paulista, eles realizaram um Boletim de Ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais. Entretanto, ainda não sabem se prosseguirão penalmente com as denúncias. “Nossa intenção é conversar com o autor, com a atlética da Santa Casa e também com a nossa atlética”, explicou à Revista BEAT.

O aluno conta ainda que está buscando uma forma de inibir novos casos de racismo. “Estamos trabalhando na nossa faculdade para mobilizar um coletivo negro, pois percebemos o quanto isso é necessário em uma faculdade de medicina após esses episódios”.

Punições

Em paralelo, a Liga responsável pela Intermed alegou ter tomado medidas administrativas a fim de combater atos de racismo. Segundo nota da instituição (conteúdo completo ao final do texto), foi definido que até o final do ano será realizada uma alteração no regulamento da competição a fim de combater tais atos.

Além disso, declarou punições à Atlética da PUC-Sorocaba (A.A.A.V.B.), uma das denunciadas pelos casos de injúria racial. A torcida não será permitida em quatro jogos, duas cerimônias de abertura e três disputas de Judô nas próximas edições.

A Atlética ainda vai ser obrigada a doar R$1500 a uma instituição de caridade escolhida pela vítima. A nota não faz menção ao caso de Isaac Costa e Danilo Buso. Também não cita punição à Atlética da Med PUC-Campinas.

Procuradas pela Revista BEAT, apenas a Atlética da Med USP (A.A.A.O.C.), se manifestou até o momento de publicação desta matéria. Bárbara Colonno, vice-presidente, afirmou que foi solicitado as medidas cabíveis à Liga. A comissão abriu um “Caso Omisso” para encontrar a punição adequada, já que o fato não estava previsto em regulamento.  

A Atlética ainda pretende apresentar propostas de alteração do regulamente da competição. “Dessa forma, esperamos que possíveis acontecimentos futuros sejam fortemente coibidos e o que aconteceu nessa Intermed com o nosso atleta não se repita com nenhum outro aluno de qualquer faculdade”, afirmou ela.

Racismo no esporte: o que pode ser feito

O advogado e pesquisador do Núcleo de Estudos Afro Brasileiros (NEAB), Marco Antonio André, explicou como prosseguir. Medidas administrativas, como civis e também penais são aplicadas nesse caso. Segundo ele, o crime pode ser enquadrado como injúria racial, e não somente racismo. Nesse caso, a pena pode ser de um a três anos em regime fechado.

Por outro lado, o advogado explica que a pena dos réus varia de acordo com a sua reincidência. “Se for primário, corre o risco apenas de realizar serviços à comunidade, como o pagamento de cestas básicas”. Isso denota a necessidade de processos administrativos internos na universidade, podendo resultar na suspensão ou até mesmo expulsão dos alunos.

Além disso, Antonio André afirma ser necessário que as vítimas das injúrias também recorram à esfera civil por danos morais, para o pedido de indenização. “Normalmente as pessoas pensam que este crime não tem penas suficientes, mas na esfera civil a coisa é diferente. A pessoa é obrigada a dar dinheiro a quem ofendeu. Quem comete o crime de racismo tem que sentir no bolso”, conclui.

 

 NOTA OFICIAL da LEAMESP (Intermed 2017) :

A Liga Esportiva das Atléticas de Medicina do Estado de São Paulo (LEAMESP) vem, por meio desta nota oficial, esclarecer sua postura perante a denúncia de injúria racial que ocorreu durante a 51ª edição dos jogos universitários Intermed.

Na noite de 06/09/2017, durante a reunião periódica que ocorre na competição, a Liga recebeu uma denúncia de injúria racial sofrida por um atleta da Faculdade de Medicina da USP. Prontamente, a Liga definiu de maneira unânime criar uma comissão deliberativa para apurar, discutir e definir as providências a serem tomadas no âmbito esportivo quanto ao ocorrido, com prazo de trinta dias para definição.

Tal Comissão Deliberativa foi composta por um representante de cada Atlética associada à Liga, em que apenas as Atléticas que participaram da LI Intermed tiveram direito de voto, excetuando-se as envolvidas no caso (A.A.A.O.C. e A.A.A.V.B.).

Após o prazo, a Comissão Deliberativa definiu que até o final do ano será realizada uma alteração no regulamento da competição, a fim de combater tais atos. Além disso, ficou definida a seguinte punição para a A.A.A.V.B. para as próximas competições que participarem: perda do direito a torcida em quatro jogos, em duas cerimônias de abertura e em três edições da disputa de Judô. Por fim, decidiu-se que a A.A.A.V.B. deverá realizar doações somadas no valor de R$1500,00 para uma instituição de caridade a ser escolhida pelo atleta envolvido no caso.

A LEAMESP enfatiza seu repúdio ao ocorrido e a quaisquer outros atos discriminatórios, desdenhosos ou ultrajantes, relacionados a preconceitos em razão de origem étnica, raça, sexo, orientação sexual, identidade de gênero, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência. A Liga também se coloca à disposição da vítima e firma o compromisso de auxiliá-la de toda forma que lhe for possível.

Por último, a LEAMESP deixa claro que atitudes discriminatórias em âmbito esportivo são também consideradas atitudes antidesportivas, pois, no esporte, também somos todos iguais.

Atenciosamente,

Diretoria da LEAMESP

 

 

Crédito foto de capa: Por Luisa Zucchi

 

Mais sobre preconceito no esporte:

Racismo no esporte, a ponta do iceberg | Revista BEAT
Machismo no esporte: a importância da representatividade feminina | Revista BEAT
17 de maio: dia internacional contra a homofobia| Revista BEAT

 

 

Posts Relacionados

Comentários fechados