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A democracia do esporte universitário

por • 3 de outubro de 2017 • Colaboradores, Colunas, DiversidadeComentários (0)439

Além de aproximar as pessoas, o esporte universitário se adapta às realidades. Mas como gerenciar diferentes atletas em um único espaço?

 

Por Carla Monteiro

Seja por falta de oportunidade, por falta de tempo devido à rotina de estudos para o vestibular ou por preconceito (machismo, homofobia), nem toda pessoa se sente convidada ou atraída a praticar algum esporte na infância e na adolescência. Mas, na universidade ocorre aquele empurrãozinho: os amigos vão, os DMs insistem e acontece a primeira experiência e contato com o esporte.

Muito provavelmente, o esporte universitário, dentro do ambiente esportivo (profissional, alta-performance, etc), é o que mais acolhe pessoas, sendo bastante democrático, no sentido de misturar atletas de diferentes categorias, de diferentes estilos. Há quem se descubra nos times da graduação, mesmo que  o espaço ainda seja distante de ser um ambiente 100% representativo.

Com Victor Martz, formado em Design na FAU-USP, foi assim: ele nunca tinha integrado uma equipe de treino até entrar na faculdade. Durante o quarto ano, decidiu começar a treinar vôlei, depois de ver um jogo universitário e se sentir representado por um dos jogadores em quadra. Entrou para o time dos esportes para nunca mais sair. Foi integrante de duas gestões da atlética da FAU e, mesmo depois de formado, acompanha a entidade. A prática esportiva, inclusive, acabou contemplada em seu TCC, cujo tema foi “Material Didático Complementar para Educação Física no 5º ano no Ensino Fundamental que promove diversidade sexual e igualdade de gênero”.

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Victor (número 8) com a equipe de Vôlei Masculino da Fau-USP. Acervo pessoal.

O material busca abranger o público feminino e LGBT durante as aulas de educação física na escola: ambiente considerado  excludente, hostil e cruel com as minorias. É nesse espaço que começam as agressões machistas e LGBTfóbicas, consideradas ‘comuns’ no cenário esportivo (profissional, universitário, escolar). Quem nunca ouviu frases como: joga igual homem!, que chute de moça! ou o famoso biiiiiicha! toda vez que o goleiro cobra um tiro de meta. “Quando comecei a pesquisar, surgiu o dado de que o ambiente mais excludente e mais opressivo para pessoas LGBT e mulheres na escola são as aulas de Educação Física. Então acabei focando meu projeto nesse espaço”, esclareceu Victor.

O designer enfatiza que não é apenas na escola que existe preconceito e que o esporte universitário também sofre com as discriminações. Ele se descobriu no ambiente, mas o mesmo não acontece com muito estudante. “Eu acredito que recentemente a pauta feminista e LGBT tem entrado cada vez com mais força, mas esse movimento ainda tem sido gradativo. Então eu ainda acho que o esporte universitário é um ambiente tão machista ou LGBTfóbico como qualquer outro, com algumas exceções”.

 

O desafio de treinar diferentes atletas

Para Mateus de Seixas Bizetti, educador físico e técnico de handebol dos times feminino e masculino da Pharmácia, o esporte universitário, que também é esporte amador, é mais atrativo por não ser tão hierarquizado. Até mesmo a semelhança de idades entre os treinadores e os atletas ‘quebram o gelo’ do relacionamento dentro da equipe. Além disso existe o fato de que nem todos os jogadores têm o mesmo objetivo, há quem encare os jogos e treinamentos como uma competição super disputada e um momento para dar o melhor de si e vencer, mas há também quem frequente os treinos apenas com a finalidade de praticar uma atividade física por uma vida mais saudável.

“A construção do esporte amador, do esporte universitário fica mais próxima da demanda do grupo. É comum ter situações em que os atletas falam: a gente não está aqui aqui para simplesmente competir e ganhar; queremos jogar handebol porque gostamos de jogar handebol.’, explica Mateus. Dessa forma, é necessário adaptar os treinamentos para que a preparação contemple os alunos que já tinham contato e priorizam com as competições – como os atletas federados – mas também aqueles que conheceram o esporte apenas na graduação e têm objetivos amadores.


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Na tentativa adequar os exercícios para todos os atletas, Mateus criou um modelo de treinamento que deixa mais democráticas as ações da equipe. Não existem decisões arbitrárias no grupo. Nada é decidido pelo treinador sem antes consultar o grupo. “Todo mundo vota e fala quais fundamentos devem que ser treinados, quais atletas saem jogando. A mim cabe apenas organizar o coletivo.” Com esse método, todos os alunos participam e têm suas decisões contempladas e o treino se torna mais dinâmico.   

Outro modo eficiente de gerenciar diferentes atletas é dar a eles os feedbacks individuais e coletivos dos treinamentos, assim todos identificam os principais pontos em que devem treinar e ser mais assertivos individualmente para melhorar o desempenho do grupo e do jogo como um todo. “A maneira que eu encontrei também é através da informação. Tenho cuidado com a complexidade dos feedbacks que eu dou em cada treino, que eu dou pra cada atleta. Pois dentro do mesmo treino pode existir diversas exigências”, completou Mateus.

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Cristiane (segunda em pé, da esquerda para a direita) com a equipe de Handebol Feminino da Poli-USP. Foto por Luisa Zucchi.

A professora de educação física e técnica dos times de handebol femininos da Poli e da Educação, Cristiane da Silva Mouro, comenta que a entrada a cada ano de novos alunos e o estímulo de renovação das equipes deixam os treinos mais plurais. Por isso é um desafio muito grande adaptar o ambiente para que ele seja coerente com todos os participantes: tanto aqueles que treinam há certo tempo quanto os novos integrantes. Contudo, a técnica enfatiza que esta é uma das principais características do esporte universitário: se renovar, integrar e ser acolhedor. “Existe a cultura de entrarem pessoas novas a cada ano, o que motiva os times a serem convidativos com as bixetes e bixos, incentivando a participação mesmo se eles não tiverem experiência prévia na modalidade”, comentou.

Durante os treinos ao longo do ano, a professora busca sempre conhecer as atletas com que trabalha e entender o envolvimento de cada uma com o esporte. Exercícios de aquecimento, treinos de adaptação com a bola, demonstração das principais movimentações do esporte sempre entram na rotina de treinamento para quem está começando. “Se for no início do ano fica mais fácil, pois mesmo as meninas mais velhas estão voltando das férias e eu deixo um tempo de adaptação a modalidade pras bixetes”, comenta Cristiane.

Embora existam diferentes níveis de prática entre as atletas, o principal desafio da treinadora é motivar as meninas, afinal todas são alunas-universitárias. Durante as semanas de provas, por exemplo, ou final de semestre em que a rotina de entrega de trabalhos fica mais apertadas, Cristiane percebe que as jogadoras ficam mais cansadas, menos atentas. Por isso ela procura dar um tempo maior de intervalo no treino, deixando as meninas espairecerem um pouco e aproveitarem o ambiente de convívio que configura o esporte universitário. “Isso [o convívio social] é uma das coisas que faz as pessoas estarem no esporte universitário, motivação e compreensão de que ninguém é atleta de alto rendimento e está lá porque gosta”, concluiu.

 

 

Crédito foto de capa: Mateus Bizetti com a equipe da Farma-USP no InterUSP, foto por Mei Monma.

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