atletas universitários de alto rendimento

A realidade dos atletas universitários de alto rendimento no Brasil

por • 11 de setembro de 2017 • Basquetebol, Colunas, Especial, Futebol de campo, Futsal, Handebol, Rugby, Uncategorized, VôleiComentários (0)637

A conciliação com os estudos e a falta de incentivo por parte das universidades dificultam as práticas dos atletas universitários de alto rendimento.

Por Camilla Freitas

Se você é um atleta brasileiro e tem condições financeiras de pagar uma agência de turismo, um teste Toefl (para nivelamento de inglês) e uma prova Sat (uma espécie de Enem estadunidense), além de produzir um vídeo seu praticando algum esporte em alto rendimento, você poderá concorrer a uma bolsa de estudos nas melhores faculdades dos Estados Unidos. Conforme matéria da Veja de São Paulo, esse custo pode chegar a 14.300 reais. No entanto, ao longo da graduação, a própria universidade, conforme as habilidades do atleta, pode oferecer bolsas de até 100%. Isso não quer dizer que o aluno encontrará alguma facilidade em conciliar os estudos com a prática esportiva. No entanto, isso mostra um incentivo do país em manter nas universidades jovens esportistas. No Brasil, essa situação é um pouco diferente.

Inaiá Rossi, aluna de oceanografia da Universidade de São Paulo, disputou por uma das quatro vagas femininas, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016, em de tiro com arco. Ela conta que, mesmo sendo aluna da USP, não treina na universidade. “Sou atleta desde 2013 e, na verdade, nunca cheguei a treinar dentro da universidade, pois a USP não possui um lugar em que eu possa treinar arco e flecha”. Inaiá treina em Campinas, localizada a 94,5 km da capital. “Eu ficava em São Paulo durante a semana para fazer as aulas da faculdade e todo final de semana tinha que voltar à Campinas, minha cidade, para treinar. Era uma rotina puxada”, conta. Mesmo tendo achado um espaço em São Paulo para treinar, a atleta disse que não podia contar com a presença de seu técnico, que estava em Campinas, além do local ser, também, bastante limitado para a modalidade.

Estudos e Esporte

Esse tipo de situação, mesmo parecendo mais individual, aponta para um problema de quase todos os estudantes que atuam no esporte de alto rendimento: como conciliar os treinos com os estudos. Rita Rodrigues é, atualmente, aluna da Escola de Educação Física e Esportes (EEFE) da USP e atleta amadora de triathlon. Contudo, não foi nessa modalidade que ela ingressou no esporte universitário. Rita já foi atleta de alto rendimento de esgrima e relatou que, enquanto estava nesta modalidade, sua rotina era bastante cheia. “Quando estava na esgrima de alto rendimento era bem sofrido. Faltava muito por conta de competições e muitas vezes saía mais cedo das aulas para conseguir chegar no treino a tempo”. “Hoje sou atleta amadora de triathlon e é bem mais fácil para encaixar os treinos na rotina sem prejudicar estudos e estágio”, completa.

Rita Rodrigues em campeonato de triathlon.

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“Minha rotina hoje tem sido bem puxada. Treino todos os dias no período da manhã, e terças e quintas de noite com o clube da Poli. Sendo assim, me sobram três dias na semana para frequentar as aulas da faculdade em período noturno”, relata Lucas Adub, atleta de rugby na Politécnica da USP. Ele, que estuda na PUC de Campinas, disse que nunca treinou na universidade porque a PUC do interior não possui time de rugby. Assim, o atleta optou por treinar na Unicamp e, desde 2007, na Poli. “Diversas vezes eu tranquei a faculdade para me dedicar ao rugby” conta. Lucas, que está no alto nível do rugby nacional, afirma que um dos motivos pelos quais teve que abdicar da faculdade em detrimento do esporte foi para participar do Super 8 (primeira divisão) pelo SPAC (São Paulo Athletic Club). “Eu tinha que treinar em São Paulo e minha faculdade era em Campinas”, explica a dificuldade.

Competições

Nayara Luniere, que em 2016 foi campeã de triathlon de longa distância, é aluna da Universidade de Brasília desde 2008. Ingressou, primeiramente, no curso de Ciências Biológicas e agora cursa Educação Física. Ela, que também possui uma rotina corrida relacionando o esporte à vida acadêmica, mesmo participando de campeonatos nacionais e internacionais, não deixava de competir em torneios universitários. Isso a difere, por exemplo, de Inaiá. Segundo afirma a atleta da USP, o arco e flecha apareceu somente em 2015 na Olimpíada Universitária e entrou em 2016 como matéria em uma universidade do Brasil (Unicamp). “Pelo fato de a maioria das universidades ainda não terem o esporte, não tive a oportunidade de participar de jogos universitários, apenas em outras competições de alto rendimento”, conta.

Rita também enfrentou um problema parecido com o de Inaiá. Mesmo tendo um número considerável de esgrimistas treinando nas universidades do país, conforme aponta a atleta, “a CBDU (Confederação Brasileira do Desporto Universitário) nunca organizou nada assim”. Ela participou, por outro lado, da Universíade (campeonato organizado pela Federação Internacional do Desporto Universitário), em 2011 em Shenzhen, na China.

Para ela, esse tipo de competição deveria ser mais divulgada entre os universitários, uma vez que são esses jogos um meio de se chegar a uma Olimpíada. “Acho um absurdo, mas muito gente não faz ideia o que é a FISU (Federação Internacional do Esporte Universitário) e as Universíades. Em outros países existe uma divulgação muito maior”. Entre os dias 19 e 30 de agosto ocorre a competição que conta com 300 pessoas na delegação do Brasil, contando comissão técnica e atletas.

Brasil no esporte universitário

Como já foi posto, os Estados Unidos incentivam atletas universitários através de bolsas de estudos e, além disso, o esporte é bastante importante dentro da academia. As divisions estadunidenses são as divisões das universidades dentro do esporte, ou seja, é o meio pelo qual os times profissionais escolherão seus atletas. Há uma ligação muito forte entre o esporte universitário e o esporte profissional. “Na Coreia existem universidades com centros de treinamento integrados a elas, então os atletas treinam e estudam no mesmo lugar e quando se formam, se eles tem potencial, seguem para outros centros de treinamento espalhados pelo país”, conta Inaiá. “A maioria dos atletas acaba largando os esporte ao entrar na universidade ou continua praticando, mas de forma amadora, ou então eles optam por não fazer uma faculdade, ou fazer uma faculdade com horários mais maleáveis, noturna ou a distância, para não prejudicar os treinos”, completa.

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Lucas entende que, para o atleta, só há uma escolha: ou ele se dedica aos estudos ou ao esporte. Ele vê, por exemplo, a relação entre a universidade e as práticas esportivas maior nos EUA do que no Brasil. “O Brasil está muito atrás dos Estados Unidos em questão de esportes universitários. Acredito que poucos atletas profissionais tenham uma graduação, enquanto nas grandes ligas americanas, os atletas são draftados através da faculdade. Sendo a etapa universitária, dessa forma, um degrau a mais na carreira profissional”. Nayara, por sua vez, entende que há pouco, ou nenhum, incentivo governamental para o esporte de alto rendimento nas universidades brasileiras. “A realidade está cada vez pior. Tanto no investimento nos esportes, como na educação. Acho que ambos saem perdendo”, pontua a atleta.

atletas universitários de alto rendimento

Lucas Abud em partida de Rugby. Foto por Pedro Girardelli | Poli Rugby

João Grandino Rodas, ex-reitor da Universidade de São Paulo, lançou um projeto em 2010 que tinha como objetivo incentivar os atletas da universidade para que, em 2016, eles estivessem presentes nas Olimpíadas. “O ideal dos jogos olímpicos representa um catalisador para que o esporte universitário deixe de ser mero diletantismo secundário”, essas são palavras de Rodas em um dos documentos de divulgação do projeto que se intitula A USP nas Olimpíadas de 2016.

Rita foi uma das atletas que participou desse programa. Ela conta que durante 2012 e 2013 recebeu uma bolsa auxílio, mas que não foi convidada para nenhum tipo de preparação especial. “Eu e meu irmão, que também é atleta, recebemos uma bolsa muito boa e que, graças a ela, conseguimos estender a nossa carreira esportiva na universidade”. Contudo, ela afirma que não se tratava apenas de um auxílio financeiro, mas sim de um projeto que oferecia, até mesmo, bolsa para pesquisa dentro do CEPE (Centro de Práticas Esportivas da USP) e da EEFE para análise das equipes, por exemplo. “Eu nunca tive contato com nada. Só me pediram para abrir uma conta no Banco do Brasil e eu recebia o auxílio. Nunca nos chamaram [os atletas] para nenhum projeto ou coleta de dados”. Não houve continuidade ao programa, Rita afirma que os atletas não foram procurados para renovação e acredita que isso pode ter uma relação com a crise financeira pela qual a USP passa.

 

Crédito foto de capa: Por Pedro Girardelli | Poli Rugby

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