Isabelle Wu

Anos de dedicação, mais de 130 medalhas e um amor

por • 26 de setembro de 2017 • Colaboradores, Colunas, Handebol, Individuais, PerfilComentários (0)4218

Conheça a história emocionante de Isabelle Wu, uma das atletas que viraram lenda e agora se despede do esporte universitário da USP.

 

Por Patrícia Beloni

Isabelle I Hue Wu chegou para trabalhar no hospital no dia seguinte ao InterUSP com os olhos inchados. “Parecia que tinha sido socada”, brincou ela. A mãe, chefe do ambulatório, perguntou o que tinha acontecido. “Ai, mãe, não posso mais jogar”, respondeu. Belle, como é conhecida, tinha acabado de voltar do seu último inter pela Faculdade de Medicina da USP.

Chegava ao fim a carreira esportiva universitária de uma das melhores atletas que a universidade já teve. Com mais de 130 medalhas, troféus e prêmios de melhor atleta, Belle marcou a história do Handebol e do Atletismo da USP e, com certeza, também foi muito marcada com tudo o que conquistou – desde amigos a títulos e momentos inesquecíveis.

Em quadra desde o seu primeiro ano, ela jogou de meia esquerda no Handebol, fez parte do Atletismo, competindo nos 100 metros (melhor tempo: 12,35s), no salto à distância (5m e 8cm) e no arremesso de peso (10m35cm). Além de integrar também a Seleção da USP (já no primeiro semestre do curso). “Eu já sabia jogar e normalmente as pessoas não sabem, então eu me destaquei”, conta.

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Belle jovaga handebol desde os tempos da escola, no Dante Alighieri, onde treinava duas vezes por semana e competia em alguns jogos. Já no Atletismo, a tradição vem da sua origem chinesa. “Sempre tinha um campeonato da comunidade. Eu corria, pulava, sem muita técnica, mas tinha uma boa noção”, diz a médica no último ano da residência em Dermatologia.

Nem tudo foi tão fácil assim

Seu início no esporte da Medicina não foi só flores. Logo no primeiro ano do curso, um incidente quase a impediu de defender a camisa da universidade: rompeu o músculo da coxa. “Estava sedentária, há 3 anos parada. De repente, resolvi treinar todos os dias, às vezes dois períodos por dia. Queria dar o meu melhor. Obviamente me machuquei e quase não joguei o InterMed em 2009”, conta ela, filha de ortopedista.

Isabelle teve que ficar parada por um pouco mais de um mês e ouviu do pai que precisava escolher. Não poderia fazer tudo isso. Foi quando decidiu sair do Atletismo e ficou só no Handebol. “O time estava crescendo na época. Era muito desacreditado, porque perdeu por muitos anos e tava sendo reconstruído”, lembra.

Apesar disso, a dedicação ao esporte não diminuiu. Na verdade, só aumentou com o tempo. Belle conseguiu ir para o InterMed e sofreu um baque com a intensidade do campeonato. “Apanhei muito. Voltei roxa, com a boca sangrando. Minha mãe não queria que eu jogasse mais. E a gente ainda perdeu”, conta hoje dando risada.

Mas foi nessa hora que percebeu que só os treinos não seriam o suficiente. Ela precisava de mais dedicação. “Preciso puxar ferro”, pensou. Começou a academia, ficou melhor fisicamente e muito mais forte. Começou a se destacar ainda mais e aí os prêmios e medalhas começaram a chegar aos montes.

Isabelle Wu

Belle com seus troféus. Crédito: Acervo pessoal

Volta do Atletismo e a transformação de Belle

Convencida por um amigo, o Batata, Belle foi retornando aos poucos ao Atletismo em 2012. Voltou com o arremesso de peso, aí foi completando o revezamento, depois o 100 metros, o salto, e quando percebeu, já estava de volta por inteiro. “Treinava duas vezes por semana e não convivia tanto com a equipe. Mas depois engatei de vez”, revela.

Todo esse empenho acabou mostrando algo a Isabelle que ela não conhecia. “Vi que o atletismo não era um esporte tão individual assim. O pessoal é muito família. Estão sempre lá pra você. É um perfil das pessoas que entram mesmo. E assim, o treino é um saco, é físico, né. Dê voltas e corra até morrer”, brincou.

Depois de um ano da volta para o Atletismo, Isabelle sentiu na pele como o esporte muda as pessoas. “Treinava todo dia, saía junto, comia junto, viajava junto. Ficava mais com eles do que com minha própria família. Eles até achavam estranho, mas é um negócio que você só vai viver durante a faculdade”, conta.

Segundo ela, isso veio em grande parte porque você presisa estar no seu máximo. O treino é pesado e é preciso se superar. “Isso gera uma conexão. Um apoio mútuo de incentivo. É maravilhoso trabalhar no extremo e poder contar com alguém pra te ajudar, pra te incentivar”.

Foi tudo isso que, no final das contas, fez ela continuar na equipe até o final. Foi no Atletismo que Belle conheceu o amor da sua vida, Danilo. Veterano, quando Belle entrou ele estava em intercâmbio em Harvard e eles só foram se conhecer no final de 2013. Carona vai, carona vem, o atleta que via todos dentro da equipe como irmãos se apaixonou.

“Mas eu não sabia se estava rolando algo ou não. Ele é uma pessoa muito boa, cavalheiro com todo mundo. Até que ficamos e logo depois ele me pediu em namoro ao meu pai!”, conta Belle. Namoradeira, ela sabia que dessa vez era diferente. “Todos meus namoros duraram 2 anos e meio. Se dessa vez passasse, eu sabia que era para casar”. E casaram em 2016, formando o casal do troféu Caveirão, prêmio dado aos melhores atletas da faculdade.

Isabelle Wu

“Medalha, Medalha, Medalha” Só isso, Belle? Crédito: Patrícia Beloni

O que fica: os melhores prêmios não são as medalhas

Hoje, só pela Medicina, são mais de 130 vitórias e diversos troféus. Mas o que Belle mais guarda na memória e no coração são os amigos – a família – que fez, e a pessoa que se tornou. “Com os adversários fortes e com o time apoiando, a gente cresce junto. Hoje, se eu precisar de alguma coisa, são essas pessoas que eu vou procurar”, revela.

E não tem jeito. Segundo Belle, fazer Medicina é mesmo um mundo à parte. “É período integral, ou você está estudando, ou treinando, ou jogando. Você só fala de medicina, só tem amigos da medicina, você vive a medicina”, brinca. Mas foi tudo isso que fez ela ser o que é hoje e ter alcançado todas essas vitórias na vida.

“Mudei muito mesmo fisicamente. Fiquei mais forte. Mas, acima de tudo, me sinto uma pessoa melhor, mais evoluída. Porque conviver com pessoas boas faz isso com a gente”, conta ela lembrando do técnico Álvaro, da mentora e veterana Carol Campos no Handebol, e de toda a equipe do Atletismo.

Mas acabou mesmo pra ela?

Na Medicina, os atletas podem jogar InterMed até o último ano, mas o InterUSP e alguns campeonatos menores são permitidos até o terceiro ano da residência. Para Belle, a hora chegou.

A última InterMed foi em 2014, no seu sexto ano, e foi inesquecível, conta ela. “A gente era favorito, mas eu não estava confiante, tipo, “esse time tá animal”, lembra. A final foi contra a Medicina Paulista, uma disputa difícil, que terminou empatada e seguiu para a prorrogação. “A gente tinha perdido a final da ndu pra Paulista já”. A prima de Belle, uma das peças chaves se machucou e saiu. Logo em seguida, a Med USP virou o jogo.

Já o último InterUSP passou e agora ela só aparece para treinar de vez em quando para brincar e deixar o coletivo mais forte para as atletas que ficaram. “Porque as meninas novas precisam jogar também. A Medicina tem uma tradição de formar atletas. As pessoas entram sem habilidade e são transformadas”, revela.

É claro que Belle sente muita falta já. “Engordei depois de parar de treinar e sinto muita falta. Fiquei meio perdida. Você chega em casa, não tem nada, não tá morrendo de pressa, muda completamente a vida. Quando a gente treina, a gente fica mais disciplinado, mais regrado”, aponta.

Se ela vai voltar? A gente não sabe. Nem ela sabe. Mas agradecemos toda a sua contribuição ao esporte universitário e a oportunidade de conhecer sua história, que se contada aos todos detalhes incríveis, daria um livro. Obrigada, Belle!

 

Crédito foto de capa: Por Alexandre Magno

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