gênero no esporte

Sob o comando delas: questões de gênero no esporte

por • 14 de agosto de 2017 • Basquetebol, Colunas, Diversidade, Futebol de campo, Futsal, Handebol, Individuais, Uncategorized, VôleiComentários (0)2587

As questões de gênero no esporte são cada vez mais discutidas: ao mesmo tempo em que a mulher garante mais posições de destaque, ainda há muito caminho a se percorrer em termos de igualdade.

 

Por Patrícia Beloni

 

Vôlei, handebol, basquetebol, futebol ou rugby, não interessa a modalidade. O número de mulheres treinadoras esportivas (seja de equipes universitárias ou não) é cada vez maior, mostrando que o não é o gênero que faz diferença, e sim a experiência e o conhecimento. “O que faz um bom profissional não é o sexo, é a sua competência”, explica Paula Matsushita (Matsu), licenciada pela FMU, professora de Esportes do Colégio Oswald de Andrade e técnica de Futebol do Pelado Real FC.

Ainda com baixa representatividade no meio esportivo, seja como atleta ou em posições de poder, elas seguem lutando contra o preconceito e quebrando a crença limitante de que o esporte é um ambiente masculino – inclusive, ideia essa que está no nosso próprio inconsciente e a gente nem se dá conta.

Presente de diversas formas, o preconceito está no atleta que não respeita ou não confia na técnica, nos treinadores que descredibilizam treinadoras, no árbitro que media e apita a partida de forma diferente quando é uma mulher em quadra, “e, por incrível que pareça, às vezes por parte de mulheres mesmo. Independente de quem seja, o preconceito acontece, pelo mesmo motivo: achar que o esporte em geral não foi feito para mulheres”, revela Matsu.

Segundo ela, em algumas modalidades isso fica mais nítido, como é o caso do futebol. Isso porque se acredita que só os “homens passam a ideia de liderança, de força, de punho forte. Mas não é bem assim. Vemos muitos técnicos homens que não têm perfil para gerenciar equipes”, revela Matsu. Mas o preconceito, vale deixar claro, não está ligado apenas a determinadas modalidades.

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No vôlei, por exemplo, em que as mulheres são aceitas com mais facilidade, também há a carência de técnicas, principalmente em times masculinos. “Talvez porque achem que somos frágeis, não saberemos lidar com conflitos do time, ou que não teremos força física pra dar treino”, chuta Júlia Simões Sant’Anna, auxiliar do time do Direito PUC feminino e ex-técnica do masculino da Geologia da USP.

“Te respeitam por ser mulher? Não dão em cima de você?”, essas são algumas das perguntas que ela escuta por aí. “Mas não importa quem está ali. Os atletas vão respeitar se você passar segurança para eles, e isso independente de idade, altura, sexo, ou qualquer coisa. Ele está lá para aprender e melhorar e quer alguém que o ajude e quem ele confie”, aponta Julia.

 

Por que elas ainda são tão poucas?

gênero no esporte

Ana Elisa (primeira em pé da direita para a esquerda) com a equipe de Handebol Feminino do IME-USP.

Dá para contar nos dedos as mulheres técnicas, hoje, em cada modalidade esportiva. Dentro da USP, por exemplo, são duas mulheres trabalhando com basquete, nove com futsal, seis com handebol e três com voleibol. Tais dados foram levantados por Ana Elisa Viana, treinadora de handebol feminino da Eca e do Ime, auxiliar da Poli e assistente de Educação Física Escolar, e pesquisadora do tema em sua segunda graduação pela EEFE.

Segundo ela, o número reduzido pode ter influência da baixa quantidade de mulheres que entram no curso de Educação Física e Esporte. De 100 ingressantes anuais na EEFE USP, geralmente menos de ¼ são mulheres.

Grande parte das mulheres que se tornam treinadoras foram incentivadas pelo fato de já praticarem algum esporte desde jovens. Além disso, há o denominador comum de fortes estímulos à carreira na infância de cada uma, seja vendo ídolos e times brasileiros em destaque, seja por uma base educacional forte no quesito da prática esportiva. Mas cada vez menos se praticam esportes nas escolas e isso acaba refletindo no esporte de base, no profissional. O basquete é um dos que mais sofrem. “É um público pequeno que tem contato com a modalidade. Alguns clubes nem tem basquete feminino”, revela Vivian Gitti (Vivi), técnica de basquetebol feminino da Poli USP, Direito PUC, do Pinheiros Feminino Master e da Federação sub 17 e 19.

gênero no esporte

Vivian Gitti com a equipe de Basquete Feminino do DireitoPUC-SP.

Configura-se, portanto, um ciclo vicioso: “é um efeito cascata, de cima para baixo. A gente não tem ídolos, espelhos femininos. E tem cada vez menos interesse. O vôlei, por exemplo, acaba aparecendo mais, então a menina vai querer mais essa modalidade que ela vê sempre na TV disputando título”, ressalta.

Mas, ainda assim, até o vôlei carece de mulheres técnicas. Isso porque a falta de incentivo e estímulo reflete na ausência de profissionais da área, sejam atletas ou treinadoras. “Se não existem mulheres se formando na área, de fato ficará difícil terem mulheres em posições de liderança”, aponta Julia.

“Ex-atletas também não entram mais na faculdade para se tornarem técnicos. O foco é muito mais acadêmico”, lembra Vivi. Andam esquecendo que “esporte é mais do que lazer. É saúde, é  educação”, diz ela.

 

Os caminhos das posições de destaque

De acordo com Ana Elisa, a baixa representatividade é fruto do cenário machista no qual o esporte, e toda nossa construção social, está inserido. “As oportunidades que a mulher tem no esporte hoje foram construídas através de uma história de dificuldades e restrições, de reprodução dos valores e da organização da nossa sociedade, então é difícil existir um equilíbrio para algo que foi desencorajado e tirado o direito por tanto tempo”, conta Ana.


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Mesmo com a falta de espaço para mostrarem do que são capazes, elas estão lutando pelos seus sonhos. “Agora temos mais mulheres porque, em determinado momento, as que conseguiram entrar no meio começaram a convidar outras para participarem das comissões técnicas”, aponta Cristiane da Silva Mouro (Cris), treinadora de handebol, da Poli e da Educação da USP, auxiliar da Eca e estagiária no Centro Olímpico.

E é algo que motiva ainda mais, conta Karen Dorta, educadora de ONG, técnica de futsal feminino da Pedagogia e da EACH, e do masculino da Nutri, e auxiliar do feminino do IME. “Quanto mais mulheres estiverem ocupando cargos assim, mais vozes teremos e poderemos vivenciar e lutar diretamente contra o preconceito”.

E, dessa forma, poder atingir a raiz do problema já lá cedo, na educação de base. É “a presença e a permanência das mulheres na área que ajudam a desconstruir estereótipos de gênero e aproximam meninas e mulheres do esporte”, completa Ana. Atingindo, enfim, a meta final de não ser olhada como mulher ou homem. Mas sim como um bom profissional ou não.

Crédito foto de capa: Por Alexandre Gallucci (Mari com equipe de Futsal Feminino da Sanfran)

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