Mesmo com machismo presente, mulheres lideram presidências nas Atléticas da USP.


Por Patrícia Beloni

“Apesar do machismo ainda ser visível em milhares de atitudes, porque, infelizmente, ainda vivemos em um contexto em que o pensamento misógino é predominante, me surpreendi absurdamente com a força que as mulheres têm ganhado na Atlética da minha faculdade”, disse Ana Savaget, caloura do curso de Medicina da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

O depoimento da atleta de handebol evidencia a presença inegavelmente forte do preconceito contra a mulher, mas também mostra algo que vem crescendo e ganhando força a cada ano, dentro e fora do esporte universitário, ainda que em escala pequena e longe ainda do nível satisfatório: as mulheres estão conseguindo alguns avanços em determinar e afirmar seu espaço na sociedade.

A luta ainda é árdua e a estrada é longa, mas o ano de 2017 é um dos momentos importantes para o esporte universitário da USP: dentre as cerca de 30 atléticas existentes na faculdade, mais da metade foram registradas com presidentes mulheres, sendo que elas ainda ocupam diversos cargos de alta responsabilidade como vice-presidência, tesouraria e diretoria-geral do esporte (DGEs).

“São por volta de 16 presidentas esse ano, isso é praticamente um milagre”, disse Gabriela Nogueira, presidente da Associação Atlética Acadêmica Lupe Cotrim, da Escola de Comunicação e Artes (ECAtlética). Entretanto, apesar de estar animada com o fato, Gabriela, que também é atleta, não enxerga a situação apenas como uma conquista.

É muito sintomático a gente ver agora várias mulheres em cargos de destaque nas atléticas e a gente se orgulhar disso, como se já não fosse pra ser assim antes. O certo seria que nunca tivesse existido essa diferença. Essa é uma mudança que está sendo notada porque de fato salta aos olhos”, diz ela.

 

Machismo velado e/ou escancarado

“Quando decidi fazer Medicina, a primeira coisa que ouvi foram alertas sobre o machismo fortíssimo e conhecido que existe nas atléticas desse curso. Coisas como “você não vai ter nenhum poder de fala principalmente no meio esportivo”, “vão te obrigar a treinar tudo”, “vão te dar apelidos horríveis”, lembra a caloura Ana.

“Não dá pra mina ser social”, “Mulher chora sob pressão”, “Time de mina é assim mesmo, as minas sempre afinam”, resume muito do que elas (nós) escutam de forma inescrupulosa no ambiente. Mas, algumas vezes, a discriminação também acontece de forma velada, conta Gabriela. Isso porque o preconceito também está presente nos detalhes que podem passar batido.

É o exemplo do chamado “mansplanning”, que acontece quando um homem tenta explicar algo à mulher de forma didática extrema, como se ela não fosse capaz de entender, ou ainda apenas para demonstrar conhecimento maior do que o dela, reforçando o que foi dito, como se a mulher não tivesse credibilidade, e também quando ele tenta convencê-la sem argumentos de que ela está errada.

Caso Medicina

De acordo com ex-membros, membros atuais e atletas e ex-atletas, a Atlética da Medicina, mantinha um número de mulheres limitado. Segundo elas, os meninos falavam que só podiam até 4 mulheres em cada gestão, num total que gira por volta de 15 cargos, sendo quem não podiam ocupar cargos de alta gestão, como presidente, vice-presidente e tesoureiro, por exemplo.

Só tinha autorização para fazer parte de posições responsáveis pelo Patrimônio, pelo Marketing, e as funções de Secretária e Administrativo (às vezes DGE, desde que tivesse um outro DGE homem). Mas, em 2013, as coisas começaram a mudar.

Entre denúncias graves de machismo e estupro em festas, a Atlética sofreu um chacoalhão e aos poucos a abertura ás mulheres se iniciou. Nesse ano, as meninas deixaram de ter número limitado e 7 diretoras assumiram cargos, porém ainda sem posições de destaque, e a forma de se posicionar delas diante esses fatos mudou.

“Houve um impulso entre as meninas dentro da Atlética em fazer algo para melhorá-la, já que nós de fato conhecíamos o que acontecia lá dentro. Por ocupar um cargo “masculino”, eu sempre convivi com um conselho quase exclusivamente de homens e inicialmente não tinha muita abertura para opiniar. Com o tempo, eu acabei conquistando o meu espaço”, contou Gabriela Negreti, DGE da Atlética da Medicina em 2014.

Heloisa Lages, DGE em 2016, junto com Gabi Miglioranza, que foi tesoureira, contam que, em 2015, foram 16 diretores, sendo nove meninos e sete meninas. Em 2016, foram nove meninos oito meninas. Reconheceram que o fato foi um grande avanço para a Atlética.

Quando questionada sobre o histórico, a vice-presidente da Atlética da Medicina deste ano, Barbara Bucelli Colonno, disse desconhecer as ex-práticas da entidade. Segundo ela, nunca houve, mesmo em estatutos antigos, a restrição da participação de mulheres em cargos como presidência, vice-presidência e tesouraria.

“A diretoria sempre foi composta majoritariamente por homens como qualquer outra atlética universitária. Porém, desde que entrei na faculdade, só presenciei o crescimento da participação das mulheres na administração, tanto em quantidade, quanto na ocupação de cargos representativos”, afirmou ela.

Mas, diferente da Medicina, algumas Atléticas como a Atlética XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, por exemplo, assim como a Atlética do  do Instituto de Matemática, Estatística e Computação (IME), já tinham um quadro significativo de mulheres desde 1996. Isso não quer dizer que o machismo não era presente nesses lugares.                

Marcia Morais Ferreira, presidente da Atlética do IME em 2006 e uma das primeiras mulheres a ocupar o cargo, diz que não sentia nenhum preconceito. Sempre foi respeitada em todos os ambientes em que atuou pela atlética. “Na minha época também havia outras mulheres, então eu não era a única”, conta ela.

Mas a ex-presidente sabe que não era em todo lugar que existia essa liberdade. “Olhando pro passado agora, percebo a existência de ambientes tipicamente masculinos, como nas reuniões da Comissão de Organização do Intercomp, por exemplo”.

Importância das mulheres em cargos de gestão

A ideia de que o esporte seja algo feito para homens está enraizado na cultura da sociedade. Faz parte daquele mesmo conceito que diz que mulher tem que usar rosa e brincar com boneca; homem usar azul e brincar de carrinho. As equipes e a presença femininas são muito negligenciadas. Falta incentivo, interesse, confiança.

Seja como atleta, técnica/treinadora ou membro da Atlética, elas continuam sendo pouco representadas. Ainda possuem visibilidade e valorização baixas dentro da prática esportiva. “Quando você coloca mulheres nas gestões das atléticas, você evidencia a participação feminina, não só como atleta, mas também como gestora. Nossa presença tem que ser notada. A gente quer decidir também”, explica Gabriela, da ECAtlética.

Por isso que, “dentro do esporte, é importante que a mulher tenha esses cargos. Justamente pra quebrar esse estigma de ser um ambiente masculino”, ressalta Marcia, ex-presidente da Atlética do IME. “Eu acredito que um dia isso vá ser bem natural, e que na hora de se escolher os gestores, as pessoas vão avaliar apenas as competências, sem influência de gênero”, fala, com otimismo.