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A reinvenção de atletas: das federações ao universitário

por • 31 de julho de 2017 • Colaboradores, Colunas, Futebol de campo, Futsal, Handebol, Jogo a Jogo, VôleiComentários (0)842

Uma conversa com quatro atletas universitários que foram do alto rendimento da base e reinventaram sua relação com o esporte por meio do universitário.

Por Fernando Maluf

O esporte universitário – minha experiência com esporte competitivo na vida adulta – me ensinou algumas coisas. Uma delas é que às vezes o seu adversário é muito melhor que você. Tão melhor, que você vai perder aquele jogo, perder feio, mas pode sair satisfeito por ter dado seu melhor, conseguido um bom desempenho dentro de suas possibilidades. Uma metáfora para várias situações na vida.

Um desses adversários invencíveis, para mim, foi o esporte profissional. Tentei algumas peneiras com catorze ou quinze anos, não fui selecionado, e, então, com o tempo, fui desistindo dessa ideia, que voltei a encontrar mais tarde, apenas como uma ferramenta de contemplação: teria sido legal ser profissional, hein? Acho que eu ia gostar. Mas é algo distante: tipo aquele jogo em que você foi arrasado mesmo jogando muito bem. Seria legal ter aquela medalha, né? Mas tudo bem. Vida que segue.

Assim como foi pra mim, o universitário vira, todos os dias, opção pra muita gente que pensava em uma carreira profissional no esporte – uma carreira que, pelas mais variadas razões, não se materializou.

Depois de conversar com quatro atletas do universitário que tiveram experiências com esporte de alto rendimento e já estiveram realmente próximos do profissional, me deparei com uma pergunta. Será que eu, um orgulhoso jogador (ex, na verdade: me formei no fim do ano passado) de handebol universitário, com meus dois treinos semanais seguidos de uma cerveja com pizza no bar, não idealizava demais a ideia de ser atleta profissional?

É uma pergunta que não tem resposta, na verdade. O melhor é você ler também esses relatos e tirar suas próprias conclusões.

Vinicius Soares, futebol, EEFE

atletas universitários

Vinícius na equipe de base do Santos FC

Eu joguei futebol já de uma maneira mais séria desde pequeno. Aos 10 anos, me observaram jogando um torneio pelo clube onde era sócio e me levaram pra fazer teste no Santos F.C. (campo e futsal), onde fui aprovado e fiquei até os 15 anos de idade. Depois disso, eu fiz uma cirurgia no joelho e resolvi ficar afastado do futebol competitivo. Voltei a jogar uma competição oficial com 17, 18 anos, pelo sub-20 do Jabaquara, onde me profissionalizei, já no ano seguinte, 2007 (então com 18). Disputei dois anos seguidos (2007 e 2008) o Campeonato Paulista da Segunda Divisão (a famosa bezinha). Treinava de manhã e à tarde, e à noite fazia o curso de educação física na FEFIS, em Santos.

No final de 2008, resolvi ir para Itália fazer minha dupla cidadania para ter passaporte europeu e tentar me aventurar no futebol fora do país. Voltei de lá em 2009 e um clube da terceira divisão da Espanha me levou para jogar. Lá fiquei uma temporada (2009-2010), me machuquei nas últimas rodadas e voltei ao Brasil. Depois disso, ainda em 2010 fui mais duas vezes pra Itália, levado por um empresário, mas não cheguei a jogar oficialmente…

atleta universitario

Vinicius (quarto da esquerda para a direita, em pé) com o ouro da Copa dos Campeões 2016 pela equipe da EEFE USP.

[Não seguir a carreira profissional] Foi uma escolha minha sim, as minhas experiências profissionais foram bem complicadas, muitas promessas falsas, muitas coisas erradas e desumanas. Os dirigentes e empresários não cumpriam o que combinavam… Isso foi me tirando a vontade e a crença no futebol profissional. Não estava mais feliz. Para mim, tinha se tornado um peso. E resolvi estudar o esporte para me formar e tentar fazer algo diferente daquilo que tinham feito comigo. Me inscrevi na Fuvest no último dia (ainda na Itália) e, cara, foi a melhor escolha que eu poderia ter feito. Isso mudou a minha vida. E eu não tinha ideia de como era o esporte dentro a universidade. Não tinha entrado tanto com essa ideia. Mas, quando participei do meu BichUSP, eu senti coisas que não sentia desde a época de criança, adolescente. Foi animal.

A partir daí, foram seis anos que eu fiquei no esporte universitário, do qual não lembro de ter deixado passar um jogo. Eu fazia aquilo totalmente por prazer… parece que tinha tirado todo o peso de ser um jogador profissional e deixado voltar toda a alegria de criança, misturado com a competitividade que sempre me motivou em toda a minha vida esportiva. Foi sem dúvida o lugar no qual fiz meus melhores amigos e tive as minhas maiores alegrias. Agora que terminou, vai fazer falta pra caramba, mas tenho que agradecer depois tudo o que ele me proporcionou…

 

Daniela Cremasco, handebol, Pedagogia/RI

Daniela arremessando em um jogo pela equipe profissional do Pinheiros.

Pensei principalmente quando mais nova, logo que comecei a jogar no colégio e iniciei os treinos em clube. Com o passar do tempo, continuei treinando e jogando federação mas cada vez mais fui deixando essa opção de lado. Cheguei a jogar um ano de adulto pelo Clube Pinheiros, quando ainda era da categoria júnior, mas praticamente não entrei em nenhuma partida.

[Não seguir carreira profissional] Acho que em grande parte foi uma decisão minha, que começou bem antes de deixar o clube, quando comecei a conceber outras opções, de estudo, trabalho e vida mesmo. Quando parei de treinar em clube foi uma decisão minha, mas também influenciada pela minha condição de jogo na época. Acredito que eu não tinha tanta condição de disputar uma posição de titular no time e muito menos acessar a seleção brasileira. Eu também estava bem cansada da rotina, de ter que manter um compromisso e perder muitos outros eventos e oportunidades por causa do handebol.

Dani atuando pela sua ex-equipe do Instituto de Relações Internacionais da USP.

 

O esporte universitário é o que hoje me mantém atrelada a algo que gosto muito e satisfaz meus principais objetivos com o esporte: me divertir, ficar e encontrar as pessoas que eu gosto e, claro, jogar mesmo, o que gosto muito e não me vejo parando totalmente nunca (hehe). O esquema é diferente claro, mas continua sendo algo muito presente e importante para mim. Ainda treino e jogo muito frequentemente.

 

Renato Pavone, vôlei, ICBIO

Renato levantando pelo Sesi

Eu sempre gostei muito de esportes, mas nunca pensei em ser um atleta profissional. Comecei a jogar vôlei por influência das minhas irmãs, que me ensinaram os primeiros fundamentos e, em 2004, entrei no meu primeiro clube. Naquela época, eu tinha 9 anos, quatro a menos do que o restante dos atletas da mesma categoria, e ainda não tinha idéia de como eles levavam a sério os treinos e os campeonatos.

Continuei a jogar até os 17 anos, quando resolvi parar e optar pelos meus estudos. Lembro que era uma rotina bastante puxada, mas tive muito apoio dos meus pais, meus incansáveis torcedores! Eles iam (e ainda vão!) em todos os meus jogos, ficavam gritando lá da arquibancada.  

Gosto de praticar esportes como um hobby, para descontrair e sair um pouquinho da rotina de estudos da faculdade. O que mais gosto hoje em dia é de poder fazer vários esportes, e não somente o vôlei, o que acho que não conseguiria escolhendo o vôlei como uma profissão.

Renato com o troféu de campeão da Série B do NDU no segundo semestre de 2016.

O mais perto que cheguei de me tornar atleta profissional foi quando integrei a seleção brasileira infanto-juvenil, em 2010. Fiquei no mesmo alojamento que os atletas profissionais, aqueles que, até então, eu só tinha visto pela TV. Lembro que fizemos amistosos contra a Rússia e, naqueles dias, percebi que não era tão alto quanto eu achava que era. Brincadeiras à parte, resolvi parar em 2011, no meu terceiro ano do ensino médio. Era ano de vestibular, o nível de exigência havia aumentado muito e eu já não estava mais conseguindo conciliar os treinos com os meus estudos, que eram minha prioridade. Além disso, eu sabia que não tinha a mesma qualidade técnica que os outros atletas, que eram realmente muito bons.

Eu realmente não imagino a minha graduação sem o esporte universitário. Foi a partir dele que eu conheci a maioria dos meus amigos, que tive a oportunidade de treinar outras modalidades e sentir frios na barriga que nunca tinha sentido. Sou muito grato por todos os atletas com quem já joguei junto e pelos técnicos sensacionais que tive, em especial o Holandês, o Cortez, o Renan, o Nicoletti e a Aline! A sensação de representar sua faculdade é muito boa e eu espero poder defender minha atlética por um bom tempo ainda!

 

Shayene Metri, judô/hand, ECA/FEA

Acho que a ideia de ser atleta profissional veio muito depois para mim, como consequência… Eu comecei no judô muito cedo e sempre tive uma visão do esporte como um hobby, independente dos meus resultados. A realidade do meu envolvimento veio meio como um “pé na bunda” mesmo: ou eu levava a sério ou eu levava a sério. Quando eu percebi, estava viajando, competindo campeonatos de alto nível e abrindo mão de outras coisas da minha vida (descanso, sair com amigos, comer besteiras, enfim) por causa do esporte.

Desde que eu tive idade para isso, eu já competia nos campeonatos estaduais da federação. Depois, quando tive idade para os regionais e brasileiros, eu estava lá também. Acho que eu posso dizer que sempre competi no que a gente chama de alto rendimento da base. O auge de dedicação e campeonatos com certeza foi 2005, quando eu ganhei tudo que tinha de possível para ganhar: estadual, regional, brasileiro, sul americano e pan americano.

No fim do ano seguinte (2006), tive um problema no joelho e eu era muito nova para operar, não valia a pena. Mas tinha que ficar em repouso e meu rendimento só caía. Isso mexeu muito comigo. A vulnerabilidade de depender inteiramente do meu corpo para realizar algo sempre me incomodou e, então, eu pus em xeque a minha relação com o esporte. Como adolescente um pouco revoltada com a situação e o plus de ser época de pré-vestibular, eu decidi largar de vez, sem nem pegar minha última faixa (graduação) com meu sensei (professor). Parei meio “de mal” com o esporte.   

Daí, foram dois anos parada antes de vir para São Paulo, fazer jornalismo na ECA. Quando cheguei aqui, lembro das pessoas da Atlética pedindo para eu competir BichUSP e outros campeonatos de calouros. Fui aquela bixete folgada que falava que ia treinar e participar, mas miava tudo em cima da hora. Não treinei nada, apareci vez ou outra em treinos de judô (era ECA e FEA juntas)… Mas basicamente passei o primeiro ano da faculdade bebendo cerveja e ficando na vivência. O envolvimento com o esporte universitário só começou no segundo ano, quando entrei pra Atlética.

Shay arremessando em partida contra o IME-USP no BIFE.

Eu me envolvia muito mais em coisas referentes à gestão e ao social da Ecatlética. Ainda não treinava nada (tipo de atleticano que eu já julguei, aliás ahaha). Até que um belo dia, à toa, prometi para umas amigas que eram do time de hand da ECA que eu ia aparecer em um treino…

Apareci, curti, boa parte do time já era minha amiga… E, quando eu vi, eu já estava super envolvida e me dedicando à modalidade. Foi uma experiência bizarra em vários sentidos:

Primeiro porque eu era bem ruim, bem ruim mesmo, sem forçar. Do tipo que não sabe correr e bater bola e respirar ao mesmo tempo. Então foi meio que um desafio pessoal querer aprender pelo menos um pouco da modalidade. Segundo porque, apesar de eu ter feito outras modalidades quando criança (tipo vôlei), meu histórico com esporte é meio que relacionado a individuais. Participar de um esporte coletivo foi (e continua sendo) um aprendizado muito grande. Por fim, o universitário é aquela corda bamba entre o rendimento e o lazer. Ninguém recebe, ninguém tem perspectivas com o esporte, mas todo mundo (ou quase todo mundo) se dedica, simplesmente por alguma paixão que te move ali (seja as amizades, o esporte em si ou o rolê).

 

Foto de capa por Ricardo Kuba

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