Por Matheus Souza | Atlética Unesp Bauru

 

[dropcap]E[/dropcap]ntre os dias 13 e 15 de abril deste ano, teve início a temporada nacional 2017 de lutas da Confederação Brasileira de Desporto Universitário (CBDU), com a Liga do Desporto Universitário de Lutas (LDU), em São Caetano do Sul. A LDU de lutas funciona como uma seletiva para o segundo maior evento de esportes universitários do planeta: a Universíade de Verão, que ocorrerá em agosto na cidade de Taipei, em Taiwan.

Henry Nakata, um dos atletas que participaram da competição esse ano, conseguiu a primeira colocação em sua modalidade Daoshu/Gunshu, representando o campus da UNESP-Bauru e assim garantindo a sua ida para as competições em Taiwan. A vitória de Henry foi comemorada em sua cidade, mas, ao mesmo tempo, trouxe a tona uma triste realidade: a falta de investimentos no esporte universitário no Brasil. Nakata, assim como em outras competições das quais participa, teve de pagar pela ida aos jogos com dinheiro do próprio bolso.

Henry Nakata, campeão da LDU 2017 na modalidade Daoshu/Gunshu. Foto por Maximilian Kobayashi

Essa prática é comum entre os atletas que têm de competir em outras cidades, estados ou países. Algumas entidades ainda contam com recursos que possibilitam a ida de atletas a algumas competições, próprias ou não, como é o caso de algumas atléticas das universidades espalhadas pelos campi de todo o país. Na maioria das vezes, operam com recursos adquiridos por meio da venda de produtos, organização de eventos e patrocínios.

Mas as atléticas não conseguem subsidiar todas as competições e muito menos a enormidade de atletas que as representam.  “A realidade é que o esporte universitário no Brasil sofre muito com a falta de incentivo e de apoio. Dificilmente encontramos atléticas que recebem algum tipo de apoio financeiro. Mesmo assim, somos obrigados a custear praticamente tudo: desde os treinos até a inscrição em competições. Muitas atléticas deixam lado o que é o seu principal papel, isto é, o fomento ao esporte universitário, simplesmente por não conseguir dar o mínimo de suporte aos seus atletas”, relata Flávio Machado dos Santos, presidente da Associação Atlética Acadêmica da Unesp Bauru e atleta do campus.

Sérgio Caumo, técnico de judô também na cidade de Bauru, afirma que a maior parte dos atletas que representam o país em jogos universitários são estudantes de instituições particulares de ensino das capitais, que recebem bolsas para competir por  suas faculdades. Para Caumo o investimento no esporte brasileiro é deficiente em todas as esferas.        

O Brasil é um país ainda carente de recursos quando o assunto é esporte. A falta de investimento no esporte universitário é apenas um reflexo do descaso com que é tratado o assunto como um todo no país. Alguns atletas têm a sorte de contar com o apoio do governo. Entretanto esse apoio é bastante escasso e direcionado e ocorre, na maioria das vezes, por meio de projetos. Projetos esses que podem ser a solução na vida de muitos atletas, principalmente os iniciantes, mas que, uma vez fora desse planejamento, se encontra desamparado novamente. “Nesse segmento aparecem os projetos sociais. A atleta do brasil que foi medalha de ouro no judô nas olimpíadas, Rafaela Silva, veio de projetos sociais, com dificuldades no treinamento, com dificuldades pra comer… A gente tem um capital humano muito bom, mas investimento nós nunca tivemos. Quando chega perto das olimpíadas acontece alguma coisa. Hoje o governo tem alguns incentivos no esporte, na esfera federal, na esfera estadual, mas tem que ser um projeto bem fundamentado, para poder buscar esse recurso e assim mesmo dificulta de várias formas”, afirma Caumo.

Henry Nakata atleta de Kung Fu/Wushu. Foto por Maximilian Kobayashi

Durante o ano de 2016, em que o Brasil sediou as olimpíadas, foram investidos mais de 4 bilhões de reais no esporte em todo país, segundo o portal Brasil 2016, site oficial do governo federal sobre os jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016.  No entanto, esses investimentos são pontuais e, normalmente, não são aplicados na base. Muitos atletas, ainda, receberam investimentos durante os jogos mas voltaram a situação de total desamparo após o término da competição. Esse é o caso do atleta brasileiro Arthur Zanetti, que pratica ginástica olímpica, com especialidade nas argolas e que, durante os jogos recebia o apoio de patrocinadores, mas que o deixaram assim que se findou o ciclo olímpico brasileiro.

O esporte, no entanto, ainda encontra forças para sobreviver e se multiplicar. Muitos atletas se perdem no caminho por conta das dificuldades que encontram para atingir os seus sonhos, mas muitos outros permanecem tentando. Henry Nakata é um deles: “Lógico que já houve momentos em que pensei em parar por conta da falta de investimento e valorização do nosso esporte. Isso desanima bastante. Mas hoje me sinto motivado pelo amor ao esporte e pela satisfação pessoal, pois tudo o que vivemos nas competições, treinos, em toda a caminhada em busca dos nossos objetivos, são coisas que só temos a oportunidade de viver no esporte, que nos trazem um grande aprendizado para a vida também. E isso não há dinheiro que pague”.

Crédito foto de capa: Maximilian Kobayashi