17 de maio: dia internacional contra a homofobia.

por • 17 de maio de 2017 • Basquetebol, Colunas, Copa USP, Especial, Futebol de campo, Futsal, Handebol, Individuais, Jogo a Jogo, Jogos da Liga, Rugby, VôleiComentários (0)1824

Por Shayene Metri

O esporte, ao mesmo tempo que pode ser uma ferramenta de inclusão social poderosa, é também um espaço de reprodução de preconceitos. Não precisa ser atleta, nem intensamente envolvido com o mundo esportivo para entender essa contradição. No caso da LGBTTfobia, a violência ainda se faz lugar comum em jogos, torcidas e, algumas vezes, até dentro das próprias equipes, seja no cenário do alto rendimento, seja no universitário.

Segundo Roberto Antiga Júnior, atleta de Vôlei da FFLCH-USP, o ambiente esportivo, assim como a sociedade, se caracteriza por ser heteronormativo e machista. Hinos com letras falocêntricas, o famoso grito de “viado” como algo ofensivo ou mesmo a invisibilidade conferida, em algumas situações, aos atletas LGBTTs são exemplos de como essa violência se faz presente. Roberto, inclusive, apresenta uma série de causos em que sofreu algum tipo de homofobia enquanto atleta: ele joga vôlei há 20 anos, já tendo passado pelo alto rendimento e atualmente no universitário.

“Estávamos com um time catadão na CUPA de 2015, eu era o único do time original, que jogava mesmo e a partida era contra o CAASO. Ou seja, nem era um jogo competitivo. Fui sacar e a torcida lá gritando ‘viado, viado, viado’ e nessa eu fiz uns três ou quatro aces. Foi a hora que eu não aguentei e respondi, porque eu não fico quieto. E daí piorou, juntou mais gente, saiu do limite.”, relata Roberto. No fim das contas, de acordo com o atleta, os torcedores saíram de trás dele, mas continuaram com os gritos e músicas ofensivas do outro lado da quadra. Depois, quando o caso foi reportado em súmula e enviado para a Comissão Organizadora, o CAASO teve alguns pontos perdidos no panorama geral do campeonato. Porém, a decisão passou longe de ser eficiente: “o que me deixou chateado, na verdade, foi que, sim, eu esperava que isso (as ofensas) fosse acontecer, sabendo do histórico do CAASO. Dentro da reunião da Comissão Organizadora, entretanto, definiram uma penalidade mínima que não prejudicou em nada o CAASO ali no campeonato. Acho que todo mundo tá passível a erro, eu também reproduzo opressão, eu como homem branco cis reproduzo opressão. Mas há de se encontrar formas de diminuir isso. Espero que eles estejam buscando uma forma efetiva de mudar essa questão”.

No caso de Luísa Helena Grosso Silva, estudante de Direito na PUC-SP e Pedagogia na USP, sendo atleta de Futsal e Handebol por ambas as faculdades, a história foi um pouco diferente, mas também evidencia a LGBTTfobia dentro do ambiente universitário. “Sou Bi e já rolou em festa universitária (promovida pela Atlética da PUC) de eu estar beijando uma outra menina e rolarem uns comentários altos de ‘nossa, quero participar também’, etc. Aquela fetichização escrota que mulher que já beijou mulher em ambiente hétero sabe bem como é.”. Para Luísa, o fato de ser mulher e ser lida como heterossexual (de acordo com a heteronormatividade), a coloca na posição “de alguém que é promíscuo ou que vai querer que um homem se envolva comigo e minha parceira. Esses também são aspectos lesbo/bifóbicos da fetichização de um casal de mulheres”.

A estudante complementa que “a partir do momento que a mina não é lida como hétero, ou seja, é mais ‘masculinizada’ (seja pelo corte de cabelo, pelas roupas ou pelos trejeitos), ela passa a incomodar a heteronorma, que não vai conseguir submetê-la totalmente ao aspecto da fetichização (é uma tentativa de controle)”. Nesses casos, para ela, ficam mais evidentes e diretas as experiências de LesboBifobia. “‘Vai pro time masculino, caminhão’ a ameaças de estupro corretivo, por exemplo. Porque a partir do momento que uma mulher não é objeto de fetiche, passa a ser necessário que ela seja isolada, vista como o “diferente ruim”. Roberto, por sua vez, argumenta que para o homem gay a lógica não é tão diferente, pois se trata “da lógica da predominância da hegemonia masculina. Eu posso ser gay, mas quanto mais próximo eu for do que a sociedade espera de mim, minha opressão vai diminuir. A sociedade te força a ter esse comportamento muito heteronormativo”.

Transformação: o papel das torcidas

De uns anos para cá, muitas torcidas universitárias passaram (e ainda passam) por mudanças internas no que diz respeito à LGBTTfobia. No caso da BaterECA, a bateria da ECA-USP, a reformulação se iniciou em 2015 e está em andamento até hoje. “Há um tempo os alunos já começaram a se mostrar incomodados com as letras dos hinos mais ‘tradicionais’ da ECA e, enquanto isso crescia, a BaterECA conversou e questionou o porquê de tocar e cantar algo que já incomodava tanto alguns ritmistas quanto alguns ecanos em geral”, explica Bruna Gmurczyk, diretora interna da BaterECA.

Torcida da ECA-USP e Cásper Líbero

De acordo com Bruna, a transição não teve total aceitação no princípio, visto que muitos veteranos ainda cantavam as versões antigas dos hinos. Entretanto, a conscientização ocorre e a entrada de novos ingressantes ajuda nessa mudança, visto que os calouros sequer conhecem as músicas dos anos anteriores. “Hoje, a discussão é bem mais fácil, principalmente com os 017 que estão ainda mais longe do começo de toda essa transformação, mas alguns alunos têm apego demais pelo tradicional e, ao invés da alternativa criada ‘Eu vou gritar que sou leão’ para um hino, insistem em usar um xingamento pesado e ridículo a um rival”, desabafa.

A torcida ofensiva é um retrato comum na tradição esportiva, principalmente no Brasil. Durante as Olimpíadas do Rio, por exemplo, diversos países se mostraram assustados e críticos em relação à postura dos brasileiros em relação aos adversários. Para Cyndel Augusto, estudante de Pedagogia na USP, atleta universitária e atleticana, existe uma tradição muito forte nas torcidas esportivas de que, se você ofende o adversário, isso não é um problema, visto que foge do seu círculo social. Por isso, é tão comum presenciar casos de LGBTTfobia em jogos, “seja na USP, NDU ou nos inters. Infelizmente, não é algo ligado à USP ou ao espaço universitário. Nas olimpíadas de 2016, em um jogo do handebol feminino, a torcida se voltou contra o time da argentina e despejou dezenas de ofensas homofóbicas e machistas sob as atletas. Discutimos com as pessoas atrás de nós por causa disso e os mesmos saíram rindo da situação. É algo enraizado e naturalizado em nossa sociedade.”, complementa.

Tendo em vista essa cultura da LGBTTfobia no esporte, Bruna conclui: “Acho que a principal conquista de alguém que consegue desconstruir a maneira ofensiva de torcer dentro de jogos universitários é se tocar que isso vale pra vida toda. É muito mais fácil entender que as pessoas que jogam ao seu lado na faculdade são parecidas com você e têm uma história parecida com a sua. Quando levado para um âmbito maior, espera-se que a noção do bom convívio e o respeito acabem vindo naturalmente se você foi uma pessoa que entendeu a importância dessa luta enquanto estava na universidade. Rivalidade dá muita adrenalina, mas rivalidade saudável+integração nos acrescenta muito mais.”

O avanço também vem de dentro

Evento realizado pela LAACA com debates acerca de diversidade.

Além das transformações percebidas nas as torcidas e as equipes universitárias no últimos anos, nota-se uma existência crescente de Comissões Anti Opressão em eventos, festas e jogos. De certa forma, a pauta LGBTT (assim como os temas acerca de diversidade como um todo – racismo, machismo, etc) tornou-se cada vez mais vigente no mundo universitário (e fora dele também) e, portanto, ações, punições e campanhas antiopressão vêm ganhando visibilidade no esporte.

No caso do JUCA (Jogos Universitários de Comunicações e Artes), por exemplo, a organização da edição 2017 já se iniciou com um projeto ostensivo de debates sobre diversidade nas faculdades participantes, com o intuito de aumentar a conscientização dos alunos e, portanto, diminuir os casos de opressão durante o campeonato.

Risaldo Carvalho Júnior, ex-aluno da Faculdade Belas Artes e participante do JUCA há anos, é um dos idealizadores e executores do projeto. “A ideia é passarmos por três momentos. Primeiro, realizamos um mapeamento da diversidade nas faculdades que integram o JUCA, precisávamos entender quem são essas pessoas para conseguirmos nos comunicar com elas. A segunda etapa, na qual estamos, foi a realização de um evento aberto para discutir gênero, sexualidade e raça. O evento ocorreu em um sábado, às 9h da manhã e, ainda assim, reuniu mais de 200 universitários. Por fim, queremos realizar uma capacitação dos seguranças e funcionários que trabalharão no JUCA, para que eles saibam lidar melhor em situações de diversidade que podem ser fora do contexto deles”, explica.

A iniciativa do projeto surgiu, principalmente, graças à repercussão de um post após a edição do JUCA do ano passado, em que se abriu espaço para que as pessoas denunciassem casos de opressão. “Ficamos assustados em ver como esse post bombou tanto, mesmo se tratando do JUCA, que é um inter relativamente inclusivo”, conta Júnior. “Sempre fui de Atlética, participei ativamente de torcidas e do cenário esportivo durante todos os meus anos de BA e a faculdade foi essencial para eu me encontrar enquanto gay. Foi um ambiente no qual eu me senti acolhido, a BA inteira sabia que eu era gay antes mesmo de eu me assumir para minha família. Se foi tão importante para mim, por que não podemos expandir isso?”, conclui.

Há outras iniciativas além da encabeçada por Júnior. Na USP, por exemplo, está sendo discutida a criação de uma Comissão Anti Opressão como parte oficial da LAAUSP. Maísa Girardi, aluna, atleta e atleticana da FFLCH-USP é uma das idealizadoras do projeto. De acordo com ela, ainda há uma dificuldade muito grande em punir casos de LGBTfobia e outras formas de opressão. “Ano passado, fui da Comissão Disciplinar da Liga e percebi o quão era frustrante não conseguir punir, adequadamente, esses casos. Tiram-se pontos das Atléticas, mas a pessoa continua lá, podendo repetir a opressão. Sem tirar que a Atlética não consegue controlar os casos de todos os alunos.”, lamenta. Se a proposta for aprovada pelas Atléticas que constituem a LAAUSP, a Comissão passa a funcionar ainda esse ano.

Tais iniciativas são, além de tentativas para redução de casos de opressão como os contados por Roberto e Luísa Helena, de extrema importância para maior inclusão dos LGBTTs no esporte universitário. Apesar de reconhecer a importância dessas ações e projetos, Roberto reitera que “o melhor ato político é nós existirmos e sermos o que nós somos. Você se assumir como gay, mostrar pra sociedade que você é gay e que isso é ok. Acho que isso é importante também nessa questão do esporte universitário”.

Esporte como inclusão

Nesse ano, houve uma alteração nos regulamentos dos campeonatos internos da USP. Após a discussão ser iniciada em 2015, agora, os atletas trans da universidade podem participar dos campeonatos representando as equipes do gênero com o qual se identificam. Em termos de esporte universitário, trata-se de um avanço e tanto.

Valquíria Graia Correia é doutoranda no Instituto de Química da USP e atleta de vôlei. Como mulher trans, ela comemora a mudança: “ter essa possibilidade é uma grande evolução e uma grande abertura, principalmente pras pessoas que não conseguem se sentir inseridas. Eu particularmente não sinto grande diferença nisso, não é isso que vai me fazer sentir homem ou mulher. Mas cada um é cada um e isso é um avanço, sim”. No caso de Valquíria, ela continua jogando pelo time masculino pelo fato de já ter criado um envolvimento com as pessoas da equipe e vice-versa, “eu fico balançada com a questão afetiva, acabou virando uma família. E tem a questão de que o time feminino não é tão envolvido ainda quanto o masculino, nem sempre tem treinos, não é tão regular”, explica.

De modo geral, percebe-se que, quando positivamente vivido, o esporte é um auxílio importante na inclusão LGBTT e também um catalisador de processos de desconstrução. “Eu comecei a jogar e me assumi dois meses depois pra minha família, com 16 anos já. Foi um processo complicado no momento, mas o vôlei, o esporte, foi essencial pra eu me aceitar como gay e ver que é algo ok”, relembra Roberto.

Ao contar sobre a influência do esporte na sua vida e de outros amigos, Valquíria reforça esse papel inclusivo: “Eu acho que o esporte tem um papel fundamental no aspecto da inclusão. É um espaço onde você pode ter integração, se sentir inserida, se sentir parte de um grupo. Não só a mim, mas também vejo outros amigos que são gays, principalmente os que não seguem o padrão heteronormativo, que falam a mesma coisa: a prática do esporte ajudou muito na permanência deles aqui na universidade, por se sentirem mais inseridos e parte de uma comunidade.”.

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