“Sempre que um time masculino de fora percebe que a técnica do time adversário é uma mulher rola um olhar de surpresa”.

por • 28 de março de 2017 • Colaboradores, Colunas, Entrevista, VôleiComentários (0)1728

Aline Terumi fala sobre sua experiência como técnica no esporte universitário

 

Por Leonardo Milano

Há poucas mulheres treinando times no esporte universitário. Mas, elas existem. E poucas representam tão bem essa luta do que Aline Terumi, técnica de quatro times de vôlei masculinos e auxiliar de mais dois femininos. Aline, além de técnica, é atleta do time de vôlei da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP), sua faculdade, pela qual é bacharel e agora está novamente cursando para conseguir a licenciatura. Nesse bate papo, longo mas importante, conversamos com Aline sobre machismo no esporte, sua carreira, condições de trabalho no universitário e muito mais.

 

Leo: Por que você escolheu o vôlei? Em que momento isso aconteceu e o que te motivou a se especializar nesse universo em específico?

Aline: Acho que o vôlei me escolheu na verdade. Minha família sempre praticou vôlei. Desde que eu nasci a gente é sócio de um clube e meus pais já praticavam essa atividade. E eu cresci nesse meio. É claro que eu pratiquei outros esportes como natação, ballet, handebol… não deu certo. Eu me encontrei no vôlei mesmo. Eu adorava assistir jogos de vôlei na TV, acompanhava ferozmente, tinha time na superliga e etc. E essa paixão foi uma das coisas que me motivou a fazer educação física. E aí aconteceu de eu conseguir uma oportunidade para trabalhar com vôlei. Eu nunca tentei praticar outro esporte na EEFE, sempre fui só do vôlei. Se alguém me pedir pra eu lançar uma bola na cesta provavelmente eu vou lançar como se eu estivesse fazendo um toque [do vôlei][risos].


Leo: 
O que você almeja para sua carreira, como técnica e profissional do voleibol?

A: Ah, claro que um dia eu quero chegar nas Olimpíadas, mas isso tá um pouco longe. [risos]. Mas, por enquanto eu quero me manter no universitário e procurar algum trabalho fora, em algum clube, por exemplo. Mas para entrar em clube é muito difícil, principalmente pra uma mulher. Eu falo isso porque muitas vezes eles buscam alguém que seja braço, sabe? E eu com a minha altura nunca vou ser braço, nem que seja de um time feminino. Então provavelmente eu vou partir para área da estatística que é onde oferecem vaga para mulher. Apesar de estarmos quebrando paradigmas, já que tem time de vôlei, como o de Araraquara, que tem toda a comissão técnica composta por mulheres, o que me dá esperanças, ainda é muito díficil. Mas, eu queria chegar numa Olimpíadas, pelo menos como auxiliar, já que é muito sonhar em ser técnica da seleção.


Leo: 
E de que forma você acha que o esporte universitário te auxilia na busca por esse sonho, de se tornar técnica de fato de uma equipe de superliga ou da seleção brasileira um dia. O que o esporte universitário representa para você profissionalmente?

A: Eu acho que é o que me dá visibilidade pra eu mostrar o quanto eu sei de vôlei, e o quanto eu posso oferecer em um possível futuro trabalho. É um meio no qual eu consigo mostrar para técnicos que trabalham em clubes, como o próprio Rivetti ou mesmo o Gordo [Eduardo Gonçalves], que antes era da Med e agora está do Pinheiros, o que eu sei. Mostrar pra esses caras que eu posso atingir metas iguais as deles. E que eu posso até ser tão boa quanto eles e que, sim, se eles me indicarem, não vai ser uma aposta errada. O universitário agora é minha prioridade porque eu trabalho apenas com isso. Mas também é um meio de eu mostrar o meu trabalho para os caras que já estão um degrauzinho acima do meu.


Leo: 
Ao mesmo tempo, numericamente as mulheres são minoria como técnicas e auxiliares técnica no esporte universitário. Mesmo aqui dentro da USP. O que motiva esse fato na sua opinião? Por que tão poucas mulheres alcançam a sua posição?

A: Eu acho que em primeiro lugar está o baixo número de meninas na EEFE. De 100 bixos, 15 são meninas, se eu não me engano. Dessas, poucas se interessam em trabalhar com esporte universitário. A maioria pensa em ir pra uma escola ou trabalhar como personal, funcional, pilates, etc. O que me motivou a ser técnica foi o fato de eu gostar muito de esporte. Pratico vôlei desde os 10 anos. Meus pais jogavam, minha família inteira jogava, então é um esporte que faz parte da minha vida. E eu amei trabalhar com vôlei universitário quando tive a oportunidade. E eu acho que um dos fatores que diminuem a quantidade de meninas nas comissões técnicas é o fato de que os técnicos homens normalmente convidam alguém próximo pra ser o seu auxiliar. E normalmente, os mais próximos são homens também. Então, para inserir as meninas nesse universo é difícil. Como eles estão sempre mais próximos entre eles [homens], a gente deixa de ser a primeira opção de escolha. O fato de eu ter sida escolhida lá em meados de 2012, quando fui auxiliar da Vet me deixa bem contente, porque a pessoa que me escolheu [Eduardo Carlassara] realmente me escolheu. Chegou e me falou que queria que eu fosse a auxiliar dele. Ou seja, eu particularmente não sofri com essa resistência. O Du treinava a equipe feminina da VET e elas ficaram muito contentes por ter uma mulher na comissão técnica.


Leo: 
E isso é reflexo talvez de uma sociedade machista que não aceita que mulheres pratiquem atividade física? Ou que não vê com bons olhos quando uma mulher se interessa por esporte?

A: Em relação às mulheres, não sei dizer se há essa resistência. Eu acho que as meninas de modo geral não são tão motivadas a fazer esporte como os meninos. Tanto que a maioria das meninas que entram na EEFE vieram da dança, do ballet e não de modalidades predominantemente “masculinas”. Mas eu acho que o principal é essa baixa motivação. Já dei treino em escolinha, clubes e posso dizer que a maior demanda é feminina. Só que a desistência entre as garotas também é grande. Elas perdem o interesse. Talvez os pais as desmotivem. Os meninos por outro lado ficam por mais tempo. As meninas não se vêem nesse meio e muito menos nessa profissão. Nem enxergam essa possibilidade, entendeu? Também não têm muitos exemplos de mulheres seguindo nessa carreira, né…


Leo: 
E você sente falta de referências femininas na Super Liga por exemplo?

A: Sim. A única mulher que eu vi como técnica foi a do time de Araraquara, que subiu da Super Liga B e disputou a série A, o ano passado. Esse ano eu nem sei se eles ainda tão na Super Liga A, mas, na real, foi uma surpresa quando eu tava vendo o jogo deles, olhei e percebi que a treinadora era mulher. Eu achei legal, mas eu não posso dizer que ela é uma referência pra mim porque eu realmente não acompanho. Mas falta, realmente falta. E falta em todos os esportes. Eu só vejo a técnica da China, que é mulher e tá lá há muito tempo. E ela é surreal também.


Leo: 
O esporte universitário é machista?

A: Eu já sofri alguns casos de machismo no esporte. Não por não ter sido escolhida em alguma situação. Até porque isso de não ser escolhida eu nunca soube se era motivado por machismo ou não. Mas já deixaram de me efetivar como técnica com a justificativa de que eu não tinha experiência, o que não fez muito sentido pra mim. Nesse caso, me senti vitimizada pelo machismo. Mas em outros casos, por exemplo, o time masculino da FFLCH, me escolheram, entre outros motivos, pelo fato de eu ser mulher. Então, posso dizer que já passei pelas duas situações. Quando me tornei técnica da EEFE foi super desafiador, uma por ser a minha faculdade e por já ter uma história lá dentro. E outra porque eu daria treino pra alguns caras que já foram meus técnicos. Nessa época eu me questionava se eles irião me respeitar. E eu não sei até que ponto essa insegurança representava o meu próprio machismo.


Leo: 
Você citou que entrou nesse universo do esporte universitário em 2012. Nesses quatro anos quais foram as emoções que você destacaria no esporte universitário?

A: A grande emoção mesmo foi colocar dois times na final dos Jogos da Liga. Num sábado tinha jogo da EEFE contra o IME. O IME vinha de muitas vitórias, eles eram os únicos invictos na fase de grupos, ganharam da POLI a gente tinha perdido da FEA. Eu tinha perdido pro IMR no BIFE com a FFLCH e eles estavam engasgados pra mim. Começamos o jogo numa pegada incrível. Metemos 25 a 14 no primeiro set, ganhamos o segundo. Aí o IME mudou, perdemos o terceiro e o quarto. No quinto eu decidi mudar também. Não substitui ninguém mas decidi mudar a saída. E deu muito certo. Logo no nosso primeiro saque encaixamos oito a zero, com o Renan sacando. E os meninos da EEFE não sao daqueles que tem condicionamento pra jogar cinco sets. Por isso, eu decidi abandonar o quarto, coloquei os reservas, descansei os titulares e pensei “ah, vamo apostar tudo no tie break”. E no tie break a estratégia deu certo. Eu tinha um time na final.

Só que no dia seguinte tinha a outra semifinal. FFLCH e Poli se enfrentaram valendo também classificação pra final. A Poli do Rivetti né, um grande técnico na minha opinião. E eu como treinadora da FFLCH. Nosso time não era ruim, mas também não era um time que treinava o tempo todo juntos, então tínhamos alguns desordenados. Mas naquele dia eles tavam inspirados, eu acho. No último ponto eu não consegui fazer nada, nem comemorar. Ganhamos por três sets a um. E quando terminou eu só sentei no chão, desacreditando que eu tinha dois times, como técnica, na final dos Jogos da Liga. Acho que foi a melhor sensação da minha vida. Não querendo me vangloriar por colocar dois times na final, mas eu achei tudo isso surreal. Eu já tinha visto outros técnicos conseguirem isso, mas dessa vez era comigo. Eu conseguir por dois times masculinos na final e já ser campeã por antecipação foi a melhor sensação da minha vida. Eu nem consigo explicar direito. Eu queria sentir de novo, quem sabe esse ano (risos).


Leo: 
Pra encerrar, você citou o fato de que era treinadora de dois times que chegaram na final dos Jogos da Liga… e, a partir daí, eu queria que você avaliasse as condições de trabalho dos técnicos universitários, pelo menos os daqui da USP. Afinal, muitos técnicos aqui treinam dois, três, quatro times e acaba acontecendo como na final que você citou, os dois times ficaram sem a sua treinadora e essa tá longe de ser a condição ideal pra todo mundo. Enfim, queria que você fizesse essa avaliação.

A: Bom, falando sobre o vôlei, realmente não é o melhor salário, mesmo dentre os outros esportes universitários. A primeira coisa é a condição salarial que é ruim, então você acaba tendo que pegar mais de dois times pra se sustentar. Por exemplo eu tenho seis times. Quatro como técnica e dois como auxiliar. Não é fácil, principalmente com a atual situação do Cepe: poucas quadras, quadras sem luz e etc. Antes eu dava três treinos um seguido do outro, sem ter que me deslocar. Agora, a gente tem que contar com o tempo e o custo do transporte e muitas vezes o salário que já era oferecido antes continua o mesmo. Eu trabalho numa das faculdades, cuja Atlética é uma das mais organizadas, a Med, como auxiliar. E a estrutura que eles fornecem [a Med tem um campus próprio com infra estrutura esportiva] pros atletas é muito diferente do que a gente tem aqui. Elas tem todo dia uma quadra pra treinar. Só cancela treino se acontecer uma hecatombe. Aqui, por exemplo, a FFLCH não treina de sexta já faz três semanas, por conta da chuva. E agora tá pior ainda, porque seis e meia já tá escuro, então, não tá dando pra dar treino praticamente. As condições agora estão horríveis e tá todo mundo tendo que buscar quadras fora. Assim fica cada vez mais difícil de encaixar time. Eu acho que antes de todos esses problemas e atrasos com o Cepe a estrutura oferecida era boa, mas agora, com duas quadras, com as monitorias e a necessidade de treinar à luz do dia, não dá. As condições tão cada vez piores e o salário, como eu falei, já não é dos melhores. Eu acho que o que me motiva a ficar é o fato de que eu gosto muito do que eu faço. E não deixa de ser uma fonte de renda. Outro ponto é que os atletas valorizam muito o que a gente faz, diferente do clube, que te dá toda infra estrutura e às vezes os atletas tão lá por obrigação dos pais. Aqui eu me sinto valorizada, inclusive pelas Atléticas. Eu não sou a técnica mais cara da USP, sempre tento me adaptar pra treinar os times que me procuram, quando eu tenho tempo pra isso, por mais que ganhe pouco. Então, não dá pra dizer que são as melhores condições, mas é o que tem.

 

 

Crédito foto de capa: Matheus Brant

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