Elas também treinam

por • 12 de janeiro de 2017 • Basquetebol, Cartola, Colunas, Futebol de campo, Futsal, Handebol, Individuais, Rugby, VôleiComentários (0)1706

Vê-las como treinadoras não é tão comum no esporte universitário, mas aqui elas explicam o porquê.

Por Camilla Freitas

 

Na tarde da terça-feira do dia primeiro de novembro de 2016, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) fez um anúncio muito importante para o avanço da participação das mulheres no esporte brasileiro: Emily Lima seria a primeira técnica a assumir a Seleção Feminina de Futebol. Para muitos, uma grande surpresa. Além de ser mulher, Emily assumia o papel de Vadão que acabara de ser confirmado entre os 10 finalistas ao prêmio da Fifa de melhor treinador da temporada no futebol feminino. Por conta disso, sem nem estrear, Emily já sofreu inúmeras críticas e desaprovações. “Acho que as críticas vem devido a desconfiança. A Emily não é muito conhecida, ninguém nem sabia que existia uma técnica mulher. Ela já havia passado como treinadora pelas categorias de base da seleção e atuava como técnica da equipe de São José dos Campos, que é bem tradicional no futebol feminino”, conta Jéssica Caroline, que também já foi técnica, mas de futsal, tanto do time feminino quanto do time masculino da Nutrição USP. Mas Emily é apenas a exceção e não a regra no meio esportivo.

A fronteira

Jéssica, assim como Emily, sofreu com essa desconfiança por ocupar um cargo tão importante no esporte, o de técnico. Sua função é, basicamente, organizar a equipe e mantê-la unida taticamente, pronta para enfrentar os adversários com jogadas ensaiadas e estratégias testadas ao longo dos treinamentos. Além disso, cabe ao técnico conquistar a confiança de seu time, uma vez que, se não a tem, torna-se impossível aumentar o desempenho da equipe e exercer outras funções básicas que são de sua responsabilidade.


Mas por que é mais comum, no meio esportivo, nos referirmos a técnicos e não à técnicas? A professora da Escola de Educação Física e Esporte da USP, Ana Lúcia Padrão dos Santos, explica que isso se trata de uma questão tanto sociológica quanto histórica. Conforme afirma, até mesmo quando se trata de questões de comando, sejam elas técnicas ou administrativas, as questões físicas e biológicas que separam homens e mulheres, mesmo não tendo papel essencial para o desenvolvimento dessas funções, ainda são levadas em consideração. “Como o esporte é ligado ao mais alto, ao mais rápido, ao mais forte, do ponto de vista biológico essa comparação [homem e mulher], é lógico que vai ser sempre o masculino que vai ter uma marca mais expressiva. Mas as mulheres não competem contra homens, competem contra outras mulheres, então essa comparação é sem sentido. E do ponto de vista da treinadora isso também é interessante, porque a competência para ser treinadora não passa pelo aspecto físico. Só que se carrega essa imagem no esporte.”


Para uma mulher treinadora, outra questão que a coloca em uma posição distinta de um técnico masculino é o fato de ter que se provar o tempo todo. Para Maura de Arruda Botelho Colturato, que treina o time masculino de vôlei da Geologia da USP, essa é uma problemática que tem relações com o preconceito que a mulher sofre ao assumir algum posto de comando no esporte. “Ainda existe um preconceito enraizado de que a mulher não tem capacidade de comandar um time/seleção, principalmente por achar que não saberia lidar em momentos de pressão. Além de que há aquele pensamento de que só o homem, com seu jeito explosivo, consegue manter a “ordem”  e/ou colocar as coisas no lugar.” Contudo, ela mesma afirma que, por ser seu primeiro trabalho como técnica na USP, seu time a respeita muito e tenta ao máximo reproduzir o que ela diz.

No esporte Universitário

Conforme a professora Ana Lúcia, o esporte universitário possui algumas diferenciações quando o assunto são as técnicas mulheres. Através de uma perspectiva mais sociológica, a professora analisa que os alunos que ingressam nos cursos da Universidade e nela praticam alguma atividade física com fins competitivos, muitas vezes vêm de colégios onde já existem projetos esportivos que contam com treinadoras. Isso, dentro do ambiente universitário, facilita a “aceitação” de uma técnica ao invés de um técnico. “Fora [da Universidade] já não é essa realidade porque já existe uma profissionalização. Nem todo mundo que está no esporte [como profissional] teve vivência esportiva dentro da escola.” Isso, por exemplo, explica porque técnicas mulheres dentro da Universidade são mais comuns do que fora dela.

Revista BEAT - Ricardo Kuba (6)

Vivian Gitti é treinadora há 16 anos, com diversas experiências no esporte universitário e com categorias de base.

João Meireles, ex presidente da LAAUSP (Liga Atlética Acadêmica da Universidade de São Paulo), afirma desconhecer a existência de dados relativos à quantidade de técnicas mulheres no esporte universitário uspiano. Contudo, afirma que “antes dava para contar nos dedos” a quantidade de técnicas mulheres na USP e que hoje, contando técnicas e auxiliares, acredita que o número está próximo a 30. Isso, em um ambiente no qual há centenas de times.


Ainda segundo Meirelles, existe, sim, uma escassez de técnicas mulheres na USP. “Mas há dois fatores envolvidos. O primeiro é um certo preconceito por parte dos atletas em relação à técnicas mulheres. Vemos poucas técnicas na mídia, nos principais times dos mais variados esportes. Além disso, temos que ver a proporção Homens/Mulheres que entram nos cursos de Educação Física, Esporte e Ciências da Atividade Física e a quantidade de pessoas que se interessam em dirigir equipes universitárias”.


Para a professora Ana Lúcia, além desses fatores, outro que interfere nessa ausência das mulheres como técnicas é que, mesmo não sendo um problema explícito, “toda vez que se tem que fazer uma escolha entre dois profissionais, que pareçam ter a mesma competência, a figura do homem tem um apelo maior”.

Elas no comando

Nas Olimpíadas Clássicas na Grécia Antiga, as mulheres eram impedidas, até mesmo, de assistirem aos jogos, quanto mais treinarem os atletas, isso era inimaginável. A modernidade, contudo, trouxe poucos avanços.


Pierre de Coubertin, conhecido por idealizar os Jogos Olímpicos da era moderna não era favorável à participação das mulheres nas competições, inclusive como atletas. Isso tudo trouxe para os dias de hoje, mesmo com muitos avanços, alguns resquícios sexistas no esporte que teimam em perdurar.


A ex presidente da Atlética da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) Maísa Girardi afirma já ter ouvido relatos de técnicas que sofreram críticas em seus trabalhos justificadas pelo fato de serem mulheres. “Quando um homem quer ofender alguma mulher, ele sempre usa o gênero dela para fazê-lo e eu, infelizmente, já presenciei algumas companheiras passando por isso”. Além disso, diz que pessoalmente já passou por situações de desconforto por ser uma mulher em um posto de comando dentro do esporte universitário. “Quando passei por algumas situações de extremo desconforto, me senti impotente. Dedicava tanto de mim àquilo e o que tive em troca eram ofensas e repressões”. 


Além dela, Jéssica Caroline também já passou por situações dentro das Atléticas para as quais trabalhou que a deixaram constrangida. Contudo, afirma que nenhuma dessas situações possui alguma relação com o fato de ela ser mulher. “Acredito que tenham sido situações normais dentro do ambiente no qual trabalhamos, discordâncias que teriam ocorrido também se eu fosse homem”.


A professora Ana Lúcia, nos anos 90 também atuava como técnica (única mulher na USP), contou, em tom descontraído, uma situação pela qual passou nos anos 2000 quando treinava um time da EEFE. “Nós fomos para a semifinal do campeonato e eu estava usando uma bermuda na altura do joelho e a Federação Universitária Paulista tinha mudado o regulamento da competição e disse ‘olha nós estamos moralizando o esporte universitário, tornando a gestão mais profissional, então a partir de agora treinadores não podem usar bermudas’”. Contudo, conta, ela estava no jogo, já nas semifinais e não a avisaram sobre tal regulamento. Para sua maior surpresa, quando questionou sobre qual problema teria em usar uma bermuda, recebeu como resposta que, se não vestisse uma calça daria W.O. [vitória ao adversário]. “A única menina que tinha para me emprestar uma calça era uma menina muito, muito magrinha, eu não cabia na calça. Então eu passei o jogo num aperto, que eu não conseguia respirar”. Mesmo com dificuldades, Ana Lúcia conta que conseguiu ajudar o time a garantir a vitória e chegar à final. Mas, para ela, essa situação constrangedora, porém cômica, não estava resolvida. No jogo da final a treinadora apareceu usando um vestido. “Eu tenho certeza que eles esqueceram de incluir no regulamento que é proibido usar vestido”. E, realmente, não havia nada no regulamento que impedisse o treinadores de ir à campo de vestido. Para a professora, essa situação mostra que a Federação Universitária Paulista não lembrou que tinha uma técnica mulher na competição, sendo que, com o intuito moralizante, não respeitou todos os profissionais que ali trabalhavam.  

Perspectivas

Como muita coisa vem mudando para as mulheres na nossa sociedade,no esporte, isso não seria diferente. No Brasil, a nomeação de Emily Lima como técnica da Seleção Brasileira de Futebol aponta para essa transformação que, mesmo que gradual, pode ser visível.

Para as atletas e técnicas do esporte da USP, as perspectivas também são de um futuro mais promissor para as mulheres no comando dos times das Atléticas. “Acho que é uma perspectiva bastante positiva. Ainda vejo a maioria dos líderes das atléticas sendo homens, mas, diferente do que percebo em relação a comandar equipes, no caso de atléticas, a presença feminina não é vista com tanta desconfiança, e existe até bastante confiança em relação a mulheres liderando”, afirma Jéssica Caroline.

Maísa Girardi, que faz parte da Atlética da FFLCH, onde o cargo de presidente é comandado por mulheres à três anos, também possui uma visão otimista da mulher no âmbito esportivo universitário. “Na FFLCH, minha perspectiva é muito boa. Fora dela, acredito que possa melhorar. Ainda não estou satisfeita com algumas regras e regulamentações de determinadas atléticas, mas vejo que, aos poucos, isso está mudando. Vejo que a cada dia as mulheres estão crescendo no esporte universitário. Seja pelas habilidades esportivas, pelas habilidades de comandar, de gerir ou de socializar.”

Uma vez que, como afirmou João, o número de técnicas mulheres nas Atléticas, aparentemente, está aumentando, pode-se concluir que tanto Maísa quanto Jéssica podem estar seguindo uma linha de pensamento tão positiva quanto realista. Como a professora Ana Lúcia sublinha, o aumento da influência feminina no esporte, trata-se de um processo histórico que ao longo do tempo vai acontecer. Contudo, afirma que para que isso acelere, é preciso que as mulheres continuem questionando e almejando para si postos mais altos de comando. “É preciso que o mérito seja olhado. O indivíduo, seja homem ou mulher, sendo competente, ou tendo critérios de escolhas desses treinadores, que todos tenham oportunidade”.

 

Crédito foto de capa: Matheus Brant

Posts Relacionados

Comentários fechados