Desculpa qualquer coisa

por • 26 de janeiro de 2017 • Colunas, Especial, HandebolComentários (0)745

Por Paula Bedin

O cronômetro zera. Reservas, comissão e os torcedores entram em quadra para comemorar. Uma mistura de alívio e esgotamento te invade, como acontece ao final de toda partida importante, e essa por se tratar de uma final de BIFE não é diferente. Vocês se esforçaram muito pra chegar até aqui: treinos, amistosos, muitos jogos analisados, conversas, dinâmicas enfim, todas essas atividades que compõem o que significa ser “atleta”, mesmo que universitário. Seu time se posiciona em baixo das traves para uma foto – OPA! Sorria! Você vai se arrepender se sair com cara de péssima perdedora nessa foto, vai por mim.

Em 2013 você ainda não sabe, mas eu, que sou você, em 2016, posso te dizer com certeza: essa coisa horrível que você está sentindo agora, essa vontade de cavar um buraco e sumir no mundo vai passar. Mas você ainda vai sentir isso muitas e muitas vezes, então, aprenda a lidar com isso. Vitórias existem porque derrotas existem e quanto mais cedo você aprender a lidar com as derrotas, menos assustadoras elas serão.

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Foto por Felipe Lemos

Mas eu te entendo. Hoje, esse jogo era especialmente importante e perder desse jeito, com essa diferença gigantesca de gols, torna tudo pior. Ainda mais quando no ano passado a gente tinha ganhado de virada contra esse mesmo time. Aliás, que virada! A imagem do time da ECA partindo para uma linha de defesa individual enquanto a Gabi corria, quase que de fininho, sem ser notada pela marcação ficando livre, livre pra receber seu passe (segundo ela o único que você fez pra ela na vida) e marcar o gol nunca vai sair da sua cabeça. Foi lindo!

Que medo que a gente sentia delas! Você nunca vai esquecer de vocês aquecendo antes do jogo e o time delas do lado de fora gritando. Você ficou completamente congelada de medo, olhou pras meninas e viu que elas estavam sentindo a mesma coisa que você. Um senso de responsabilidade te dominou naquele momento e a única coisa que você conseguiu fazer foi sair correndo gritando “rainhas da praia!” apelando pra qualquer coisa non sense que pudesse tirar a atenção de vocês daqueles gritos e daquele time que era melhor que o de vocês.

Por causa desse jogo, o ano de 2012 teve um final surpreendente e feliz! Agora, 2013 não tem sido o melhor dos anos pra você nem pro time da FAU, mas isso vai mudar, eu te garanto. Em três anos vocês estarão fazendo coisas que você nunca pensou que seriam possíveis e vocês vão começar a ser vistas pelos outros como um problema, uma grande equipe a ser batida. Mas neste momento você não poderia saber disso. Tudo o que você tem são dúvidas como se a mudança de técnico – que você ajudou muito a acontecer -, é a responsável por agora vocês terem perdido.

Não porque vocês tenham mudado para um técnico com menos qualidade técnica mas porque essa mudança causou uma rachadura muito grande na equipe e pôs em risco amizades que pra você eram muito importante. Você pode não se dar conta disso agora, mas você foi bem babaca.

Te falo isso de coração porque eu te amo, e pra te proteger de muita coisa que vai acontecer nos próximos anos. Se eu pudesse voltar no tempo e mudar algumas das nossas atitudes eu mudaria, mas não posso fazer isso, então espero que você, lendo essa carta, se dê conta disso e mude sua postura. A grande besteira já foi feita, o modo como o time resolveu trocar de técnico, em boa parte influenciado pelo que você fez, falou e agiu, foi babaca. Ainda hoje você tenta justificar tudo dizendo que seu técnico era muito cabeça dura, mas e você?

Tem duas coisas que eu gostaria de te pedir: 1. Vai atrás dele e pede desculpas, nem que seja pra ouvir groselha (você vai ouvir coisa muito pior nos próximos anos, não se preocupe). Se você não fizer isso agora, vai deixar passar tanto tempo que quando se tocar do quão absurda foi a situação toda, já vai ter sido tarde demais e quando você contar as histórias mais legais da sua faculdade ou quando você vir as fotos em que aparecem juntos vai sentir uma vergonha e uma tristeza que não vai querer sentir. Melhor seria se o sentimento fosse de que você fez tudo o que pôde.

2. Não deixe acontecer de novo. Spoiller Alert: Em 2016 vocês vão mudar de técnico de novo. É eu sei, é bem difícil de acreditar, mas é verdade. E você, apesar de toda a sua preocupação pra que rupturas como essa não acontecessem de novo, vai deixar acontecer. Não deixe! Seja teimosa, como você sabe ser! Se tivesse sido mais insistente com as meninas, se você tivesse defendido a sua opinião, se não estivesse tão cansada e já pensando em como seria a vida fora da caixa de concreto que é a FAU, você poderia ter evitado que algumas pessoas saíssem machucadas. Talvez a Paula de 2022 me envie também uma carta dizendo que nada poderia ter sido feito, mas por enquanto você, em 2016, acha que dava pra ter sido diferente.

Mais uma coisa! A sua participação na equipe nunca é suficiente e embora você esteja ficando cada vez mais cansada com o passar dos anos, cada vez mais de saco cheio de fazer parte de um grupo, cada vez mais velha pra ter paciência pra ouvir os outros não desencana da equipe. Eu fiz isso e cara, me arrependi muito. Essa não é a solução. Eu, infelizmente, não sei qual é, mas com certeza não é largar o time.

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Equipe da FAU-USP campeã do BIFE 2016. Foto por Julia Favero

Não desencana da equipe, vai nos encontros, vai nos treinos, combina saídas, conhece melhor as bixetes, organiza amigo secreto, organiza faumoço, ajuda nos eventos e se envolve do jeito que você sempre fez até esse momento. Eu sei que às vezes não dá tempo, com estágio, faculdade, TFG e tudo o mais, mas se esforçe. Essa equipe é parte importante da sua formação e aquilo que você sempre fala pra todo mundo, que seus melhores amigos vão sair do seu time é verdade, inclusive pra você.

Aliás, pensando em grandes amizades que o time te proporcionou eu tenho uma última coisa e talvez essa seja a mais dolorosa de todas pra sua cabeça dura: chama a Luciana de lado e lava a roupa com ela. Tá evidente pra vocês duas que a amizade de vocês tá um grande saco de lixo! Tem muita coisa que precisa ser jogada fora e muita coisa que precisa ser reciclada. O que vocês duas tem que entender é que nenhuma das duas é perfeita, nenhuma das duas está feliz, mas nenhuma das duas tem coragem pra enfrentar a outra. Vocês chegaram a um nível de simbiose, moram juntas, saem juntas, trabalharam juntas que encheu o saco das duas, e vocês acreditam que jogar pra baixo do tapete é a solução. Mas eu te garanto, tudo isso vai virar um gigantesco vulcão de rancor em pouco tempo.

Você vai demorar muito pra se recuperar depois desse rompimento e vai virar uma pessoa amarga e insuportável por alguns anos, até que entenda que foi tudo um grande mal entendido. Você vai se privar da companhia de certas pessoas, vai sumir do convívio de outras e vai sofrer pra caramba até que um dia, do mesmo jeito que veio, a raiva e a mágoa vão passar, mas até lá, Paulete, você vai amargar.

Talvez tudo o que eu esteja querendo te dizer nessa carta seja simplesmente pra você não se amargurar com as derrotas do seu time. Sem medo de soar piegas eu te garanto, ele vai te permitir ter vitórias muito maiores, um crescimento que vai muito além da sua performance em quadra, experiências e memórias que você vai guardar com o maior carinho do mundo e laços com pessoas que vão ficar presas a você pelo resto da vida (azar o delas, porque em 2016 você continua sendo insuportável).

Por fim, se você aí de 2013 pudesse me dizer alguma coisa aposto que seria “desculpa qualquer coisa”, e eu te respondo: LÓGICO QUE SIM! Você, a Paula de 2014, 2015 e eu, sempre fizemos o que a gente acreditou ser o melhor pra gente e pras pessoas que a gente ama.

Crédito foto de capa: Por Caio Avino

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