Com ou sem tensor?

por • 11 de outubro de 2016 • Basquetebol, Colunas, Futebol de campo, Futsal, Handebol, Individuais, Rugby, Saúde & Alimentação, VôleiComentários (0)662

Por Maria Cecília da Silva Martins

 

Há anos, tenho me perguntado como me posicionar diante do uso de tensores pelos atletas. É um assunto bastante polêmico e muitos estudos apresentam convulsões divergentes. Uma vez que já discutimos aqui o que fazer para prevenir lesões, vamos levantar essa bola.

Para entender os prós e contras do uso de um tensor, precisamos saber para que exatamente ele serve. Um tensor, basicamente, tem duas funções: estabilizar uma articulação e comprimir um seguimento. Ou seja, ele será indicado quando o atleta precisar de um suporte externo para controlar seus movimentos, de uma determinada articulação – como após uma luxação de ombro no vôlei, entorse de tornozelo no basquete ou ruptura de ligamento do joelho no handebol. Ou quando a compressão pode ajudar a aliviar uma dor ou inchaço local – como em situações em que há inflamação mais aguda (uma paulistinha na coxa no futsal, por exemplo). Ainda assim, o uso para os casos de inchaço precisa ser avaliado, pois uma compressão localizada pode deslocar o líquido acumulado para regiões indesejáveis e causar ainda mais desconfortos.

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Por Luisa Zucchi

A questão é que sempre devemos ponderar os pontos negativos de se usar algo externo para auxiliar uma função do corpo. Se voltarmos ao artigo que escrevi em setembro, veremos que o nosso corpo trabalha como uma máquina cheia de engrenagens, controladas meticulosamente pelo nosso sistema nervoso. Para chutar uma bola, por exemplo, nosso cérebro precisa coordenar os movimentos do pé, tornozelo, joelho, quadril, coluna e braços, a fim de manter nosso equilíbrio enquanto se aproxima, lança a bola e se recupera.

Quando colocamos algum tipo de dispositivo extra para auxiliar esse controle, nosso corpo perde sua eficiência enquanto único responsável por aquela tarefa e, com o tempo, deixa de exercer tal papel com propriedade. Em outras palavras, ele fica preguiçoso e deixa de funcionar adequadamente nos momentos em que seria mais preciso, como nas situações de risco de lesão.

É o que presenciamos quando, após usar um robofoot por algumas semanas para tratar uma entorse de tornozelo, vamos pisar no chão com a perna livre e a sentimos falsear. Nosso corpo ficou acomodado com o fato de o robofoot sustentar o tornozelo e acabou perdendo sua própria força e coordenação. Ao tirar a órtese, estranhamos a situação. Com o tempo, nosso corpo voltará a ter uma ação eficiente, mas é preciso reensiná-lo como fazer isso da maneira adequada. Caso contrário, estaremos vulneráveis a novas entorses durante essa fase de “reaprendizado”.

O uso de um dispositivo externo que limita os movimentos de uma articulação, por sua vez, também aumenta o risco de lesão de outros segmentos do corpo, pois prejudica a capacidade articular de se adaptar a uma posição ou de responder satisfatoriamente aos desequilíbrios maiores provocados em nosso corpo. Isso pode ocorrer durante uma mudança de direção, por exemplo, aumentando a compensação feita por outras articulações adjacentes que podem se sobrecarregar.

Ou seja, se essa carga compensatória recebida pelas articulações próximas durante os gestos dos treinos e jogos não for grande o suficiente para lesionar o tecido num primeiro momento, poderá machucá-lo com pequena intensidade por vezes seguidas, até gerar uma lesão. Quem nunca ouviu falar daquele caso típico do vôlei em que alguém torceu o joelho ao cair do ataque/bloqueio e estava usando um Aircast?

Pensando nisso, devemos considerar por quanto tempo e quão rígido é o dispositivo a ser usado. Se o atleta o utilizar por períodos curtos, com pouca frequência ou em situações específicas, a probabilidade de seu corpo entrar no marasmo pelo auxílio externo às suas funções diminui. Do mesmo modo que, se o dispositivo usado for de tecidos flexíveis como neoprene ou poliéster, a articulação não ficará tão travada e poderá responder com maiores graus de amplitude, demandando menos compensações subsequentes.

Os estabilizadores articulares com hastes duras e parafusos são indicados para casos em que a restrição da amplitude articular é necessária para preservação de um tecido em cicatrização, como após rupturas ligamentares ou pós-operatórios, e não como mero meio de prevenção.

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Foto por Ricardo Kuba

Prevenção em primeiro lugar

Mas é claro que todas essas variáveis precisam ser avaliadas em razão do que motivara tal uso. A estrutura corporal lesionada, a gravidade da lesão e os sintomas referidos guiam a indicação do tipo de dispositivo e sua forma de uso. Ponderando esses fatores, poderemos achar um equilíbrio entre os prós e contras e deixar o atleta numa situação de maior conforto e segurança.

Portanto, não esqueça de colocar essas questões na balança antes de decidir por conta própria se vai ou não usar um tensor ou qualquer outro tipo de apetrecho para se proteger. Eles podem te expor mais e fazer a conta ficar mais cara no futuro. Na dúvida, peça conselho a alguém que entenda mais do assunto.

Também é importante ressaltar que, ao invés de pensar logo de cara em um tensor para evitar lesões, devemos recorrer primeiramente ao fortalecimento muscular e a um programa de treino sensório-motor (conhecido por propriocepção). Fortalecer permite que a musculatura possa resistir com maior intensidade às forças adversas que atuam sobre o corpo e manter por mais tempo a posição articular assumida. Já treinar a resposta motora à percepção sensorial melhora a habilidade do corpo de agir contra os desequilíbrios do esporte e ajuda a formular um padrão motor mais correto que será acionado de forma automática nesses momentos de risco iminente.

Evitar uma lesão é então uma questão de planejamento e antecipação. Por isso, vale aquela máxima: “é melhor prevenir do que remediar”, por mais que as intenções sejam sempre as melhores possíveis.

 

Foto de capa por Veronica Grether

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