As dificuldades, as dores e os prazeres de criar um time de rugby

por • 4 de outubro de 2016 • Colunas, Especial, Jogo a Jogo, RugbyComentários (0)465

Por Vitor Andrade

 

Quando você entra na faculdade, existem milhares de coisas que você pode fazer. Um veterano me disse certa vez: “Cara, não se confunde. Aqui é bem diferente da escola. Vai ter um monte de coisa pra fazer, mas depende de você aproveitá-las. É como a vida né? Ela acaba sendo o que você faz dela”.

Quando entrei na ECA, em 2014, para cursar Jornalismo, com meus tenros 17 anos, estava extremamente focado em duas coisas: ser um baita jornalista e ser um baita jogador de futebol americano. Sim, futebol americano. Desde bem pequeno eu já jogava e parecia que cada ano que passava ficava mais obcecado.

Antes de vir pra São Paulo, eu morava em Vila Velha, uma pacata cidade do Espírito Santo e que, surpreendentemente, abrigava o time campeão brasileiro de futebol…americano. O Vila Velha Tritões ganhou o campeonato brasileiro de 2010, quando eu tinha 13 anos. Para uma cidade praiana relativamente pequena, aquilo era demais. E o esporte virou uma febre por lá. Nada mais natural que um pré-adolescente impressionado entrasse nela. Entrei e me apaixonei por tudo. E deixei o futebol americano mudar minha vida.

Sendo assim, em 2014, eu já tinha uma boa experiência com o futebol americano. Eu sentia que tinha um futuro naquilo e, então, em janeiro, chegou a notícia de que eu tinha passado na Fuvest e teria oportunidade de estudar na melhor faculdade de jornalismo do país. A decisão foi difícil mas logo menos eu já estava instalado na gigante São Paulo e começava meus estudos  na ECA.

Mas eu precisava continuar jogando, afinal não me imaginava sem aquilo. Então conversei com Dan Muller, que na época era tanto o treinador da Seleção Brasileira quanto do São Paulo Storm, meu time preferido de SP, e pedi pra começar a treinar com eles. O problema é que os treinos eram em São Bernardo do Campo e iam da meia-noite até às três ou quatro horas da madrugada. Sendo assim, eu chegava em casa às cinco, exausto e sem tempo para dormir e descansar, já que as minhas aulas na ECA começavam às oito. Mesmo treinando apenas três vezes por semana, aquela rotina começou a ficar insustentável.

Lentamente, comecei a faltar em mais e mais treinos e me sentindo cada vez pior em relação á isso, até que pedi pra sair do São Paulo Storm. Com cada vez mais compromissos na faculdade, não dava para me dedicar ao futebol americano. E a minha saída indefinida do esporte me deixou bem mal por algum tempo.

 

Novos Horizontes

E foi aí que o rugby entrou na minha vida. De uma maneira bem curiosa, aliás. Pouco tempo antes dos Jogos Universitários de Comunicação e Artes, o famoso JUCA, o então Diretor do rugby, Victor Henrique, sabia que eu jogava futebol americano e me chamou pra jogar no inter que estava chegando. O problema é que mesmo que houvesse um DM, não havia um time estabelecido de rugby nessa época na ECA.

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Foto por Alice Vaz

A questão é que, apesar de jogar futebol americano há bastante tempo, eu não tinha a menor noção do que era o rugby, além de ter um certo preconceito com o esporte. Afinal, rola uma certa rivalidade entre os dois esportes da bola oval. Mesmo assim, para preencher o vácuo que futebol americano tinha deixado, dei uma chance ao rugby.

Depois de um semi-treino com o pessoal da Farmácia USP, já era hora de competirmos  no JUCA e o Victor tinha arranjado outros 8 loucos pra formar uma equipe. Tínhamos a Belas Artes pela frente, que parecia ter montado um “catadão” também, só que com caras maiores. Bem maiores, aliás. E assim que o juiz apitou, percebi que estava pela primeira vez num ambiente bem perigoso, onde não tinha noção das regras, nem da intensidade com que o outro time ia jogar. Eu só sabia que devia passar a bola pra trás e correr até o final do campo. Depois de um jogo enrolado, meu primeiro try e uma lesão na cabeça, vencemos a partida por 7 a 0.

 

Nasce um time

As conquistas do JUCA me empolgaram na ideia de fazer o rugby de fato acontecer na ECA: depois da vitória contra a BA e de uma lesão na cabeça que me atormentou por meses em formato de paracetamol e um olho vermelho, senti-me na obrigação de transformar o então catadão em uma equipe estável. Decidi entrar para a  Ecatlética. E foi assim que eu substituí o Victor para me tornar Diretor do Rugby, com o objetivo de criar um time que  treinasse regularmente e pudesse competir em segurança.

No início de 2015, os bixos (ou calouros) chegaram ,e eu precisava convencer o maior número deles de que rugby – um esporte distante pra quase todo jovem brasileiro-, era algo muito legal de se fazer na faculdade e que eles deveriam treinar para formar um time. Determinado a ter o maior alcance possível, eu conversei com todos os calouros que eu podia. E não é que funcionou? No primeiro treino, incríveis 10 indivíduos compareceram.

Mas nós ainda precisávamos arranjar um treinador. Um treinador(a) bacana, paciente e capaz de lidar com gente que nunca tinha jogado rugby na vida. E que, acima de tudo, estivesse preparado psicologicamente para enfrentar as dificuldades que um time em construção enfrenta. Com muita, sorte, consegui achar essa pessoa na EEFE que era mais do que tudo isso: o Jeff. E ele está com a gente até hoje.

Como nada é completamente lindo nessa história, desses dez indivíduos do primeiro treino, poucos continuaram treinando. Já tivemos treinos com três pessoas, e outros que foram cancelados porque só um ou dois foram.

Mas conseguimos jogar o JUCA, com 8 pessoas, eu e os bixos. Alguns treinavam com bastante irregularidade, mas precisávamos deles. Apanhamos feio da PUC, e depois apanhamos feio da Belas Artes, que surpreendentemente havia se tornado um grande time no espaço de tempo de apenas um ano. Foi desmotivador? Sim. Mas nós, como um time, tivemos que repetir várias vezes um pro outro: “A gente só tá começando, logo menos vai dar tudo certo.”

Mas no final das contas, só de termos jogado, já era incrível. Aquele time existia, entende? Ao me ver naquele campo apanhando da PUC com todos os caras que eu tinha convencido a fazer a loucura de jogar rugby, eu senti o tremendo orgulho de ter criado algo que, com quase toda a certeza, vai perdurar por muitos anos. Mesmo depois de sair da ECA, eu vou continuar atento para que o time continue. É uma parte de mim que vai ficar na faculdade e que me enche tanto de orgulho.

 

 

Crédito foto de capa: Alice Vaz

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