Os limites do esporte universitário

por • 10 de agosto de 2016 • Jogo a JogoComentários (0)923

As principais dificuldades enfrentadas pelos atletas brasileiros em sua formação

Por Clara Turazzi

A maioria dos esportes de alto rendimento no Brasil está longe de associar-se com o esporte universitário ou, até mesmo, com a própria vida acadêmica. Segundo Diogo Castro, integrante da seleção brasileira de handebol, essa realidade é muito diferente em outros países como é o caso de Canadá e  Austrália, países amplamente elogiados no fomento ao esporte universitário.

A falta de incentivo torna quase imprescindível a formação no ensino superior como garantia de estabilidade profissional e financeira. Lara Teixeira, atleta da seleção brasileira de nado sincronizado, conta sua experiência com o esporte enquanto atividade profissional:  “É muito complicado a gente dizer quando a gente deixa de ser amador e se torna profissional. Mas acho que isso aconteceu quando comecei a receber salário mesmo e conseguir me sustentar através do esporte. Aí sim virei uma atleta profissional. Isso foi em 2009 quando fui pra São Paulo e comecei meu segundo ciclo olímpico pra Londres. Me senti uma atleta profissional, por que eu trabalhava com o nado, assim como qualquer outro trabalho”.

Um atleta de alto rendimento dedica períodos significativos do seu dia aos treinamentos. Como resultado da falta de articulação entre esporte e educação, são poucas as instituições de ensino que promovem essa união no Brasil, o que torna a escolha de seguir carreira no esporte ainda mais dura. A falta de valorização e o futuro incerto enquanto profissional faz com que até quem dedica mais de 5 horas diárias aos treinamentos (isto é, quase uma jornada de trabalho) ainda se considere “amador”, como, por exemplo, Artur Gola de Paula, atleta do remo do Esporte Clube Corinthians: “um atleta profissional é aquele que faz do esporte o seu trabalho. O esporte nunca foi meu trabalho, mas ainda assim minha dedicação foi, e, é, muito grande.”

 

O início da carreira

A entrada no esporte, para a maioria dos atletas, acontece através da prática nas aulas de educação física, no colégio, ou pelo incentivo familiar. O esporte, no ínício, é encarado como modo de inserção e ascensão social ou como uma forma de lazer e recreação. Mas poucas pessoas têm a possibilidade de experimentar um leque amplo de modalidades, como Teixeira, que se encontrou no nado sincronizado após muitas tardes no clube, onde ia depois do colégio para fazer natação e ginástica.

Os esportes mais praticados no Brasil se restringem a um universo muito pequeno, dado que aqueles com maior visibilidade são os coletivos – minoria dentre as modalidades. No Brasil, os clubes se tornaram o lugar onde é possível explorar modalidades distintas, mas o público ainda é seleto, tornando as possibilidades de profissionalização baixas e a carreira profissional algo que depende não só de talento, mas também, de investimento pessoal. Camila Tenório, ex-atleta de handebol do Clube Pinheiros, conta que dedicou 9 anos da sua vida a diferentes clubes em São Paulo: “muitos tiram dinheiro do seu próprio bolso para jogar, envolve muito amor ao esporte”, afirma.

Mesmo com recursos reduzidos, os esportes coletivos, como o handebol, têm maior adesão, pois existem peneiras anuais nos clubes e olheiros. Muitas pessoas decidem jogar na Europa – quando têm essa possibilidade – “onde o atleta  tem um merecimento maior e consegue se sustentar com mais facilidade. Sem isso, contra a vontade de algumas pessoas que moram aqui no Brasil, elas acabam saindo da vida profissional”, afirma Gabriela Pessoa, atleta de handebol, também do Clube Pinheiros.

Essa realidade é mais dura em outras modalidades, como o hoquey. Anita Casanova, ex-atleta de hoquey do Brasil, conta que começou a treinar com o seus irmãos, uma amiga e o irmão dela. Outro exemplo é o arco e flecha. Inaia Rossi pratica a modalidade há apenas um pouco mais de três anos e, hoje, mesmo tendo poucos lugares para treinar disputou uma vaga olímpica.

 

Carreira x Estudos

Certamente, em todas as profissões existem momentos em que se deve abrir mão de algumas coisas em detrimento de outras mas, no esporte brasileiro, isso se dá com muita frequência. Isso significa que a profissionalização dos atletas implica escolhas prematuras do que deixar ou não de fazer com relação à própria educação. Segundo Gabriela Pessoa “com campeonatos em outras cidades e países, ocorreram várias faltas na escola e na faculdade. Acho importante estar na faculdade e jogando, mas você precisa decidir em alguns momentos para qual das atividades você vai dar mais atenção.” .

Essas escolhas variam conforme as ambições, prioridades ou condições dos envolvidos, mas a falta de apoio financeiro é uma das principais razões do por que tantos atletas abrem mão de adotar o esporte como profissão. Para Anita Casanova as universidade e o esporte no Brasil “são duas coisas que não caminham lado a lado”. “O Brasil não dá apoio ao atleta, não influencia/estimula os jogadores a continuarem competindo. No momento atual, não acho que os atletas conseguiriam fazer as duas coisas bem por esse motivo”, completa. Enquanto isso, no Canadá (onde fez intercâmbio) “tudo te incentiva a jogar algum esporte e tudo tem que ser aliado a ir bem na escola/faculdade. Tive muitos amigos que tinham bolsa na escola por jogarem profissionalmente algum esporte e a bolsa seria tirada caso o jogador não fosse bem nas provas do colégio”.

Essa via de incentivo acontece em algumas universidades no Brasil, como é o caso do Mackenzie em que alguns atletas têm bolsa a partir do seu rendimento tanto no curso, quanto no esporte; ou da PUCRIO e da FMU, onde Teixeira recebeu bolsa integral por ser atleta. Segundo ela, nenhum atleta deveria largar os estudos por que “hoje em dia a gente consegue até ter esses ensinos a distancia (no caso das faculdades) pra quem viaja muito. É só se planejar que a gente consegue estudar”. Outra forma de incentivo são os clubes que fornecem bolsas em universidades especificas, como é o caso do handebol do Pinheiros e sua associação à UNIP.

 

Esporte Universitário

No Brasil poucas universidades tiram proveito da oportunidade que têm ao conseguirem atrair atletas para os cursos que oferecem. Um bom exemplo disso é que algumas modalidades nem existem pro esporte universitário, como o remo, hoquey, nado sincronizado e arco e flecha, entre outros. Sendo assim, para competir pelas suas instituições de ensino, os atletas têm de se adaptar a outras modalidades que não a sua.

Mesmo com a existência de campeonatos fortes, como o Mundial ou as Olimpíadas Universitárias, o esporte universitário no Brasil ainda é considerado amador. A participação da comissão brasileira nessas competições se dá com times formados por pessoas inscritas nas universidades e que não necessariamente de fato estão estudando. Em outros países, como a França, existem centros de treinamentos, chamados CREPS, que “contam com alojamentos para os atletas, refeitórios, salas de aulas e os devidos espaços para pratica dos esportes dos CREPE. Atendem jovens com potencial esportivo de varias regiões e dão a eles todo o suporte que necessitam. Eles tem reposição de aulas nos centros de treinamento e podem se formar na universidade em mais tempo do que outros alunos”, conta Rossi, ressaltando que seria um modelo ideal para incentivar a profissionalização.

Além disso, as universidades estão longe de oferecer a infraestrutura necessária para acolher atletas profissionais. Até mesmo alguns clubes no Brasil não fornecem o necessário, que vai desde equipamentos de treino até acompanhamento psicológico. Isso faz com que o esporte nacional seja pouco desenvolvido e aqueles que pretendem seguir carreira saiam do país.

A exceção

O rugby brasileiro é um exemplo no qual um esporte se desenvolveu a partir das universidades. André Ferreira, atleta do time de rugby da Escola Politécnica da USP conta que “o esporte  universitário foi um dos poucos caminhos pelo qual o rugby se desenvolveu no Brasil. Tem times bem antigos, como o da Poli (1971) e da Medicina (1966), que foram onde a grande maioria dos jogadores brasileiros começaram a jogar, perdendo em tradição apenas para clubes como o São Paulo Athletic Club (SPAC). A grande diferença é que, no universitário, quase todos os jogadores eram brasileiros, enquanto que nos clubes o número de estrangeiros era bem maior. Da mesma forma como nos clubes, foram estrangeiros que trouxeram a prática ou alunos que tiveram experiências em outros países.”

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