Cada jogo é uma final.

por • 9 de maio de 2016 • Colunas, Entrevista, HandebolComentários (0)476

Atleta de Handebol na Unesp Bauru fala um pouco sobre o que é jogar pela Universidade

Por Danilo Lysei

                                                                        

Quem nunca jogou uma partida Handebol não sabe o que é ter a sensação de voar ao goleiro, no último minuto de jogo, e fazer o gol da vitória. O momento decisivo, o passe perfeito, o “chute” certeiro. Essa, e muitas outras sensações, Bruno Sartori Reis já teve a oportunidade de experimentar. Estudante de Ciências Biológicas e atleta do Handebol pela Unesp Bauru há quatro anos, Bruno conta um pouco da vida unespiana e da vida esportiva paralela ao curso. Velha guarda e titular do atual time, junto de alguns outros, o atleta lidera jogos, treinos, aconselha os novatos e ensina o que é ser esportista em uma Universidade do interior.

Danilo Lysei: Você já jogava antes de entrar na faculdade? O que os treinos na Universidade de acrescentaram?

Bruno Sartori: Já jogava antes de entrar na Unesp. Eu estava na quinta série quando eu comecei a jogar, mais ou menos. A diferença do treino que eu tinha antes foi mais a questão de intensidade e de qualidade, que subiu muito quando eu entrei na faculdade. O treino é mais focado em campeonato, você tem todo um objetivo de ganhar. E me acrescentou bastante, principalmente em aprendizado.

 

DL: Como você concilia a faculdade e os treinos, amistosos e jogos?

BS: É muito mais uma questão de organização. É também uma questão de querer. Eu sei que é difícil, conciliar os horários dos treinos noturnos com acordar cedo para vir pra faculdade e tudo o mais. Só que é uma parte muito importante tanto de convivência dentro da faculdade, quanto de crescimento pessoal. Você acaba conhecendo muitas pessoas que não teria conhecido em outros ciclos. E a partir do momento que você está treinando, o que você mais quer é jogar, participar de jogos e campeonatos, o que motiva muito mais. Você não vai querer deixar seus companheiros na mão, uma vez que você já está dentro do grupo.

 

DL: Como você se sente participando de jogos universitários de alto nível?

BS: Participar de jogos universitários, no nível que está hoje, é uma grande surpresa, porque eu não imaginava o nível e a intensidade que tinha. Chegar no Inter (principal competição das Unesp), ver vários times fortes, foi uma grande surpresa. E poder participar disso é sensacional. Você aprende muito, toma ‘pau’, mas aprende com os caras. É uma motivação muito grande pra você continuar crescendo. Saber que você estava lá e que você não deixou nada a desejar, por mais que o resultado não seja o esperado. Sentir que você deu o seu o melhor é uma responsabilidade, uma sensação muito gostosa.

beat - unesp bauru (1)

Foto por Pedro Spina Horvath

DL: Como você lida com os novatos do time?

BS: A parte de lidar com o novatos que estão entrando é a parte mais interessante e mais importante do esporte universitário. Você tem que lidar com essa reciclagem do grupo, porque aquelas pessoas não vão estar para sempre naquele time, são só quatro ou cinco anos, as vezes nem isso. Então a gente tem sempre que aproveitar o melhor de quem entra com vontade de aprender. Muitas vezes vem pessoas que já jogavam em suas cidade, já tinham uma carga no esporte, mas também têm aquelas pessoas que entram na faculdade querendo aprender um coisa nova. E você tem que abraçar também, porque ela é como um diamante bruto, que você consegue lapidar a ponto de ela se tornar alguém para fazer muita diferença.

 

DL: Qual a sensação de entrar em quadra pela Unesp Bauru?

BS: Cara, a sensação de entrar em quadra pela Unesp Bauru é indescritível. Você treina o ano inteiro, vai em jogo, em amistoso, tudo se preparando para O Inter. Vai chegando a hora e vai dando aquela ansiedade, você começa a se tocar que cada jogo vai ser uma final, porque é um mata a mata, não tem margem para erro. Você entra numa pilha e quer mostrar o que fez durante o ano. Então chega a hora, você pisa em quadra, olha aquele mar amarelo na arquibancada, a bateria tocando no fundo, todo mundo gritando, empurrando o time inteiro e quando começa é como se parasse tudo. É só você, seus companheiros de time, a bola e você tem que resolver aquilo. O jogo começa, cada gol que faz, cada momento, é uma vibração diferente. As vezes começa perdendo, e cada um olha para o outro e enxerga a vontade que tem, olha para a arquibancada aquela galera gritando, te empurrando, todo mundo sabendo que você está fazendo o seu melhor, todo mundo ali acreditando em você e já era. Não tem mais pra ninguém depois disso. Vai estar pra nascer um campus tão foda, tão unido quanto Bauru.

 

DL: Como você lida com o abalo de jogos perdidos?

BS: Perder um jogo, independente de ser amistoso ou um torneio preparatório para um jogo maior, é muito complicado. Por mais que seja um esporte coletivo, você sempre vai ficar marcado com os seus erros e isso mexe com seu psicológico. Aí entra a parte do grupo, pegar aquela pessoa que estava mal e ajudar, tentar melhorar e treinar mais ainda. No próximo ano você vai atrás de acertar seus erros, para fazer melhor! Também entra a parte do orgulho, porquê você vai querer pegar o mesmo time que você perdeu e mostrar o seu melhor. É sempre continuar trabalhando para não errar e conseguir fazer esse seu melhor.

 

DL: Qual foi o melhor jogo que você teve pela Unesp Bauru?

BS: O melhor jogo que eu tive foi no InterBotucatu, em 2014. O primeiro jogo foi contra a Unesp Botucatu, na casa dele, torcida deles em peso. Eles tinham toda uma motivação para ganhar lá. O jogo começou emparelho, estava todo mundo jogando o máximo que podia. Só que eles tinham uns dois jogares que estavam fazendo muita diferença e nosso time não estava conseguindo marcar. Eles abriram umas quatro ou cinco bolas e mantiveram essa diferença o primeiro tempo inteiro. Então no intervalo, a gente sentou, todo mundo nervoso porque nós sabíamos que tínhamos time, tínhamos mais perna, o nosso preparo era melhor, sabíamos o que cada um tinha que fazer. Porém não conseguíamos encaixar isso. Paramos e nos olhamos, olhamos a torcida, e entramos em quadra querendo moer eles, acabar com a defesa que eles estavam fazendo. Começou o segundo tempo e começamos com marcação e ataque fortes, sem errar, mas mesmo assim não conseguíamos. Faltavam dez minutos para acabar e a gente começou a acertar. Acertamos a defesa e fomos tirando a diferença, bola por bola, até conseguirmos empatar.  No final jogo, ninguém mais tinha perna, nem folego e ainda assim abrimos umas três, quatro bolas, e os caras entregaram o jogo de desespero, nossa torcida gritando loucamente do outro lado. Na hora que o juiz apitou, eu só vi a galera correndo para se abraçar, o time inteiro chorando, por saber que fizemos o nosso melhor, tirando energia de onde já não tinha para passar daquele primeiro jogo, digno de ser uma final. Não lembro de ter visto um jogo tão bom quanto aquele. Ainda mais por ter participado. Jogo igual aquele eu não vou presenciar de novo.

 

DL: Você enxerga o esporte universitário como prioridade no ambiente universitário?

BS: O esporte universitário tem sim que ser visto como prioridade. Tanto por uma questão social, por questão de inclusão, porque o esporte tem muito disso. Dentro de quadra, não importa suas características físicas ou psicológicas, isso é indiferente. Ali é mais uma questão de ser uma pessoa em um grupo. Quanto por uma questão de saúde, pois as vezes você fica só naquela pegada de estudar, de focar muito em virar noites estudando e isso acaba gerando um estresse muito grande em você. O esporte dentro do ambiente universitário acaba sendo uma válvula de escape até para lidar melhor com as responsabilidades da faculdade. Pelo esporte você cria também amizades com pessoas que você não imaginava, com ciclos que não teria contato em outro ambiente.”

 

 

Crédito foto de capa: Por Pedro Spina Horvath.

Posts Relacionados

Comentários fechados