Dois anos para vender uma idéia: o esporte é importante para USP

por • 29 de março de 2016 • Colunas, EspecialComentários (0)684

Com aporte financeiro e em parceria com a Laausp, Pró-Reitoria de Graduação institucionaliza o apoio ao esporte; desafio é consolidar política nas gestões seguintes, a partir de 2018

Por Fernando Guimarães

 

O esporte uspiano quer ser grande. Uma parte dele – a parte dos alunos-atletas e alunos-cartolas, que organizam e gerem suas próprias competições há algumas décadas – sempre quis. Desde 2014, um novo jogador entrou em cena: o apoio institucional. Podemos então dizer que, agora, a USP quer que o seu esporte seja grande.

O desejo e a iniciativa de incluir o esporte na agenda oficial da universidade vêm da formação da chapa de Marco Antonio Zago para concorrer à reitoria após a conclusão do mandato de João Grandino Rodas. Zago terminou a campanha vitorioso e o professor Antonio Carlos Hernandez assumiu a cadeira da Pró-Reitoria de Graduação – instância diretamente responsável pelo relacionamento com as atléticas e pelo incipiente apoio ao esporte.

O apoio é essencialmente financeiro e, segundo Hernandez, respeita uma série de critérios. Um deles é a duração do ciclo da atual gestão da reitoria. “Nós temos mais dois anos aqui, enquanto isso o projeto está garantido”, diz Hernandez. Como não se sabe o que acontecerá depois, carências na infraestrutura, consideradas problemas de longa data, estão entre as prioridades. Outro critério importante é que o projeto se estenda a todos os campi da universidade, de Ribeirão Preto a Lorena, passando por São Carlos, Bauru, Sorocaba e Pirassununga.

Na capital, parte dos módulos do CEPE foi reformada com a troca do piso, e a tão esperada reforma do teto, segundo Hernandez, aguarda apenas alguns trâmites burocráticos para ser iniciada. Em Pirassununga, conta o pró-reitor, o campo de futebol não tinha vestiários. “Eles tinham que se trocar atrás de um matinho que tem ali na frente. Estamos construindo os vestiários, depois vamos arrumar a pista de corrida”. Outro exemplo mencionado foi o ginásio de Bauru, onde estão sendo resolvidos antigos problemas de acessibilidade. “Em Ribeirão Preto os estudantes afirmaram que um dos principais problemas deles era o ginásio, então vamos arrumar o ginásio também”. A idéia é aproveitar o período em que o projeto está rendendo frutos para garantir um legado que permanecerá no futuro.

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Equipe de Futsal da EEFE-USP comemorá título na Copa dos Campeões. Foto por Beatriz Escalhão

A pró-reitoria também vê no esporte um mecanismo de agregação das diversas comunidades uspianas já mencionadas – que, em condições normais e salvo exceções, pouco se relacionam. Na prática, isso significa o fomento à participação dessas unidades nas competições organizadas pela LAAUSP – a grande parceira da pró-reitoria no projeto. De 2014 até hoje, houve um crescimento contínuo no número de participantes do BichUSP e da Copa USP. A redução das taxas de inscrição e o custeamento do transporte de atletas e comissões técnicas do interior para os jogos em São Paulo são duas ações dessa parceria que vêm contribuindo para o aumento.

Nada disso seria possível se não fosse o interesse e cooperação da LAAUSP. Foi por meio dela que a pró-reitoria pode tomar conhecimento da realidade do esporte uspiano. A aproximação entre essas duas partes não foi um processo simples. Não é difícil imaginar que um alto burocrata da maior universidade da América Latina e um estudante que reserva momentos preciosos de sua vida para cuidar de inscrições em campeonatos não chancelados, jogos incompletos de uniformes e lucro da venda de bebidas em festas – falamos de um típico atleticano – fazem parte de universos completamente distintos. Nas palavras de Hernandez,  esse contato tem sido “um grande aprendizado para as duas partes”.

Felipe Guimarães Marco – mais conhecido como Guima, atual presidente da LAAUSP, aluno da EEFE e figurinha carimbada nas nossas páginas – foi um dos primeiros representantes da classe atleticana-estudantil a entrar em contato com o professor Hernandez, em outubro de 2014. Poucos dias antes, a trágica morte de um estudante em uma festa organizada pelo Grêmio Politécnico nas dependências do CEPE havia abalado a comunidade universitária, e o principal meio de financiamento do esporte local estava no olho do furacão.

Seguiu-se então uma série de reuniões entre Hernandez e representantes atleticanos. Além de Guima, então membro da atlética da EEFE, também participaram João Pedro Stéphano, presidente da LAAURP desde aquela época até hoje, e João Vargas, que assumiria a presidência da LAAUSP em 2015, entre outros. Nestes encontros, o pró-reitor foi introduzido a este mundo paralelo em que entidades amadoras, com escasso ou nenhum apoio institucional ou financeiro, trabalham ano a ano para manter milhares de atletas dentro de quadras, campos, pistas e piscinas. Entidades estas que costumam ser apontadas como responsáveis pelas aparições do nome da universidade em páginas policiais, com manchetes sobre roubos, agressões e outros crimes.

Hernandez afirma que o status das festas dentro da USP nada tem a ver com a idéia de promover o esporte. “Uma diretriz nossa é não interferir em como as atléticas usarão o dinheiro que chegar até elas – se fazem festa, se não fazem, isso não é problema nosso”, diz. Guima tem uma versão diferente: a direção da universidade se preocupa com o consumo excessivo de álcool por alguns alunos. “Existe um consenso de que o esporte ajuda a afastar as pessoas de drogas e violência”, explica, apontando a direção seguida pela diretoria. Sem que Hernandez tenha mencionado esse problema, são discursos que se encaixam: expandir a formação universitária para além das salas de aula.


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Afinal, o objetivo da PRG com o projeto, segundo o professor, não é tornar a USP necessariamente um celeiro de campeões nem fazer dela uma potência do esporte universitário “oficial”, ao lado de UNIP, Anhembi Morumbi e Uni’Santana, entre outras. “O que queremos nesse momento é que o esporte passe a fazer parte da formação que a universidade proporciona aos alunos” diz o pró-reitor.

Ele sabe que o futuro desse projeto é incerto. Em parte porque o interesse institucional da USP com o esporte está garantido apenas até o final de sua gestão. Em parte porque até recentemente a disponibilidade das gestões da Laausp para levar adiante projetos como esse era uma incógnita. Assim como nas atléticas uspianas, sua administração não é remunerada e depende exclusivamente da boa vontade e da competência de gestores amadores. As gestões de Johnny e Guima parecem, até agora, dois casos em que competência e conhecimento sobre o assunto estiveram aliados a uma enorme vontade – e disponibilidade – de não apenas fazer as coisas funcionarem, mas de fazer uma evolução, de construir coisas novas. O próximo grupo de gestores da liga ainda terá Hernandez do outro lado da parceria. A partir de 2018, não se sabe quem estará em nenhuma das duas pontas.

Por ora, os ventos são favoráveis. Graças ao aporte financeiro da pró-graduação, a LAAUSP pode dar um aumento considerável aos técnicos das seleções. Equipes que antes treinavam apenas no segundo semestre e faziam vaquinha para completar os precários vencimentos dos técnicos agora treinam o ano todo, com opção de participar de campeonatos entre outras universidades e com uma remuneração bem mais adequada às comissões técnicas.

A pró-reitoria também inscreveu um edital no Programa Santander Universidades, reunindo demandas de todas as atléticas da USP. Hernandez constatou que o valor para satisfazer as necessidades expressas pelas atléticas ali era bem inferior ao do edital. Estabeleceu-se como prioridade a compra de material esportivo, sempre abrangendo todas as unidades.

Parte dos valores de arbitragem e aluguel de quadras da Copa USP também foi coberta por investimentos da pró-reitoria. Há ainda o plano para uma grande competição no segundo semestre que consiga envolver, de fato, toda a universidade.

Há ainda inúmeros planos: aquecimento do conjunto de piscinas do CEPE, reforma em quadras externas – infraestrutura que, é bom lembrar, estará disponível para toda a comunidade da universidade, não apenas os competidores atleticanos – e por aí vai. O projeto seguirá dependendo da cooperação entre LAAUSP e Pró-Reitoria de Graduação. Enquanto ela existe, pouco a pouco, o esporte uspiano vai ficando maior.

 

 

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