Por Shayene Metri

 

[dropcap]C[/dropcap]hegou o Dia Internacional da Mulher e todas as timelines (da vida virtual e da vida real) estão abarrotadas de textinhos, homenagens e textões sobre um pouco de tudo que nós, mulheres, queremos para os outros 364 dias. Hoje nos sobram flores, mensagens prontas e hipocrisia, mas também não nos falta vontade de mudança e reflexões.

Escrever sobre ser mulher no esporte é tarefa difícil: não sei nem por qual assunto começar. Poderia falar sobre a proporção ínfima de mulheres nas comissões técnicas. Poderia falar nas diferenças dos salários, na falta de visibilidade nos programas esportivos (http://bbc.in/1OYBl4B). Poderia falar também das campanhas machistas de cada dia dos clubes (http://bit.ly/1SwYUIv) ou sobre as dificuldades diárias de ser mulher e gostar de esporte. Pois é, vou falar de muita coisa…

“Nem parece que você pratica…”

Vivo o esporte desde os meus quatro anos, sob diferentes perspectivas. Na pré-escola, por motivos de vontade de abraçar o mundo, entrei no ballet e no judô. A turma das amigas; a turma dos amigos. Por que eu tinha que ficar de fora de algum? Queria os dois. Por muito tempo, fui a única menina nos treinos de judô. Por mais tempo ainda, escutei de outras pessoas “Você? Judô? Sério? Não parece!” e sempre me perguntei “Mas, gente, o que é exatamente parecer?”.

Em algum momento da pré-adolescência, a distração de criança virou prioridade: horas de treinamentos diários, federação, seleção, alto-rendimento da base. O judô virou parte central da minha rotina e da minha dedicação. E, apesar de todas as facilidades e todos os apoios que eu tinha (família, clube, amigos), hoje eu consigo ver algumas coisas com certo discernimento. Como as brincadeiras de que “eu tava dando migué”, quando não rendia tão bem em um treino no meio do meu período menstrual. Ou, por exemplo, as reportagens jornalísticas que, antes de perguntarem sobre meu desempenho nos campeonatos, questionavam minha vaidade, minha feminilidade.

Paralelamente, no âmbito do esporte escolar, o fato de ser mulher falava ainda mais alto. Cresci em uma escola onde menina não podia jogar bola. É isso mesmo, você não leu errado. O fato de ter nascido mulher nos “limitava” ao vôlei, à natação, etc. Mas, futebol, nem pensar. Se colocasse a bola no pé, ia direto pra diretoria (saudades diretoria). E não havia motim que resolvesse.

Ser mulher no esporte uspiano

Os anos se passaram, lesões ocorreram e eu me afastei do esporte de alto rendimento. E, claro, me formei na escola (sem jogar futebol). Depois de alguns anos de USP e certa resistência, me abri ao esporte universitário de corpo e mente. Ou seja, treinando e participando da sua organização.

Comparativamente, a maior universidade da América Latina até que se sai bem: temos uma quantidade considerável de técnicas mulheres (óbvio que ainda minoria) e alto envolvimento do grupo feminino com o esporte. Por exemplo, o público da Revista BEAT é majoritariamente de mulheres (uma exceção em sites de conteúdo esportivo).

Entretanto, o machismo aparece em cada detalhe e no cenário geral do esporte não só uspiano, como de todo universitário (ao menos do que posso dizer em relação a São Paulo). Ele aparece nos comentários sobre os “shortinhos do vôlei” e na torcida que agride verbalmente (são muitas as “putas”, as “gordas”, as “feias”). Ele aparece, também, no íntimo das organizações, nas reuniões das Atléticas e nas comissões organizadoras.

Hoje é 08 de março de 2016 e ainda há Atléticas nas quais mulheres não ocupam cargos de alta responsabilidade/visibilidade, como Diretoria Geral de Esportes ou Presidência. Afinal, “mulher chora sob pressão e dirige mal”. Há também as menos escancaradas, onde o grupo feminino, na teoria, pode tudo, mas, na prática, dificilmente sua voz existe. Chega a impressionar como as mulheres envolvidas com organização esportiva, no geral, têm que se esforçar bem mais que os homens para que suas opiniões sejam consideradas. Enfim, um microcosmo do que acontece diariamente não só no esporte, mas em praticamente todos os setores: por exemplo, vá em uma reunião de presidentes de Atléticas e conte quantas pessoas do sexo feminino há no ambiente. Pois é, a (i)lógica machista existe em todas AAAs, seja de forma oficial ou por convenção social.

Nesse Dia Internacional da Mulher, assim como em todos os outros dias do ano, o esporte não tem nada de igualdade de gênero. Nós temos títulos históricos, mas não há visibilidade para isso. Temos meninas que não jogam futebol porque “é coisa de menino”. Temos melhores atletas a nível mundial, escondidas em meio a rankings de “musas do esporte”.

Temos muita coisa pra mudar.