Os desafios de um goleiro

por • 20 de novembro de 2015 • Futebol de campo, Futsal, Jogo a JogoComentários (0)1054

Por Gabriel de Campos| Jornalismo Júnior

 

Do céu ao inferno e vice-versa. Mesmo com uma atuação impecável, um simples deslize pode colocar tudo a perder, custando não apenas a derrota do time, mas tendo em si a maior parcela de culpa. Independentemente da modalidade, essa é a rotina de quem se propõe a ser goleiro. Solitário, joga sempre no limite, sem que haja o meio termo: se defendeu, acertou; se tomou gol, errou; e qualquer erro pode ser fatal.

No futsal não é diferente. Durante uma partida, os goleiros são submetidos a diversas situações nas quais têm que aplicar posicionamento e técnica específicos, sempre com baixíssimo tempo de reação. Aí entra o treinamento a que são submetidos, tendo como principal função fazê-los escolher estratégias da maneira mais correta possível, associando lances do jogo às experiências trabalhadas nas atividades dos treinos.

Com uma jornada no esporte universitário de no máximo 5 anos, o maior desafio dos treinadores é desenvolver técnicas marcadas por vícios que já acompanham o jogador. Mesmo que para ele funcione ocasionalmente, essa falha técnica uma hora o comprometerá. Em entrevista cedida, o atual goleiro da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) e da Seleção USP de futsal Lucas Davoglio explicitou a deficiência causada pela falta de técnica: “Se o goleiro começa a experimentar essa habilidade sem referência do que é considerado certo e persiste nisso por um determinado tempo, ele consolida essa aprendizagem formada pelo acaso, e fica irreversível o processo. […] Muitas vezes, a maioria dessas estratégias não tem a mesma chance de êxito do que uma estratégia originada de uma formação com instrução. Daí surgem os goleiros conhecidos como ‘pegadores de bola’ – aqueles que não são bons tecnicamente, porém pegam a bola de qualquer maneira.”

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Mariana Beloni como goleira no Campeonato Paulista de Futsal Feminino. Fonte: Arquivo Pessoal

O treinamento dos goleiros é diferente do de qualquer outro jogador, como não poderia deixar ser, tendo um enfoque especial a cada técnica de acordo com o conhecimento prévio do jogador. Segundo a treinadora de goleiros de futsal Mariana Beloni, para cada etapa do desenvolvimento do atleta há uma atividade diferente: “Para goleiros iniciantes, utilizo atividades que proporcionem oportunidade de aprender fundamentos básicos, como, por exemplo, as pegadas, as quedas, as saídas de gol e os deslocamentos. Durante as atividades tento mesclar tarefas coordenativas e com deslocamentos com fundamentos e, a partir daí, explicar em quais situações são utilizadas e em qual momentos do jogo.”

Depois de já trabalhados os movimentos básicos, são aliados a eles situações encontrados no jogo, simulando momentos como um contra o goleiro ou diferentes formas de defesas, aplicando os fundamentos antes trabalhados. “Após todo esse processo, posso começar a trabalhar com atividades mais complexas, como exercícios de tempo de reação, segundo pau, com desvios, entre outras. Durante esses exercícios, fazemos ajustes mais finos e decidimos estratégias as quais o goleiro melhor se adapte para que possa ter um melhor desempenho.”, completa Mariana.

Um goleiro, contudo, não se vale apenas por sua qualidade, mas também pelo trabalho com o psicológico frente tamanha pressão e, para Lucas, essa é importante parte do treinamento. “Através do diálogo, há uma preocupação fundamental com aspectos mentais e psicológicos do goleiro, como confiança, liderança, controle da ansiedade, auto-responsabilidade, saber lidar com erros e acertos, concentração, motivação, autonomia; discutimos lances e tomadas de decisão, discutimos conceitos do jogo e improvisos no mesmo”.

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Lucas Davoglio em treinamento de goleiro no CEPE. Fonte:Arquivo Pessoal

Treinos solitários, falta de reconhecimento e muitas vezes considerada uma posição “ingrata” no esporte, o goleiro é, definitivamente, uma posição especial. Apesar de carregar consigo todas essas características, ainda é dele boa parte do destino do jogo; ainda é dele a capacidade de, em um lance, consagrar não só a si mesmo, como a todos os seus companheiros de equipe. Não a toa leva às costas o número 1, o primeiro de todos; não a toa, todo time vencedor tem, por excelência, um exímio goleiro.

 

 

 

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