Autoriza o árbitro, começa a partida… para as minas

por • 10 de novembro de 2015 • Especial, Futebol de campoComentários (0)833

Por Marina M. Caporrino | Jornalismo Júnior

 

Chuteira, suor, grama. Apenas essas três palavras bastam para imaginarmos dois times disputando uma sempre tão calorosa partida de futebol. O que há de novo nisso? A novidade aconteceu no dia 19 de setembro, um sábado de céu azul e ensolarado. Atletas de diversas equipes se preparavam para os Jogos da Liga. Mas, dessa vez, com uma grande diferença: Jogos da Liga de Futebol Feminino.

Parece até estranho destacar esse acontecimento, mas, no país do futebol, o campo sempre foi masculino. E não é diferente no esporte universitário. Desde os primeiros Jogos da Liga, em 1999, a modalidade de futebol de campo feminino foi colocada de lado. Alguns jogos ocorreram esporadicamente, porém não foram o suficiente para consolidar a prática como uma modalidade dos Jogos. Mas as coisas estão prestes a mudar. Vivemos em um momento de efervescência da luta por igualdade de gêneros e isso certamente se reflete no esporte.

A ideia de recriar e firmar de vez o futebol feminino como uma categoria de esporte universitário surgiu no final do ano passado e foi encabeçada por Rui Ybarra, aluno da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP e treinador do futebol feminino da Universidade. Também técnico na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), Rui resolveu incentivar as meninas de lá a começarem um time de futebol feminino e treiná-las. Porém, como o incentivo ao futebol feminino ainda é baixo, não foi possível formar um time apenas da unidade e no meio do ano o time foi aberto a todas as uspianas.

Evidentemente, surgiram dificuldades no caminho. A comunicação e a divulgação foram as maiores, além das agendas cheias das atléticas, que dificultaram a realização dos treinos e a possibilidade de haver mais de um dia de Jogos. Mas, para Rui, essas não foram as piores dificuldades. O fatalismo que impede as pessoas de mudarem e tomarem atitudes pesou na hora de recriar a modalidade. “Nada é mais difícil do que vencer a barreira presente nas ideias que as pessoas têm de que a realidade é desse jeito e que nada podemos fazer para mudá-las”, comenta.

Na preparação do time, surgiram outros empecilhos. O principal foi o fato de que grande parte das meninas que começaram a treinar futebol jogavam futsal – o que, apesar de não ser errado, não é o ideal, pois são estilos de jogos e regras diferentes. Isso também gerou conflitos de agendas com os treinos de futsal, já que as atletas são de toda a USP.

Deixadas as dificuldades de lado, quando souberam que jogariam nos Jogos da Liga, as meninas reagiram com curiosidade, como conta Leila Anjos, estudante da FAU e jogadora do time. Depois de todas as adversidades para formar o time e treinar, finalmente as meninas teriam – mesmo que apenas em um dia – um momento para competir. No dia, apesar da novidade, o ambiente estava bem tranquilo. “Não havia muitas pessoas além das atletas”, conta Leila. Mas, mesmo assim, ela diz que o clima era bem positivo entre as jogadoras.

 

Agora é a vez delas

A experiência, apesar de breve, foi muito positiva. A possibilidade de jogar futebol de campo abre as portas da modalidade para todas que apreciam jogar bola, mas não se identificam com o futsal. Muito além disso, o futebol feminino na universidade é um passo a mais na luta das mulheres por seu espaço.

A valorização do esporte feminino é muito necessária – prova disso é a diferença entre o futebol profissional masculino e feminino – e deve acontecer não só nas categorias profissionais, mas também dentro da universidade. Para isso ocorrer, deve-se existir, pelo menos, as modalidades femininas e o incentivo a prática.

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Crédito: divulgação/laausp

O incentivo configura-se em um aspecto muito complicado, pois no nosso país não existe a cultura de futebol feminino. Para Leila, o desincentivo à prática ocorre desde criança: “Sei que não são todas as garotas que quando menores praticam esportes, sendo direcionadas para atividades consideradas mais ‘de meninas’”. Essa falta de interesse gera pouca procura e, consequentemente, atrofia a prática do futebol feminino entre os esportes universitários.

Portanto, é essencial que as competições continuem acontecendo para manter a prática viva e chamar cada vez mais atletas para a modalidade. Além disso, o engajamento de atléticas e da própria Liga Atlética Acadêmica da USP (LAAUSP) para manter o futebol feminino como uma modalidade tão comum quanto o vôlei é muito bem vindo e necessário.

O futebol feminino na USP tem grande potencial, assim como acontece com o rugby feminino, recentemente adicionado, e que já tem grande alcance. Quem sabe essas inclusões não sirvam como um impulso para o crescimento de outras modalidades que ainda apresentam tímida ou nenhuma participação feminina na universidade.  Afinal, quando as minas entram em campo, não tem para ninguém!

 

Crédito foto de capa: divulgação/laausp

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