Do universitário ao profissional: as dificuldades do handebol feminino no Brasil

por • 22 de setembro de 2015 • Especial, HandebolComentários (1)2173

Por Diogo Magri | Jornalismo Júnior

 

Em qual desses esportes coletivos citados a seguir o Brasil garantiu medalhas de ouro nas modalidades feminina e masculina nos Jogos Pan-americanos de Toronto, realizados em julho deste ano: futebol, vôlei, basquete ou handebol? A resposta está no menos badalado e conhecido dos quatro. Jogando duas finais contra a Argentina, as duas equipes brasileiras subiram no lugar mais alto do pódio de handebol no Canadá. E elas tiveram uma cobertura mínima durante a transmissão do evento.

Não que isso tenha sido culpa exclusiva dos canais brasileiros. A TV Record e o SporTV, que cobriram a competição por aqui, dependiam da CBC (Canadian Broadcasting Corporation), emissora de lá que comprou os direitos de transmissão do Pan e ficou responsável por repassá-los. A CBC só tinha infraestrutura necessária para cobrir no máximo 32 das 48 modalidades disputadas na competição – não incluindo, nestas, o handebol. Foram, no total, 750 horas de cobertura disponibilizadas para todos os esportes. Para se ter uma comparação, esse número foi de 5.600 horas nas Olímpiadas de Londres 2012.

A falta de estrutura canadense não isenta a falta de repercussão na mídia nacional; mostra, na verdade, que o desinteresse pelo esporte não é exclusividade nossa, apesar do amadorismo do handebol feminino aqui ser muito mais evidente. O que surpreende, no caso brasileiro, é a pífia divulgação mesmo com o handebol sendo o esporte que mais nos dá resultados nos últimos anos. A equipe feminina alcançou o pentacampeonato pan-americano em 2015, tem duas das últimas melhores jogadoras do mundo e é a atual campeã mundial.

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Duda Amorim, a melhor do mundo de 2014 – Imagem: ahebrasil.com.br

Você sabe quem são Duda Amorim ou Alexandra? As melhores jogadoras de handebol do mundo de 2014 e 2012, respectivamente. Você se lembra da campanha da seleção no Campeonato Mundial de Handebol Feminino de 2013? Na época, só o canal de TV fechada Esporte Interativo transmitiu a trajetória histórica do Brasil e o título frente à gigante Sérvia na final. Resultados como estes já estariam nas capas dos principais jornais do país se fossem conquistados no basquete ou no vôlei. Ocupariam a página inteira se fossem no futebol. No handebol, um título épico vai para o rodapé do caderno de esportes.

As atletas têm a consciência da situação do esporte no Brasil, que só dificulta a sua prática. Júlia Araújo, de 22 anos, que jogou por três anos nas categorias juvenis pelo Esporte Clube Pinheiros, além de ter atuado pela Federação Paulista de Handebol e representado o Brasil em campeonatos na Espanha, Suécia e Dinamarca, considera a cobertura midiática do esporte no país vergonhosa. “Em 2011 o país sediou o Mundial Feminino de Handebol, não havia nenhuma emissora transmitindo e o campeonato foi digno de pequenas notas nos cadernos de esporte dos jornais de grande circulação. Resultado disso: haviam mais torcedores dinamarqueses na arquibancada do que brasileiros. A atenção cresceu com os resultados, mas ninguém transmitiu nada neste último Pan, por exemplo.” Mateus Bizetti, treinador de handebol e atleta da EEFE/USP, completa a fala de Júlia. “A indústria esportiva – e aí se coloca não só os valores gerados no evento em si, como bilheteria, patrocínios, transferências, etc, mas também a venda de materiais esportivos para fãs e atletas amadores – direciona a mídia à exibir mais ou menos uma modalidade. Em 2013, em uma pesquisa do IBGE, o handebol aparece como o 10º esporte mais praticado no país, com um percentual de participação de 1,6% da população brasileira, enquanto 42,7% dos entrevistados praticam futebol. O basquete ainda é o 11º, mas tem uma divulgação maior pelo passado e pela indústria esportiva que gera”, explica.

Todo esse contexto não facilita o desenvolvimento do esporte de maneira profissional no Brasil. As barreiras enfrentadas por aquelas que tentam tornar seu esporte uma profissão são as mais variadas. “A maior parte das jogadoras da seleção atuam hoje em times estrangeiros. E isso é por questão de necessidade e de estrutura. Boa parte das minhas amigas que seguiram para o handebol profissional jogam em clubes e trabalham em outra área. A estrutura continua sendo bem precária, principalmente fora dos grandes centros como São Paulo, e a falta de patrocínio impede a profissionalização do esporte”, afirma Júlia.


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“O Bolsa Atleta vem ajudando as atletas de ponta a ‘viver’ da modalidade, apesar de alguns defeitos, como o fato de ser fornecida apenas a competidoras que já estão ‘tendo sucesso’. Toda a massa de atletas que ainda não apresentou resultados acaba dependendo muitas vezes de doações e ajudas de fãs e amigos para participar de competições, tendo-se que a lógica de patrocínio no Brasil muitas vezes está atrelada ao espaço de exposição na mídia”, diz Mateus.

As dificuldades do universo profissional do handebol brasileiro assolam também as jogadoras universitárias, como não poderia ser diferente. Luciana Mattar, ingressante da FAU em 2007 e jogadora universitária até a sua formação, discorre sobre as barreiras enfrentadas também por ela: “Existe pouco incentivo público e privado para desenvolver categorias de base, provocando um desenvolvimento muito tardio na maioria dos atletas. Pessoas como eu, que não tiveram acesso aos grandes clubes privados, só vão se desenvolver no esporte nas universidades que possuem times. Dentro do esporte universitário vão se perpetuar os mesmos problemas de falta de incentivo e apoio, principalmente financeiros, obrigando os próprios alunos a gerirem seus times, campeonatos, técnicos e material para a prática. Resumindo: você tem que gostar muito.”

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Luciana (a 4ª em pé da esquerda para a direita) e seu time da FAU – Foto de Matheus Brant.

Mateus, ao falar sobre o nosso esporte universitário, opina sobre uma sempre presente comparação com o modelo existente nos EUA. “A comparação não só é injusta como impossível de ser feita: o modelo norte-americano baseia-se completamente no sistema educacional e o Brasil tem um sistema clubístico, em que se delega a clubes a ‘responsabilidade’ da prática esportiva. O ‘problema’ daqui é que existem poucos e caríssimos clubes, o que acaba transferindo esta responsabilidade para o sistema educacional que, por conter aparelhos que sustentam a prática, aceita este discurso de ser ‘celeiro de atletas’. Mas a escola tem outras preocupações, funções, e atividades físicas que podem e devem ser apresentada aos estudantes. Acredito que o mesmo processo acontece na universidade.”

Considerando o handebol universitário como fundamental para o desenvolvimento do handebol profissional no Brasil, existe a discussão sobre o fato dos níveis de qualidade de ambos serem muito semelhantes afetar o crescimento deste esporte profissionalmente dentro do país. Júlia concorda, em parte, com a afirmação. “Eu acho que esse cenário é muito mais uma consequência da precariedade da estrutura do esporte no país do que a causa. Se o nível da competição universitária é quase igual ao da profissional, isso mostra que as atletas profissionais não estão se dedicando exclusivamente ao esporte e fazem um curso universitário paralelamente ou ainda que jogadoras com um futuro promissor como atleta estão abandonado essa possibilidade para fazer um curso superior.” E finaliza com uma realidade que, apesar de bem comum em esportes sem tantos títulos recentes, ainda está longe do handebol brasileiro: “Sem a possibilidade de uma dedicação integral, o desenvolvimento do esporte de maneira profissional no país fica muito prejudicado.”

 

 

Crédito foto de capa: lancenet.com.br

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