O ciclo menstrual afeta o desempenho esportivo?

por • 17 de agosto de 2015 • TreinamentoComentários (0)1137

Por Nelson Niero Neto | Jornalismo Júnior

 

Você já parou para pensar se as alterações no organismo causadas pelo ciclo menstrual podem influenciar sua performance esportiva? Estudos de professores universitários norte-americanos apontam que as flutuações hormonais que ocorrem no corpo durante este período podem modificar bastante o rendimento das atletas e prejudicar o seu desempenho. Apesar disso, esses estudos não são uma unanimidade.

Para aqueles que já esqueceram as aulas de biologia e não convivem com o ciclo menstrual mensalmente, é interessante relembrar suas características. Sua duração varia muito de pessoa para pessoa, normalmente compreendendo um período de 21 até 35 dias. Durante ele, o útero é preparado para a possível implantação de um embrião. Basicamente, ele pode ser dividido em 4 fases, cada uma apresentando características próprias e níveis hormonais diferentes.

Na fase folicular, o hormônio folículo-estimulante induz o crescimento de folículos ovarianos, que contém os óvulos. Outro hormônio, o luteinizante, provoca a ovulação: fase em que um óvulo maduro é liberado em direção ao útero. Ela geralmente ocorre na metade do ciclo. Na fase seguinte, a lútea, são produzidas pelo organismo grandes quantidades de progesterona, que estimulam o desenvolvimento da parede interna do útero, o endométrio. Não ocorrendo a fecundação, acontece a menstruação, considerada a fase inicial do ciclo. O endométrio descama do útero e é eliminado através do sangue, e um novo ciclo começa.

Até o início do século XX, a influência deste processo em um possível detrimento da performance atlética era considerada um assunto não digno de estudo científico e discussão. Isso começou a se alterar a  partir dos anos 1920: com as mudanças que ocorriam no cenário social e a maior participação das mulheres no mercado de trabalho, muitos pesquisadores passaram a valorizar a questão, e os aspectos psicológicos decorrentes das flutuações hormonais passaram a ser vistas como hipóteses de um eventual aumento na incidência de lesões. Desde então, diversos estudos e trabalhos foram divulgados, tentando apontar se há relação entre a ocorrência de contusões e a variação hormonal.

Um dos estudos mais importantes desta área é a pesquisa de Yaacov Petscher, da Florida State University, que entrevistou e acompanhou atletas de diferentes idades em suas atividades esportivas. Entre elas, estavam praticantes de diversas modalidades, como vôlei, basquete, futebol, rugby e taekwondo. Petscher trabalhou com a hipótese de que haveria uma maior chance de lesões durante fases específicas do ciclo menstrual.

Segundo ele, essas fases seriam a lútea e a menstruação. Durante estes dois momentos do ciclo, certos parâmetros psicológicos e sentimentos podem variar bastante: oscilações de humor, depressão, dor, irritabilidade, solidão, auto-estima, entre outros.

Petscher concluiu que, durante estas fases, nas quais as mudanças de ânimo são mais proeminentes, a incidência de lesões seria maior. Analisando o dia a dia esportivo de diversas universitárias, ele percebeu que a instabilidade emocional poderia prejudicar a performance atlética, e o estresse causado pelas variações de humor afetaria a habilidade de concentração no momento do exercício físico.

Poli x Fea

Por Luisa Zucchi

Outra importante pesquisa sobre o tema foi feita por Sandra J. Shultz e Bruce D. Beynnon, da University of North Carolina e University of Vermont, respectivamente. Em seu trabalho, eles estudam a ocorrência de lesões no ligamento cruzado anterior do joelho – um dos quatro principais do joelho humano, é muito suscetível a contusões, principalmente na prática esportiva.

De acordo com os estudos de Shultz e Beynnon, os fatores de risco para este tipo de machucado podem ser externos e internos. Eles dedicam a pesquisa a um fator interno específico: o ciclo menstrual. Para eles, o risco de uma lesão no ligamento cruzado anterior não é constante durante o período do ciclo; ele seria maior durante a fase pré-ovulatória, ou seja, durante a menstruação e a fase folicular. Uma conclusão que concorda apenas parcialmente com a tese de Yaacov Petscher.

Conversando com a Revista BEAT, a ginecologista Paula Gherpelli comentou sobre o assunto e as conclusões das pesquisas. Para ela, não existe uma regra fixa nem fases específicas em que as atletas se sentem melhor para treinar. “Varia muito de pessoa para pessoa”, conta ela, “e cada uma tem seu momento ideal, quando se sente mais disposta para praticar exercícios físicos”, completa.

Ela acrescenta que esse momento de maior disposição acontece para muitas mulheres logo após o término da menstruação, mas reitera que não existe um padrão e é comum que atletas sintam seu melhor momento esportivo em outras fases.

Por exemplo, na tensão pré-menstrual. Um período que é sinônimo de dores no corpo e desconforto para muitas atletas, ele não é necessariamente negativo para o treino. Segundo Paula, algumas mulheres se sentem extremamente dispostas durante a TPM, treinando com mais garra e vontade. Isso mostra que a influência do ciclo no desempenho esportivo depende de muitos fatores e não é possível estabelecer um padrão.

Já para Lara Briden, autora do blog Lara Briden’s Healthy Hormone Blog, o processo do ciclo menstrual é algo natural e benéfico ao organismo das mulheres. Em seu blog, ela diz que o processo do ciclo no organismo estimula a produção de progesterona em uma quantidade suficiente para garantir a manutenção de um metabolismo saudável. Esse hormônio proporcionaria uma boa noite de sono, serenidade, disposição e bem-estar.

Lara defende também que a tensão pré-menstrual não é, necessariamente, um período de irritabilidade e desconforto. Com quantidades equilibradas de hormônios, seria possível atravessar a TPM sem grandes problemas. Ela reitera a importância da progesterona explicando que, geralmente, os incômodos acontecem porque a quantidade desse hormônio diminui muito rápido nessa fase.

Constantes pesquisas e discussões sobre o assunto são importantes para ajudar atletas e técnicos a entenderem melhor a interação entre o ciclo menstrual e as práticas esportivas, já que este é um tema pouco explorado e debatido e ainda divide especialistas. Yaacov Petsche alerta para a necessidade dos esportistas, com a ajuda de seus treinadores, desenvolverem auto confiança, concentração e segurança para minimizar uma possível influência das alterações psicológicas no rendimento individual.

Por outro lado, Lara Briden sustenta que em em alguns casos específicos é necessário aumentar a produção de progesterona por meio de tratamentos naturais. A certeza é que esta é uma questão que precisa ser discutida e conversada entre atletas, técnicos e médicos, para que cada vez mais entendamos melhor o organismo humano, e assim, possamos aperfeiçoar a prática esportiva.

 

 

Crédito foto de capa: Luisa Zucchi

Texto produzido por:
Logo Jota ad

Posts Relacionados

Comentários fechados