Da ginástica ao Ultimate Frisbee – Uma vida no esporte

por • 21 de agosto de 2015 • Handebol, Individuais, MAIS CATEGORIAS, PerfilComentários (0)869

Por Vinicius Sayão | Jornalismo Júnior

 

Eliane Gillieron Assis não costuma ser chamada assim. O nome que ficou conhecido por anos entre os principais do esporte da USP é, na verdade, seu apelido: Lica.

Nascida e crescida em São Paulo, foi na capital paulista que, ainda criança, deu seus primeiros passos no esporte. Com apenas 3 anos de idade, entrou na ginástica olímpica e praticou até os 11. Não bastassem os treinos, correr no Parque Ibirapuera também fazia parte de sua rotina. Desde cedo enfrentou algumas dificuldades da vida de atleta, a principal era as lesões, devido ao ritmo intenso de treinamentos. Ao final da carreira como ginasta, Lica teve ruptura total em 4 tendões da perna. Isso somado às inúmeras lesões de pés, mãos e virilha que sofria no esporte, teve que largar a modalidade.

Após ficar sem andar por três meses, consequência drástica dos rompimentos dos tendões, Lica passou por um trabalho de fortalecimento muscular e em seguida retomou suas corridas no Ibirapuera, cada vez mais engajada no atletismo de rua. Não havia treinador, e sim, parceiros de corrida que a ajudavam, davam dicas e corriam junto. Durante essa fase, também começou a praticar handebol pelo clube paulistano Hebraica. Todo esse currículo esportivo garantiu que Lica, ao entrar na USP, já fosse uma atleta bem preparada.

Lica ingressou no curso de Farmácia da USP em 2000 e se formou em julho de 2007. Sua demora para a conclusão da graduação não se explica por DP’s ou recuperações, mas sim pelo intenso envolvimento com o esporte universitário. Como o curso é integral, conciliar estudos, esportes e trabalho exige que algumas disciplinas sejam transferidas para o período noturno, o que nem sempre é possível. No fim das contas, para não deixar o esporte de lado, Lica acabava cursando praticamente metade do semestre por vez.

“Geralmente, eu chegava atrasada na primeira aula. Chegava do trabalho, ia treinar e depois ia para aula. Ficava o máximo possível para pegar o conteúdo mais importante e depois voltava ao CEPE para treinar. Ficava até a hora que fechava”. A rotina puxada, no entanto, não atrapalhava a alimentação, a qual ela descreve como café da manhã antes do trabalho, almoço bem completo, algumas frutas no período da tarde e janta em casa após o último treino.

Logo de cara, no seu primeiro ano, participou do BichUSP. Além de handebol e atletismo – os quais já eram praticava -, Lica foi goleira no futsal e se arriscou no voleibol. Entretanto, no vôlei, Lica não obteve tanto sucesso pois, segundo ela, “eu só sabia fazer o saque”.

Apesar de tantos esportes, a expectativa no ano de bixete estava mesmo no atletismo. Chegou o momento de seu primeiro InterUSP e era esperado que ela não só ganhasse o ouro pela Farma, mas também batesse o recorde das modalidades 400m e 1500m. Porém, devido a um trágico motivo, a morte de um de seus veteranos, Lica, juntamente à equipe da Farma, abandonou o campeonato e postergou a desejada vitória.

Dois anos depois, em 2003, no mesmo InterUSP, o recorde dos 1500m foi finalmente batido. “Foi uma prova muito forte. Depois disso nunca mais fiz um tempo menor’’, diz Lica. Uma prova exaustiva que terminou com um desmaio ao cruzar a linha de chegada, fato que rendeu uma história engraçada: como Lica não acordava, alguém ameaçou jogar um balde de água fria. Eis que ela ressurge implorando para que não fizessem isso, pois iria ‘’estragar a minha chapinha’’.

Devido a um problema no fígado, descoberto apenas na faculdade, Lica teve que abandonar seu amado handebol, assim ocmo qualquer outro esporte de contato. Ela contraiu uma cirrose hepática, graças ao excesso de medicamentos anti-inflamatórios usado na época em que praticava ginástica olímpica. Não foi por escolha dela ou dos pais, o médico era quem aconselhava e receitava a utilização dos remédios. A cirrose hepática fez com que o baço inchasse, portanto, os esportes de contato implicariam grande risco de impacto  no local afetado. Dessa forma, o foco no atletismo se tornou cada vez maior.

No entanto, a saudade do handebol e a paixão por ele fizeram com que Lica jogasse tudo para o alto. Confiando em seus conhecimentos de anatomia, estudados no curso de Farmácia, ela retomou a prática do esporte. Voltou ao time de Hand da Farma e tamanha era a vontade de jogar que chegou até a se matricular na disciplina “Handebol” na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE). A intenção era disputar campeonato do esporte na EEFE.

Resultado de seu esforço, seu desempenho e seus recordes batidos, Lica ganhou o prêmio de Atleta do Ano da USP. O ano, porém, ela não se lembra qual, mas se recorda da felicidade ao receber o troféu, que vê como um reconhecimento da LAAUSP pela sua vida de atleta. Nessa oportunidade, foi convidada também a fazer o juramento do atleta na abertura de uma competição oficial, algo que ela fez tremendo e com olhos marejados, do começo ao fim.

A vida universitária de Lica, como ela mesma resume, foi “50% esporte e 50% estudos. Depois, 40% estudos, 10% trabalho e o esporte ainda com 50%”.

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Lica à direita no treino de Ultimate Frisbee / Fonte: Arquivo pessoal

A vida esportiva da farmacêutica continuou ativa mesmo com o fim o da graduação. Seu amigo e ex-treinador, Raoni, costumava jogar Ultimate Frisbee dentro da USP. Lica via os jogos enquanto treinava atletismo, sem muito interesse em participar, apesar dos convites do amigo.

O Ultimate Frisbee é um esporte coletivo que consiste em passar o disco para um companheiro na área adversária, marcando pontos, mas tem uma regra interessante: não possui juiz. Os jogadores decidem se foi ou não falta e, em caso de discordância, o lance volta do ponto em que parou antes da marcação. Esse aspecto do jogo parte do príncipio de que nenhum jogador vai mentir sobre a falta para levar vantagem. Ao final da partida, os adversários avaliam cada equipe e seus jogadores no chamado ‘’espírito de jogo’’, que nada mais é do que FairPlay somado ao conhecimento individual das regras e se o jogador as aplicou bem durante o jogo.

Um dos convites feito por Raoni foi para assistir ao Mundialito de Ultimate Frisbee de praia, em dezembro de 2005, no Guarujá. Lica resolveu aceitar. Ela vivia uma época triste e não apenas competiu no Mundialito, como foi vice-artilheira do campeonato.

A atleta se engajou bastante no Ultimate Frisbee. Participou de três mundiais (um em Praga e dois na Itália) e dois pan-americanos. Já foi considerada a melhor jogadora do Brasil, até chegou a pagar um curso funcional online para aprender mais sobre treinamentos, fundamentos e prevenção de lesões. Hoje, ela é treinadora informal de uma equipe feminina de Ultimate Frisbee. Informal porque não é um trabalho remunerado, mas “não que não me dê trabalho”, como diz. Gosta muito do que faz e concilia bem com seu trabalho de monitora de pesquisa clínica.

 

 

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