Periodizar para Vencer

por • 22 de junho de 2015 • Basquetebol, Cartola, Futebol de campo, Futsal, Handebol, Individuais, VôleiComentários (0)1346

Por Dimítria Coutinho e Rafael Bezerra | Jornalismo Júnior

 

Mais do que disputar campeonatos e almejar conquistas, a carreira de um atleta também exige muita dedicação e entrega nos treinamentos. E não adianta essa entrega vir só do atleta, é necessário um planejamento prévio, que vem do treinador. É ele que programa os treinos de acordo com o tempo disponível para determinada competição. Nessa programação, o tempo é dividido em fases específicas, cada uma com uma função, pensando em atingir os objetivos dos atletas e melhorar suas performances. Essa divisão é chamada de periodização de treinamento.

Ainda que seja um assunto considerado inexplorado no âmbito esportivo, a periodização de treinamentos é amplamente difundida dentro de quadras e campos, sendo um verdadeiro trunfo para técnicos em várias modalidades. Ela consiste em criar um sistema de planos para distintos períodos, que perseguem objetivos vinculados. Isso significa que, quando a competição alvo chegar, os atletas já terão passados por todas as fases e, portanto, estarão no chamado estado ótimo, no qual eles se encontram aptos a competir e obter sucesso. Mais do que um preparo físico, a periodização compõe um importante trabalho científico, trabalhando em adquirir resultados a longo, médio e até curto prazo para o atleta e, em um plano geral, para a equipe.

Esse tipo de planejamento não está presente somente no campo dos atletas profissionais e de alto nível. Muito pelo contrário. Os atletas universitários também tem seus treinos periodizados, pensando nas competições e no tempo disponível para treino. Segundo Bruno Guidorizzi, técnico do time de basquete feminino da Física USP, da base dos times masculinos de São Bernardo do Campo e técnico assistente da seleção brasileira de basquete sub-19 feminina, a periodização é importante para todo tipo de atleta. Ou seja, não importa se o time é de base, universitário ou profissional, a periodização tem que estar presente levando em conta  o tempo disponível e as necessidades de cada atleta. “O mistério é respeitar as fases de cada um, de cada atleta. Por exemplo, se é um adulto, se é uma criança, se é um adolescente, e a necessidade de cada um, ou seja, o estado de treino ”, explica Bruno.

As maiores diferenças entre o profissional e o amador se dão porque, geralmente, os atletas de alto nível tem mais tempo de treino do que os atletas de base ou universitários. O técnico conta que a periodização no esporte universitário geralmente é anual ou semestral, acompanhando tanto os campeonatos quanto o calendário escolar. E, da mesma forma, é assim que estão programados os períodos de recuperação, acompanhando as férias universitárias. Nesse aspecto, o esporte universitário e o de base se assemelham muito, afinal, ambos tem como equipe estudantes que seguem um calendário escolar.

No esporte universitário, além das pausas semestrais durante as férias, Bruno conta que há pausas após cada semana, quando encerram-se os chamados microciclos. “Ás vezes acontece do time ter 3 jogos no final de semana e treino na segunda; aí você tira esse treino da segunda e muda pra terça. Você tem que dosar”.

Sobre a importância do período de recuperação, o técnico do time de Futsal da Poli, Renan Santiago Estriga, reforça o papel fundamental das férias. Mais do que um “descanso” psicológico para a rotina de estudos, o desgaste físico também é evidente, devido aos torneios e treinos. E o recesso é, para a equipe, fundamental como “período de recuperação”.

“Acredito que, na grande maioria das equipes, as férias da faculdade sejam os períodos de recuperação. Durante o período de competição, sempre há conteúdo para ser desenvolvido. Portanto, é preciso treinar. Logicamente, existem períodos pré-jogos importantes em que há diminuição no volume de carga de treino, visando que o atleta chegue em plenas condições para o jogo”, conta Renan.

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Treinamento dos atletas do Internacional. A periodização é importante tanto para os atletas de alto nível quanto para os não profissionais. (Foto: Alexandre Alliatti / Globoesporte.com)

 

As dificuldades do esporte universitário

Para Bruno, a periodização adotada no esporte universitário geralmente é mais contemporânea e menos clássica, dando toda a base no começo do ano, para que ela se sustente durante o restante da competição. “A gente monta sempre [a periodização] com dois picos para atingir o máximo no final do ano, quando acontecem as finais, e no final do primeiro semestre, porque depois você vai ter uma parada mesmo”, diz. O técnico friza também que todos os jogos são importantes, mas que cada time tem um objetivo distinto que faz com que seu jogo importante possa ser ou não no fim do semestre, afinal não adianta treinar só para as finais, por exemplo, se o time não tiver condições de chegar até lá.

Guidorizzi conta que as maiores dificuldades encontradas no momento de fazer o planejamento para uma equipe universitária estão no fato de o esporte não ser a ocupação principal dos atletas, restringindo a quantidade e a duração dos treinos. Além disso, os atletas universitários treinam, muitas vezes, mais de uma modalidade. O problema acontece quando essas modalidades são de características metabólicas e fisiológicas diferentes ou seja, concorrentes. “Alguém que faz provas longas de natação, e vai jogar basquete ou futsal, por exemplo; são características metabólicas e fisiológicas completamente diferentes e concorrentes. Então essa é uma das dificuldades”, esclarece o técnico. O fato dessas características serem concorrentes prejudica na periodização no que diz respeito à preparação física.

Essa é, inclusive, outra dificuldade encontrada no esporte universitário, em relação aos demais. Como os atletas estudantes têm pouco tempo disponível para treinar, fica difícil trabalhar a questão da preparação física separadamente do treino tático. No momento de realizar a periodização, não sobra tempo para inserir atividades exclusivas de força e preparação física, como ir à academia e ter sessões com carga. Esse tipo de atividade acaba sendo realizada dentro do próprio treino, mas o resultado não é o mesmo. “É lógico que dá para você treinar força sem estar na academia, mas é mais complicado porque a necessidade técnica-tática delas (as atletas) acaba sendo maior do que a física”, diz Bruno.

Quanto à entrada e saída de atletas todos os anos nos times universitários, devido ao ingresso de novos alunos e ao fim da graduação para outros, Guidorizzi explica que isso não se torna um entrave, afinal é bem comum em qualquer nível de esporte. No caso dos atletas de alto nível, por exemplo, contratos são assinados e encerrados sempre, então isso faz parte do esporte como um todo. Mas o técnico diz que, se uma equipe consegue manter os mesmos atletas por um período maior de tempo, as vantagens são claras: “É óbvio que as equipes que conseguem manter uma base de atletas por mais tempo levam uma vantagem porque, principalmente na parte tática, questão de entrosamento, eles já sabem. Mas na questão da periodização não muda nada, o fato de que ela precisa ser feita novamente, após o final de um ciclo”.

Mas nem todos os técnicos pensam com a naturalidade de Bruno. Lidar com eventuais perdas de atletas é, muitas vezes, uma dor de cabeça para o treinador e todo o seu planejamento. Afinal, isso influencia na maneira como é feita a periodização? Para Renan, a perda de atletas entra, sim, na conta na hora de pensar na periodização. Ele explica, “Em todo o começo de ano ou semestre, é preciso avaliar quais comportamentos ficaram sedimentados e o que precisa ser reforçado. Não existe um padrão, já que as equipes universitárias são bem heterogêneas no que diz respeito à experiência técnica/tática/física dos atletas, portanto, é necessário saber qual será o ponto de partida do novo ciclo que se inicia. Além disso, um time que se mantém sem perdas significativas de atletas pode progredir e alcançar maiores níveis de desempenho. Já quando uma equipe se renova, quem entra precisa de informações que quem está no time há mais tempo já recebeu e praticou. Acredito também que feedback individualizado ajuda bastante, pois o atleta experiente não fica estagnado e o mais novo se desenvolve. Algumas questões têm que ser tratadas sob uma perspectiva individual”.

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Treino de Arthur Zanetti. O ginasta conta a importância da periodização no treinamento : “Nós sempre trabalhamos para chegar na competição objetivo do ano na melhor fase”. (Foto:Fernando Donasci / O Globo)

A importância de periodizar

Mesmo para essa multiplicidade de modalidades e níveis diferentes entre seus praticantes, a periodização apresenta sua importância e valor. É o que afirma o técnico de Futsal da Poli. Como já era atleta da modalidade na EEFE, Renan tem bagagem para falar do assunto. “Em qualquer que seja a modalidade e o nível dos praticantes, a periodização se faz fundamental, já que, sem organização e planejamento, fica muito difícil alcançar objetivos, já que estes não estão traçados e sustentados por uma metodologia ou sequência pedagógica de treinos”, afirma o treinador, que procura enaltecer a importância deste planejamento para o esporte universitário como um todo.

Planejamento esse que, por sua vez, é palavra chave numa equipe universitária: com a quantidade de torneios e campeonatos disputados ao longo do ano, é praticamente impossível que a equipe consiga êxito sem um planejamento adequado. “Essa resposta [como conciliar o planejamento] varia bastante em função da equipe e quais objetivos ela traçou”, afirma Renan, “mas, pensando nas atléticas que disputam tanto os títulos dos inters quanto dos títulos dos campeonatos semestrais (NDU, FUPE, Copa USP etc), acredito que o período pré-inter serve para que a equipe prepare-se para todas as adversidades, já que o início acaba coincidindo com o início dos playoffs em São Paulo. Ou seja, chega uma determinada época do semestre que, para ser campeão dos torneios, você não pode mais perder nenhum jogo. E, quando essa hora chega, o grupo deve estar em seu auge de desempenho. Pela minha experiência com o esporte universitário, acredito que são poucos os times que tem maturidade para lidar com o período pós-inter, na minha opinião ocorre um tipo de desmotivação por parte dos atletas, e isso interfere diretamente no processo de treino e consequentemente, nos resultados. Quem tiver uma mentalidade mais competitiva, irá se manter com melhor desempenho por mais tempo, e terá mais chances de ser campeão”, finaliza o treinador. Mais do que o preparo, a competitividade também está fortemente vinculada à rotina de treinamentos.

 

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