Ninguém morre de véspera

por • 10 de março de 2015 • Saúde & AlimentaçãoComentários (0)642

Por Guilherme Caetano | Jornalismo Júnior

 

Muitas vezes, quando as pessoas começam novas atividades físicas, pensam primeiramente em sua disponibilidade para a nova rotina, nos equipamentos que vão precisar e até nas consequências positivas do exercício. Infelizmente, poucas vezes nas negativas. Vários ferimentos, lesões e até acidentes graves podem ser causados pela imprudência ou falta de acompanhamento no esporte, seja em treinos ou competições. Afinal, para praticar qualquer exercício, é preciso estar apto para suportar seu esforço físico.

O acompanhamento médico não é apenas recomendável para pessoas sedentárias, com pouca experiência esportiva ou praticantes mais idosos. Todo atleta, amador ou profissional, e qualquer um que inicie uma nova atividade precisa de um aval médico. Ainda que a cobrança desse tipo de liberação seja muito pouco feita em clubes, escolas, universidades e outros centros esportivos, a apresentação de exame médico é de extrema importância.

Mesmo com chances reais de um ataque cardíaco, atitudes de prevenção são tidas como raras. Segundo Nabil Ghorayeb, doutor em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP e diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia, somente 2% a 5% das pessoas fazem a avaliação especializada antes de iniciar a atividade esportiva.

Mais vital ainda que um simples atestado médico é o eletrocardiograma, exame que constatará a atividade elétrica do coração. Sem ele, é difícil saber se alguém está exposto a um sério risco de morte súbita durante a prática física. Obviamente, há pessoas com maior ou menor tendência a paradas cardíacas ou outros problemas no coração, mas comumente não se pode saber de antemão o perigo de um ataque iminente sem um exame médico aprofundado.

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Fonte: Latinstock

Até mesmo na USP, com sua atividade esportiva incessante, o desconhecimento quanto a importância do eletrocardiograma ainda é presente. A obrigatoriedade na apresentação do documento não é visto nem em Associações Atléticas, nem no Centro de Práticas Esportivas da universidade.

Victor Passeri, técnico do futsal feminino do FOFITO, Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP, explica que, apesar de ser extremamente essencial para a prática de qualquer atividade física, a execução de exames prévios não é costume no esporte universitário. Passeri difere as estruturas das universidades com as de clubes profissionais, onde há departamentos especializados em fisiologia do exercício para relatar os obstáculos. “Como no esporte universitário brasileiro cada equipe sobrevive independente, às vezes até de sua Atlética, estas questões acabam ficando por conta de cada atleta, que realiza o exame se achar conveniente”, conta o treinador. “É uma discussão muito mais abrangente que não envolve somente o papel do treinador, mas toda a estrutura do esporte no nosso país”.

Passeri acredita ainda que a falta de hábito em cobrar o exame médico é também causado pelo fato de as próprias Ligas Universitárias não o fazerem. “Talvez uma alternativa interessante fosse as Ligas passarem a cobrar juntamente com a inscrição de cada atleta um atestado médico”, sugere.

Rubens Mandel, treinador da equipe feminina de handebol da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), por sua vez, acredita que se obrigasse a apresentação de atestado médico para a prática esportiva, não haveria ninguém no time. “Apenas o exame não é suficiente. Seria necessário um acompanhamento, algo inviável devido à estrutura precária que temos no esporte universitário”, afirma Rubão, como é conhecido.

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Fonte: Getty Images

Para se ter noção do quão recente e fundamental é a discussão, é só abrir as páginas dos jornais. No dia 6 de março, faleceu uma das promessas do basquete argentino, o atleta Santiago Gillard, de apenas 14 anos. O garoto não resistiu a duas paradas cardíacas durante o  treinamento de sua equipe. Semanas atrás, em 21 de fevereiro, a biatleta russa Alina Yakimkina morreu em decorrência de um ataque cardíaco ocorrido durante uma competição na qual participava. Alina tinha 21 anos. Para não faltar exemplos, também no mês passado, o futebolista Everton Costa, do Vasco da Gama, encerrou sua carreira de jogador profissional aos 28 anos em razão de problemas cardíacos.

Segundo o site Portal Brasil, vinculado ao governo federal, doenças ligadas ao coração são responsáveis por aproximadamente 30% de todas as mortes registradas no país em um ano. Traduzindo em números, mais de 300 mil pessoas falecem nesse período principalmente de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Dados como esses só fazem tornar ainda mais essencial o papel dos especialistas do esporte e dos centros esportivos na vida do atleta. “Seria interessante os treinadores passarem a cobrar isso de seus atletas, até porque estes estão sob responsabilidade do profissional da Educação Física devidamente credenciado no local”, opina Victor. O eletrocardiograma nos surpreende tanto pela tamanha negligência com que é tratado quanto pela facilidade em se  realizá-lo. O exame é simples, indolor e geralmente muito rápido, basta procurar por um cardiologista. É uma vida que pode ser salva em uma única consulta. Afinal, como dizem, “ninguém morre de véspera”.

 

Fonte foto de capa: Pieranunzi Luciano

Texto produzido por:

Jornalismo Júnior ECA-USP

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