De Cássia à Escócia

por • 16 de janeiro de 2015 • Individuais, MAIS CATEGORIAS, PerfilComentários (0)868

Por Guilherme Caetano |  Jornalismo Júnior

 

Jackson é daquelas pessoas que parecem viver por única razão, sem a qual sua história não teria sentido algum. De uma infância humilde em Cássia, no interior de Minas Gerais, Jackson hoje está finalizando o curso de Educação Física e Saúde na USP Leste, após ter largado emprego, família e amigos e se mudado para São Paulo para recomeçar a vida. Sua trajetória na arte marcial é ainda mais admirável. O atleta, junto com seus companheiros de equipe, alcançou o 3º lugar em kata equipe no Mundial de Karatê na Escócia em 2011, quinze anos depois de ter passado por condições precárias para poder treinar, chegando a vender pastéis na rua para pagar os custos com as aulas.

Jackson e sua equipe no Mundial de Karatê na Escócia, em 2011, quando alcançaram o 3º lugar (Crédito: arquivo pessoal)

Jackson e sua equipe no Mundial de Karatê na Escócia, em 2011, quando alcançaram o 3º lugar (Crédito: arquivo pessoal)

Como teve início a sua história no karatê?

Comecei no karatê aos 11 anos, em Cássia, interior de Minas. Inicialmente, eu queria praticar kung fu por causa dos filmes do Bruce Lee, que me encantavam. Como só havia cursos de karatê e capoeira na cidade, optei pelo karatê.

Ao começar o curso, meus pais fizeram com que eu trabalhasse para arcar com os custos dos treinos. Acabei tendo que me virar e trabalhei de entregador de jornal, vendedor de salgados na rua e auxiliar em uma lanchonete. O dinheiro era usado para pagar a mensalidade, comprar vestuários, pagar exames de troca de faixa e competições etc. Em alguns momentos era preciso ajuda dos meus pais, porque não conseguia arcar com os gastos. Minha mãe me desestimulava muito em razão disso, sempre salientando que o karatê não me daria futuro.

Após alguns anos, o meu primeiro professor deixou de dar aula e os treinos de karatê na cidade pararam. Tentei dar continuidade ao curso, contando com a ajuda dos praticantes para pagar o aluguel do galpão que usávamos. Não durou muito. Menos de um ano depois, não havia dinheiro para renovar o contrato do imóvel.

Naquela época de dificuldades, no entanto, aconteceu um dos momentos mais marcantes da minha trajetória. Foi em um sábado de 1999, enquanto eu trabalhava na lanchonete. O sensei Serginho, que havia sido meu primeiro professsor de karatê, foi comer um lanche e começamos a conversar. Fiquei sabendo que no dia seguinte, às 8 horas, haveria em Franca um curso de karatê ministrado por um karateca japonês. Terminei meu expediente na lanchonete por volta das 5 horas da manhã e passei em casa para pegar o kimono e avisar meus pais que eu iria até Franca para fazer o curso, que começaria dali a três horas.

Chegando no local me senti meio deslocado, não conhecia ninguém, mas logo me identifiquei com o sensei Fumio, que ministrava o curso. E a empatia foi mútua, felizmente. Pude sentir isso melhor quando ouvi outro professor pedindo ao sensei Fumio que desse mais atenção aos outros alunos, já que eu não fazia parte do grupo dele. Sensei, entretanto, continuou me dando atenção. Ao fim do curso, ele me chamou para tirar uma foto, já que eu era o único que não tinha condições de pagar pelas fotos do fotógrafo profissional que ali trabalhava. Até hoje guardo essa foto.

Voltei para Cássia e, infelizmente, não consegui mais fazer contato com ele. Somente após três anos encontrei o endereço de sua academia em São Paulo, ao folhear uma revista de artes marciais numa banca de jornal. Entrei em contato e marquei uma ida até São Paulo. O sensei Fumio me deixou ficar na academia o quanto quisesse, e assim o fiz durante uma semana a cada dois meses. Foram momentos de muita aprendizagem treinando ao lado dele.

E depois disso?

Logo comecei a dar aulas de karatê em Cássia, e em 2005 meus alunos fizeram rifas para me ajudar a custear o exame de faixa preta, que é muito caro. Naquele dia, o instrutor chefe no Brasil me disse que eu não era forte o suficiente para ser um faixa preta e que não havia necessidade de fazer o exame já que eu seria reprovado, mas sensei Fumio foi o que mais me apoiou. Apesar do constrangimento na frente de todos os meus alunos, consegui um bom desempenho e fui anunciado como faixa preta. Foi inesquecível. No ano seguinte, sensei Fumio, a pessoa que mais acreditou em mim desde sempre, veio a falecer, e assim dei continuidade aos treinos com sua esposa, sensei Lúcia, com quem pratico até hoje.

Quando você sentiu que o karatê já fazia parte da sua vida?

A partir do momento em que entrei para a USP com intenção de seguir outras áreas, porém percebi que todos os meus estudos giravam em torno do karatê, como a Iniciação Científica e a as aulas de karatê na faculdade.

Em 2011, você foi convocado para o Mundial de Karatê na Escócia. Como foi o seu desempenho e da sua equipe? Qual foi o sentimento de poder disputar com os melhores do mundo?

No Mundial, eu e meus companheiros obtivemos o 3º lugar em kata equipe. Momento muito gratificante por chegar a um nível de habilidade tão alto. Às vezes, vejo como se todo o meu caminho tivesse me levado a isso, além das contribuições das pessoas que encontrei no decorrer dessa trajetória, tanto dos professores, como dos familiares e amigos.

Como conseguiu conciliar o karatê com a vida universitária? Hoje em dia, você ainda dá aulas?

Essa foi uma das minhas dificuldades, apesar de ter me destacado em algumas competições em 2011, como o Campeonato Brasileiro e Mundial de Karatê. O fato de estar em constante treinamento e fazer várias viagens interferiu negativamente em minhas notas, ocasionando algumas dependências. É difícil estudar em uma universidade como a USP e realizar treinamento em alto nível. Atualmente continuo como professor de karatê na USP Leste.

 

 

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