Da selva de pedras ao azul do mar

por • 29 de janeiro de 2015 • Individuais, MAIS CATEGORIAS, PerfilComentários (0)954

Por Carolina Oliveira | Jornalismo Júnior

 

Pode-se pensar que São Paulo – a selva de pedra – e o surf, um esporte cujo instrumento principal é o mar e as belas paisagens do litoral, não têm nada em comum. Contudo, o surfista André Oliveira, estudante da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE/USP) é uma figura que desmistifica esse paradigma.

André a direita -  Festa Oficial do 16º Paulista Universitário de Surf (Crédito: IbraSurf)

André à direita – Festa Oficial do 16º Paulista Universitário de Surf (Crédito: IbraSurf)

Um dos três representantes da USP no Festival Brasileiro Universitário de Surf (o mais importante circuito universitário da modalidade), André, 21, nascido e criado na capital paulista, conta que, devido à distância da praia, começou a surfar apenas há um ano e meio. “Sou de uma família de classe média que sempre viveu bem, mas não tem casa na praia e só sai para viajar uma vez por ano”, diz. “Então, nunca tive a oportunidade de ter uma prancha de surf ou ir pra praia constantemente para aprender e me envolver”. Ainda assim, ele afirma que sempre teve vontade de surfar.

O desejo surgiu aos 11 anos, ao ver um primo tendo aulas de Surf, enquanto André só assistia da areia. “Aquilo me deixou com muita vontade”, conta. “Comprei minha primeira revista de surf, mesmo sem entender nada, e insisti para que meus pais comprassem uma prancha pra mim, o que não aconteceu”.

Acabou se envolvendo com outros esportes antes de começar sua vida no surf. Na adolescência, praticou futebol de campo e futebol americano (modalidade flag). Aos 18 anos, ele conta que parou de treinar para se dedicar ao vestibular. “Decidi que iria cursar EEFE  para me tornar treinador de futebol americano”, lembra. Foi nessa mesma época que uma outra paixão entrou em sua vida: o skate. Ele começou a praticar com alguns amigos que haviam feito uma surftrip no Peru, e, ao mesmo tempo, passou a trabalhar com edição de vídeos, o que lhe rendeu algum dinheiro extra. Foi aí que resolveu trazer de volta o sonho do surf. “Sendo amante da natureza, curtindo andar de skate e com minha grana, vi que aquela vontade de infância podia finalmente se concretizar”. Então, André comprou sua primeira prancha e passou a bancar o “bate-volta” para ir surfar na praia. “No começo, foi puro perrengue”, lembra ele.

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Crédito: Alexandre Iponema Gallucci

Hoje, o paulistano afirma que seu desempenho vem avançando. “Meu surf está começando a passar de um nível iniciante pra intermediário”. Devido ao pouco tempo, ele participou de um único campeonato até agora, o Festival Brasileiro Universitário de Surf, realizado em duas etapas pela Ibrasurf (Instituto Brasileiro de Surf). Ele diz que a experiência foi muito enriquecedora. “No final acabei desfrutando de toda a estrutura que o evento oferece para atletas, além de ter surfado duas baterias com só mais 3 caras na água”.

Para 2015, André pretende conhecer novos pontos do litoral brasileiro, além de melhorar seu desempenho no mar. “Quero disputar algum campeonato, porém dessa vez verdadeiramente de forma competitiva (risos)”. Ele está em seu quarto ano na EEFE, e assim como qualquer atleta universitário, precisa conciliar os estudos e a prática esportiva. Por isso, seus treinos na água ocorrem apenas aos fins de semana, quando consegue ir à praia. “Quando não é véspera de provas, vou pro Guarujá pra bate-volta ou pra algum lugar no litoral norte”. Já durante a semana em São Paulo, longe do mar, ele se empenha em treinos físicos e coordenativos, além de usar o skate como auxiliar do surf. “Como gosto de andar de skate, acabo usando o carrinho pra simular algumas manobras”, conta.

O surfista diz não se considerar um atleta. “A palavra me remete ao profissional ou alguém que busca desempenhar o esporte no máximo do seu rendimento. No surf as coisas são mais tranquilas em relação à isso”, afirma. “A grande maioria dos praticantes não compete e só busca se divertir dentro da água, além de evoluir pessoalmente, o que é uma característica forte dos esportes individuais”.

 

O surf no esporte universitário e profissional

No meio universitário, o surf não é dos esportes mais reconhecidos e praticados, até mesmo pela dificuldade em treinar. Na última edição do Festival Brasileiro Universitário de Surf, sem contar o próprio André, a USP teve apenas mais dois representantes. André afirma que, por conta desse distanciamento, além do fato de o surf ser um esporte naturalmente individual, a relação com as atléticas e com a LAAUSP é pequena. “Não acho que algum surfista dentro da USP já pensou em conversar com a sua atlética e fechar uma parceria para disputar campeonatos”. Contudo, dentro das limitações, ele diz encarar a estrutura do surf universitário paulista com bons olhos. “Muitos campeonatos de surf têm sido promovidos entre as faculdades, além do circuito universitário da Ibrasurf”, elogia.

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André ao centro no 17º Curso de Formação e Atualização de Instrutores de SURF e SUP (Crédito: IbraSurf)

Sobre o esporte universitário no geral, André afirma que, apesar de o modelo atual ser o suficiente para a integração entre as unidades e a promoção de competições, não há muito apoio das universidades. “Aqui no Brasil o meu parecer é que, se não for pelos alunos, não existem competições universitárias. O senso de comunidade das reitorias não se estende para o esporte”, lamenta ele.

Indo além da Universidade, o estudante da EEFE vê o surf no Brasil como uma área promissora, mas que ainda esbarra na falta de incentivo à base e na carência de financiamento planejado no esporte. Ele lembra como a surfista Silvana Lima, ex-top do WCT (uma espécie de Campeonato Mundial de Surf), financiou parte de sua temporada através de crowdfounding. “Isso é inimaginável para um atleta do calibre dela”, diz. André também aponta a falta de organização das entidades que controlam o surf no Brasil. “Até nas minhas pesquisas para minha monografia, que será sobre gestão brasileira do surf, faltam informações e dados sobre a atuação das principais entidades, como a CBS (Confederação Brasileira de Surf) e a ABRASP (Associação Brasileira de Surf Profissional)”.

Acerca da vitória do paulista Gabriel Medina no WCT em 2014, ele considera o feito importante para a visibilidade do surf. “A partir do título do Gabriel e o bom desempenho que os brasileiros vão continuar tendo no WCT, com certeza a popularidade do esporte vai crescer, o que é ótimo para o mercado”. Entretanto, reitera que é importante que estes investimentos sejam geridos por administradores capazes de manter o desenvolvimento do esporte. “Do contrário, continuaremos a ter bons resultados no cenário mundial, mas que em nada expressam mudanças no cenário nacional”.

 

 

Crédito foto de capa: Douglas Henrique

 

 

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