Para experts e novatos: como jogam as seleções USP de rugby?

por • 6 de novembro de 2014 • Jogo a Jogo, RugbyComentários (0)2497

Por Matheus Sacramento | Jornalismo Júnior

 

Amado por alguns, ignorado por outros, o rugby é um esporte que cresce muito no Brasil. Quem o desconhece, por vezes entende como violência gratuita. Mas não tem nada a ver com isso! A Revista BEAT entrevistou os técnicos das seleções USP feminina e masculina de rugby para entender melhor como funcionam taticamente seus times. Se você não entende de Rugby, não se desespere! Fizemos um apanhado de como se joga esse esporte logo abaixo. Agora, se você já entende do primo distante do futebol americano, pode pular direto para as análises táticas!

 

O que é esse negócio de Rugby?

O rugby é jogado em um campo retangular de tamanho parecido com o do futebol (144m de comprimento por 70 de largura). Nas duas extremidades do campo, há a zona de pontuação, chamada de in-goal. O objetivo do jogo é carregar a bola nas mãos até o final do campo adversário, o in-goal, e tocá-la no chão, fazendo um try (a pontuação máxima do jogo, que vale 5 pontos). O campo também possui um grande “H” de ferro na linha de ínicio do in-goal.

Campo do Gerogia Tech Rugby  Crédito: Angela Sun

Campo do Gerogia Tech Rugby   –  Crédito: Angela Sun 

Uma das regras mais importantes do jogo de Rugby é a seguinte: nenhum jogador pode fazer um passe para frente usando as mãos. Quando um time possui a bola e está tentando chegar ao in-goal adversário, seus jogadores só podem passar a bola para o lado ou para trás. Por isso, não acontecem ultrapassagens no rugby. Os jogadores de um time estão sempre atrás ou ao lado do companheiro que possui a bola, para dar opção de passe. No entanto, os atletas podem chutar a bola para a direção que quiserem. Pode ser para frente, para trás, para lateral.

Já quando um time não possui a bola, ele tem de defender seu próprio in-goal. E como fazer isso? Na força física! O principal fundamento da defesa no Rugby é o tackle: derrubar o adversário que possui a bola, sempre utilizando os braços. No momento em que um jogador é derrubado, a regra o obriga a soltar a bola, parando o ataque e gerando um ruck.

Mas o que é um ruck? Quando um jogador solta a bola, após ser derrubado, os dois times correm para tentar recuperar a posse. Os atletas mais próximos à bola fazem uma “barreira humana”, que tenta empurrar a “barreira” do outro time para longe. Enquanto os atletas participantes do ruck se empurram, um jogador fica atrás da barreira para pegar a bola, passá-la para trás e dar continuidade ao jogo normalmente.

Crédito: Ken Langley

Bola saindo de um ruck – Crédito: Ken Langley

Em um jogo da modalidade Rugby XV (na qual jogam 15 jogadores de cada time), os rucks são muito comuns. Os tackles acontecem frequentemente e cada time avança em direção ao in-goal adversário lentamente, ganhando território aos poucos.

Já na modalidade Rugby Sevens (apenas sete jogadores em cada time, mas com o mesmo tamanho de campo) o contato e os rucks são menos comuns. Saem jogadas mais rápidas e as equipes alcançam o in-goal adversário com maior velocidade e frequência, porque há mais espaço vazio no campo.


Além do try, há outros três tipos de pontuação: o drop goal, o penalty goal e a conversão. O drop goal é um chute, no meio do jogo aberto, que faz a bola passar dentro da parte de cima do “H”. Vale 3 pontos. O jogador deve deixar a bola quicar uma vez antes de chutá-la, como se fosse um “bate-pronto” do futebol. O penalty goal é um chute de “bola parada”, após uma falta, que também passa por dentro do “H” e vale 3 pontos. Já a conversão é um chute de curta distância que se faz logo após marcar o try. Se for acertado dentro do “H”, vale 2 pontos. No Rugby Sevens não existe a “bola parada”, todos os chutes são feitos de drop kick.


 

O ponta-a-ponta e o paredão da seleção USP feminina

As seleções USP, tanto feminina como masculina, praticam a modalidade Rugby Sevens. Para Raquel Kochhann, treinadora da seleção USP feminina, “no jogo de sevens, todo mundo tem que saber fazer tudo. Todos têm que entrar em ruck, limpar a bola, abrir, passar e correr”. Desde março no comando, Raqueel joga ainda no Charrua Rugby Clube, de Porto Alegre.

As meninas da seleção utilizam um sistema de ataque que busca usar a largura do campo. Jogam bem espaçadas, para abrir a defesa adversária. Dessa forma, há mais zonas vazias no campo, especialmente no jogo de Sevens, ficando mais fácil furar a defesa e conseguir uma grande corrida rumo ao in-goal. Além disso, usar a largura do campo cansa o time rival, que tem de defender um espaço maior. “A gente joga de ponta-a-ponta, sempre batendo perto da linha de 5 [jardas próximas] das duas laterais [do campo]”, disse a treinadora.

ataque feminino

A jogadora da posição “centro” corre mais reto, ataca a linha de defesa e abre espaço para a “ponta” correr por fora. Raquel explicou a estratégia: “É uma corrida [da ponta] em direção à lateral. Mas, chegando perto da linha das 5, tem que pisar para dentro e buscar apoio das meninas, caso ela seja tackleada. A principal característica do Sevens é ser um jogo rápido. A intenção é evitar o contato, fazer a bola chegar rápido nas pontas”. Se a defesa estiver antecipando a ponta, a treinadora recomenda outra jogada específica: “Fingimos o passe e furamos a defesa no espaço em que ela tentou antecipar.”

defesa feminina

Já na defesa, a seleção USP utiliza a estratégia denominada por sua treinadora como “paredão”. As atletas ficam compactadas, todas próximas, formando uma linha reta de seis jogadoras. Atrás dessa linha, uma jogadora fica “fazendo o fundo”, ou seja, cobrindo os possíveis erros da primeira linha. Como essa última menina irá cobrir todo o campo, ela precisa ser rápida. Geralmente é a ponta que faz o fundo.

Na defesa paredão, as meninas pressionam o ataque todas juntas e “desbordam” para os lados, ou seja, acompanham as movimentações laterais do ataque.

 

Seleção USP masculina: a profundidade do ataque

No masculino, a seleção USP funciona de maneira um tanto diferente. No rugby, existem algumas unidades com times muito tradicionais, como FEA, POLI e MED. Esses times jogam o Campeonato Paulista de Rugby XV, inclusive. A seleção, nesse caso, nem sempre consegue convocar jogadores dessas equipes, porque elas disputam grande quantidade de jogos. Atualmente, a seleção USP possui jogadores da Farmácia, da MED, da Física e da FFLCH.

Tendo em vista essa situação, Valter Sugarava, técnico da seleção USP masculina de rugby, decidiu jogar apenas a modalidade de Rugby Sevens. Dessa forma, podem competir de igual para igual com qualquer time. “A Poli é um time de primeira divisão. É díficil dizer isso, mas eu acredito que a seleção USP venceria a Poli [no Sevens]”, afirmou “Japinha”, apelido de Valter, que foi jogador da seleção brasileira de rugby.ataque masculino 1

Taticamente, a seleção USP gosta de atacar com muita profundidade. Seus jogadores velozes e habilidosos têm mais tempo para tomar decisões. Profundidade significa que os atletas não ficam em paralelo com o portador da bola (linha rasa), mas sim em uma diagonal espaçada (linha funda). Ou seja, ficam atrás do portador da bola, como mostra o infográfico abaixo. Além disso, Valter também pede para que os atletas joguem bem abertos, evitando o contato.

defesa masculina

Na defesa, a seleção joga em duas linhas: uma linha rasa de seis jogadores e um atleta no fundo. Há uma variação em quem será o atleta da segunda linha: por vezes é o “half”, por vezes é o “ponta”. Valter explica a variação: “Se a bola vai até a extremidade, o ‘ponta’ está seguindo. Quando a bola vai para o outro lado, em vez desse cara [o ‘ponta’] ficar correndo para lá e para cá, ele entra na primeira linha e o ‘half’ faz o fundo”. O infográfico abaixo explica visualmente o esquema. A primeira linha também “desborda” e acompanha a movimentação do ataque.

Japinha afirmou, ainda, que a seleção USP e os brasileiros, em geral, preferem jogar sem pressão: “Nos meus times, procuramos jogar sem pensar em roubar a bola. Pensamos em território. Acredito que o brasileiro não gosta de jogar sob pressão. Ele não funciona jogando no campo de defesa da mesma forma que no campo de ataque. Eu prefiro até dar a bola para o adversário, pensando em jogar no campo dele”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Crédito foto de capa: Divulgação / Fresno State Rugby Club
Infográficos: Leandro Bernardo / Jornalismo Júnior

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