Cauê Ranzeiro – o esportista de 1001 utilidades

por • 14 de novembro de 2014 • Perfil, VôleiComentários (2)1689

Por Júlia Moura | Jornalismo Júnior

 

Cauê é um estudante da USP que se destaca pela sua multifuncionalidade e dedicação à diversas paixões de sua vida. Vôlei, handebol, antropologia, sociologia, educação física, família, amigos e sua esposa Mariana figuram entre as prioridades deste jovem sorridente de apenas 30 anos. Quando o encontrei para a entrevista, não haviam sinais de ansiedade, nervosismo, pressa ou estresse. Mesmo com três empregos, conversamos longa e calmamente; as únicas pausas foram quando ele cumprimentava brevemente um conhecido no CEPE/USP, o que não foi raro, já que ele é um frequentador assíduo do local.

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Equipe de Vôlei do Bradesco

Além de já ter comandado 16 equipes universitárias de vôlei, dentre elas a Seleção USP feminina, Cauê pratica o esporte há 20 anos e está há dez na Seleção USP. O handebol também esteve sempre presente, mesmo como coadjuvante. Se não bastasse, Cauê ainda cursa o 4º ano de sua segunda graduação, em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP).

Seu primeiro diploma é em esporte, pela Escola de Edução Física e Esporte (EEFE/USP). Mas a FFLCH é sua terceira faculdade. Também  fez dois anos de Gestão de Políticas Públicas na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP), mas não concluiu o curso pela distância do seu trabalho. Hoje, Cauê trabalha como personal trainer, professor de vôlei e basquete em um núcleo de formação Bradesco e treinador de um grupo de corrida e qualidade de vida.

Fora isso tudo, o atarefado esportista ainda arrumou tempo para se casar. Só que o esporte e ele estão tão ligados que, no mesmo dia da festa, foi marcada a final da Copa USP entre FFLCH e a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA/USP). Não bastasse isso, o time já se encontrava seriamente desfalcado, “dois atletas nossos romperam o ligamento do joelho”. Como o campeonato é organizado pela LAAUSP (Liga Atlética Acadêmica da Universidade de São Paulo), a atlética da FFLCH, em conjunto com seus jogadores, interveio a favor da mudança de data, assim que eles se classificaram para a final.

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Se casou em junho desse ano

No entanto, a FEA foi irredutível. Negou qualquer mudança sem maiores explicações. No grupo do facebook da seleção USP de vôlei masculino rolou uma longa discussão e alguns membros do time da FEA se posicionaram de maneira indelicada. “Alguns disseram coisas do tipo ‘se vocês não querem jogar que se danem’”, comenta Cauê. Houve também uma falha interna de comunicação entre os organizadores. Primeiramente não haveria outra data para a final, mas após a marcação e as reclamações, veio a informação sobre a possibilidade de ter marcado o jogo em agosto. Após mais discussões, os membros da LAAUSP admitiram o erro e que “forçaram o time pra marcar no dia”, lembra o jogador. Ele critica a postura de ambas as entidades. “A LAAUSP é falha. Deveria ter mais tempo e flexibilidade para marcar os jogos da reta final do campeonato”.

No dia da final, vieram seis atletas da FFLCH. Eles poderiam ter jogado mas optaram por desistência. Não só por ser um ato político contra o ocorrido, mas por ser um jogo fraco do qual não fazia sentido participar. Cauê até se prontificou a jogar no dia a principio. Se a partida fosse de manhã ele iria jogar e no fim do dia casar. “Mas aí eu vi que não fazia sentido” e desistiu da dupla jornada. A esposa não precisou nem intervir, “ela sabe que eu tenho problemas com vôlei”.

Mas quando o assunto é racismo o sorriso desaparece e o semblante fica preocupado. Cauê já sofreu discriminação racial em diferentes situações. Dentre elas ele cita a que ocorreu em uma festa da FAU. Cauê foi vestido de preto e confundido por um estudante com um segurança. Estava acompanhado de seu amigo branco que também vestia preto e, por sua vez, não foi confudido. “Olhei ao redor e eu era o único negro da festa. Então olhei para os seguranças, dentre dez, oito eram negros”. Outro caso foi no Pinheiros, quando jogava pelo clube. Ele foi proibido de usar o vestiário de sócios, enquanto seus companheiros brancos de time tinham livre acesso.

Além desses casos, Cauê já escutou absurdos como “por os negros jogarem bem deveriam jogar em outra divisão, separados dos brancos”, relatou. Também foi questionado por amigos se realmente existe racismo no Brasil e se ele já havia sofrido racismo, mesmo dentro da USP. Diante disso, ele critica o racismo velado existente na sociedade brasileira e defende as cotas sociais e raciais. Também diz ter orgulho do goleiro Aranha, do Santos. “Finalmente alguém se posicionou da forma como deveria, de modo menos plano, mais profundo”. Dentre suas referencias, também estão sua mãe, enfermeira formada pela USP e Barack Obama, não por ser presidente dos EUA, mas um “homem inteligente de Harvard negro com poder”.

Por ser um atleta de alto nível, Cauê vivenciou dois mundos durante sua infância e adolescência. Morava no segundo bairro mais perigoso de São Paulo, mas estudava em escola privada, onde a maioria ia pra Disney todos os anos e os únicos negros eram ele e as duas irmãs. Além disso, gastava uma hora e meia de ônibus da periferia para treinar todos os dias. Isso se deve pelo fato de acreditar que “o esporte é um meio mais aberto para os negros”. Ele alega querer passar uma imagem melhor dos negros nesses ambientes racistas, “não tem negro inteligente? tá aqui um que passou na USP três vezes”.

Além do Pinheiros, Cauê já jogou no Palmeiras, na Hebraica, no Diadema e no São Paulo, mas ele diz nunca ter jogado num time tão diversificado e respeitoso como o da FFLCH, no qual todos convivem em harmonia. Na seleção USP também há um perfeito entendimento entre os jogadores. “São pessoas diferentes, de faculdades e vivencias diferentes, com níveis sociais e ideias diferentes, mas todos se ouvem e respeitam”. Com tais experiências ele afirma ser possível, numa microssociedade, vivenciar o diferente. Cauê diz ter aprendido “como ouvir, conversar e respeitar”.

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Cauê em jogo pela Seleção USP

Por tais vivências ele ressalta a importância do esporte. “Eu fui amadurecendo antes que os meus colegas de escola, aprendi muito jogando e trenando vários times. Era muito concorrido, quem ganhava mais ou menos, titular, reserva. Cada time me ensinou um pouco, em aspectos diferentes”. Afora o esporte prepara para diversas situações da vida, ele lembra que na hora do jogo não há desigualdade, não importa se você é rico, pobre, branco, negro, ou sua religião.

Pelo amor aos esportes,  Cauê afirma que vai “jogar até o fim da vida, não tem como parar”, mesmo que seja com amigos por lazer. Apesar de “viciado [no esporte]”, ele escolheu não ser profissional por não ter sido escalado pela Seleção. “Eu iria sofrer muito por ser um atleta mediano”. Também alega não ser a vida que queria, por desejar algo mais amplo. Quanto aos planos pro futuro ele se mantém reservado. Não pensa em fazer outra faculdade mas pós é uma possibilidade. Contudo, ele pede calma, “isso é pro futuro”. “Não vivenciei muito a adolescência e nem a universidade, hoje quero ler mais, viajar mais, sair mais”.

Segue a regra de viver tudo ao máximo. Para ele isso é possível através da atividade física, alimentação saúdavel, relacionamentos (vida social) e conhecimento. E diz ser primordial fazer as escolhas certas, como a do dia do casamento. “Não me arrependo de jeito nenhum”.


Títulos: 8 Copas USP, 4 vice. 8 Copas dos Campeões. 7 Jogos da liga. 2 InterU. 1 Campeonato paulista e 4 vice da federação paulista.


 

 

 

Crédito foto de capa: Divulgação / InterU

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2 Responses to Cauê Ranzeiro – o esportista de 1001 utilidades

  1. Fernando Ferreira Bassin disse:

    Pessoas diferenciadas são raras, diferenciadas e com o coração gigante como o Cauê acho que não existe outro.
    Exemplo de atleta, amigo, profissional.
    E que venham mais 20 anos dedicados ao esporte, pois o esporte precisa de pessoas como o Cauê!

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