Bike na USP: a cultura sobre duas rodas

por • 10 de novembro de 2014 • Individuais, TreinamentoComentários (0)3017

Por André Meirelles e Guilherme Caetano | Jornalismo Júnior

 

Em meio ao trânsito caótico e à vida conturbada de São Paulo, há quem possa escapar das horas preso no congestionamento e do tédio do ambiente fechado: os ciclistas. E eles são vistos cada vez mais pelas ruas da cidade. E na USP, um lugar propício para a prática, não poderia ser diferente. Muitos, entretanto, ainda questionam a viabilidade desse exercício, em razão dos perigos, das distâncias e de vários outros motivos. Então, por que andar de bicicleta?

Arborização, ruas largas e melhor asfaltadas, pessoas praticando esportes e uma cultura de convívio mais consolidada. Tudo isso faz com que a Cidade Universitária seja palco da atividade de muitos adeptos da bicicleta, apesar de as justificativas não serem consensuais. Maria Pedote, que antes estudava na Escola de Comunicações e Artes (ECA) e hoje cursa Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), por exemplo, usava esse meio para se locomover até a USP em dias que não permanecia na faculdade até o anoitecer, já que os riscos de roubos aumentam e sua bicicleta não tinha sinalização apropriada. “Eu moro perto da USP, da minha casa até a ECA demorava aproximadamente uns 40 minutos a pé, e quando eu ia de ônibus acabava demorando o mesmo tempo. Então a bicicleta se mostrou o melhor meio de locomoção”, explica Maria.

O uso das bicicletas na USP vem se tornando uma alternativa para os estudantes se deslocarem dentro campus  -  Crédito: Marcos Santos

O uso das bicicletas na USP vem se tornando uma alternativa para os estudantes se deslocarem dentro campus                        Crédito: Marcos Santos

Já Thomas Fernandes, mestrando em História também na FFLCH, diz que revesa bastante o tipo de transporte usado para ir até a USP. Usa a bicicleta uma ou duas vezes por semana. Conta que escolheu o ciclismo pela economia de dinheiro e muitas vezes pelo tempo, já que, quando há congestionamento no trânsito, pedalando ele chega mais rápido que carros e ônibus. Além do mais, no bairro onde mora,  Perdizes, as políticas públicas municipais de incentivo ao uso desse meio de transporte tem facilitado quem se interesse pelo exercício.

Apesar de toda a praticidade da bicicleta, faltam algumas ações para que potenciais ciclistas se rendam ao uso da bicicleta, mesmo dentro da universidade. Thomas lembra de obstáculos para a cultura ciclística, não necessariamente relaciona à prática em si. Ele cita, por exemplo, a ausência de lugares para estacionar e guardar as bicicletas quando se chega à faculdade para assistir a uma aula ou fazer qualquer outra atividade. Maria vai ao mesmo ponto. “Acredito que ainda é preciso melhorar a estrutura urbana voltada para o transporte em duas rodas, além da criação desse hábito na vida das pessoas”, opina ela. E ainda acrescenta: “É preciso que se crie espaço para guardar as bicicletas, além de vestiários para que as pessoas possam se trocar ou tomar um banho quando chegam da rua”. Afinal, nem sempre a distância percorrida pedalando é curta e, dependendo da circunstância, chegar suado e cansado em seu destino não é muito agradável.

Quanto à conveniência em se andar de bicicleta dentro da Cidade Universitária, é de alguma forma consenso que é muito melhor do que pedalar em outras regiões da cidade. O grande empecilho ao qual os entrevistados se referiram se deu à distância e à insensibilidade de motoristas de carros e ônibus pelo restante de São Paulo. Maria relata que faltam ciclofaixas e ciclovias em lugares estratégicos que liguem os pontos da cidade sem grandes declives, apesar de reconhecer que alguma coisa já está sendo feita. A estudante de Letras não poderia deixar de citar a escassez de pontos de aluguel de bicicleta, principalmente perto das estações de metrô e dentro da USP. “Eu já tentei duas vezes usar o Bike Itaú no metrô Faria Lima”, conta ela, “mas nunca consegui alugar a bicicleta, porque estava sempre com algum problema”.

 

Saúde e as ciclofaixas na USP

A escolha por vir à universidade de bicicleta é uma alternativa que tem seus grandes benefícios para a saúde de quem pratica. Para Carlos Dorlleo e Marcelo Machado, médicos residentes na medicina esportiva do Hospital das Clínicas, a vantagem do ciclismo é o ganho de condicionamento físico sem sobrecarga mecânica nas articulações. É diferente de outros exercícios como a corrida, que podem danificar quadril, joelho e tornozelo pelo choque com o solo. Durante a reabilitação de alguma lesão, conta Marcelo, o ciclismo pode ser importante numa fase inicial, quando o atleta em recuperação deve evitar grandes impactos. O prejuízo fica para o paciente com osteoporose, por exemplo, ou que precise de alguma melhora na densidade mineral óssea, justamente por não ter colisões para fortalecer a musculatura.

A ciclofaixa que liga a estação Butantã do Metrô até o portão principal da USP  (P1)  -    Crédito: Letícia Macedo

A ciclofaixa que liga a estação Butantã do Metrô até o portão principal da USP (P1)                                         Crédito: Letícia Macedo

Na Cidade Universitária é muito comum vermos bicicletas dividindo as largas avenidas com ônibus e carros. E é principalmente essa a questão que dificulta a consolidação do uso das bicicletas na USP para Gabriela de Carvalho, treinadora de ciclismo da Assessoria Esportiva 4any1. Para ela, que treina bastante no campus, os motoristas de ônibus e os alunos que passam de carro não gostam de dividir espaço com os ciclistas, o que além de ser um risco a quem pedala é algo que afasta ainda mais os praticantes para a USP.

Além disso, a região encontra problemas estruturais e de organização que claramente mostram que o campus não está adequado para essa prática. Para Gabriela, a solução para que as pessoas se rendam ao ciclismo seria o melhoramento das condições dos ciclistas: “Eu acho que por parte da universidade, seria a favor de um espaço específico para pedalar, de repente uma ciclofaixa dentro da USP, para treinamento também. E a melhoria do asfalto lá dentro [seria algo favorável],  pois também é muito ruim.”

Nos últimos meses, viu-se uma grande iniciativa da prefeitura de São Paulo em implementar ciclofaixas nas principais regiões da cidade, incentivando assim o deslocamente dos cidadãos por bicicleta. A proposta pode ser vista como uma tentativa do prefeito Fernando Haddad de diminuir o trânsito caótico nas avenidas mais movimentadas e adotar uma maneira mais sustentável de se locomover pela maior cidade da América Latina. Para Gabriela, a ideia é bem-vinda para que se fomente ainda mais o uso e já apresenta seus efeitos: “Está tendo muito efeito e só tende a aumentar ainda esse número [de praticantes]. Acho que haverá um aumento maior das pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte. Como meio de transporte e como treino também. As pessoas estão buscando a bicicleta como alternativa de treino.”

O Secretário dos Transportes Jurandir Fernandes durante a inauguração do bicicletário da estação Butantã Crédito: Marcos Santos

O Secretário dos Transportes Jurandir Fernandes durante a inauguração do bicicletário da estação Butantã  –  Crédito: Marcos Santos

Atualmente, as ruas e avenidas da Cidade Universitária não dispõe de ciclofaixas para seus ciclistas. O único trajeto que auxilia os frequentadores é a atual ciclofaixa que liga o portão principal (P1) à estação Butantã do Metrô. O percurso tem 850 metros e passa pelas ruas Vital Brasil e Afrânio Peixoto. A estação, que é a mais próxima da USP, apresenta uma estrutura suficiente para receber as bicicletas de quem chega ou de quem sai. Os usuários contam com bicicletários de 150 vagas que funcionam diariamente apenas para estacionamento, das 6h às 22h, inclusive em feriados. Qualquer um pode deixar sua bicicleta no local, que pode permanecer até quatro dias estacionada. Um dos único trajetos disponíveis

Alguns vagões dos trens do Metrô também são destinados exclusivamente às bicicletas. De segunda a sexta, o embarque é permitido somente depois das 20h30 e aos sábados a partir das 14h. Domingos e feriados, o embarque é liberado o dia inteiro. Para conferir outras normas sobre o uso das bicicletas na Linha 4-Amarela do Metrô, acesse o site: http://www.viaquatro.com.br/guia-do-usuario/bicicletario.

É evidente o quanto é importante para a saúde física e para o bem da mobilidade urbana usarmos mais as bicicletas para realizarmos nossas atividades. Em momentos de superlotação dos carros na nossa cidade, elas se tornam a opção mais benéfica para melhorar diversos problemas. E seu uso na USP não traria consequências diferentes. Cada vez mais vemos como a situação do trânsito no campus vem aumentando, principalmente nos horários de pico e nos portões de saída. Agora, que tal tirar sua bicicleta da garagem e ir para a aula de uma maneira mais saudável e sustentável? O resultado disso será um benefício tanto para você quanto para todos os uspianos.

 

 

 

Crédito foto de capa: Marcos Santos

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