As Dificuldades do Recomeço

por • 25 de setembro de 2014 • Basquetebol, CartolaComentários (0)1090

Por  André Meirelles e Cintia Oliveira | Jornalismo Júnior

 

No dia 12 de junho de 2014, o basquete brasileiro comemorou os 20 anos de uma de suas maiores conquistas da história. Liderada por Hortência e Magic Paula, grandes exemplos do esporte até hoje, e contando com outros nomes com os de Janeth, Helen e Adriana, a equipe feminina de basquete conquistou o inédito título do Campeonato Mundial na Austrália em 1994. O título marcou as atletas da seleção brasileira como a geração de ouro e colocou o Brasil como uma potência mundial do basquete feminino ao lado dos EUA e da China. Além do Mundial, o grande time também conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos  de Atlanta em 1996 e o título do Panamericano de 1991 em Cuba.

  Contudo, nos últimos anos, a seleção feminina vem sofrendo um declínio gradual de seu desempenho com a aposentadoria de muitas dessas grandes jogadores, e já não configura mais entre as potências do basquete. A queda do rendimento começou em 2004, nas Olimpíadas de Atenas, em que o Brasil ficou na quarta colocação. Nos Jogos Olímpicos seguidos, a campanha foi pior ainda, amargando um 11º lugar em Pequim e um 9º em Londres. Na época, a mídia esportiva brasileira apontou a falta de renovação das atletas como uma dos grandes culpadas pelos constantes fracasso da seleção feminina. Isso abriu a discussão a respeito do modo que o país administra a formação de novos talentos e viu-se que precisaria, urgente, de uma reforma nas categorias de base do basquete, que se encontrava praticamente abandonada.

BF1994

A geração de ouro ao conquistar o título mundial de 1994 após derrotar a China por 96 a 87 / Crédito: Divulgação CBB

  Atualmente, esse é um dos projetos de investimentos da Confederação Brasileira de Basquete (CBB): canalizar todos os esforços para selecionar novas atletas e criar uma geração competitiva no futuro. Para Bruno Valentin, administrador técnico da atual seleção brasileira, o trabalho de garimpar novas atletas para o basquete feminino não é tão simples quanto parece inicialmente e o projeto de renovação está sendo um grande desafio para os técnicos e dirigentes. Entretanto, o projeto vem ganhando forças e melhorando desde 2013, quando o Ministério do Esporte firmou sete convênios com a CBB para o desenvolvimento da modalidade no país. Entre os benefícios do projeto estão o apoio às categorias de base, novos equipamentos de qualidade internacional para as quadras, estrutura para as seleções principais e a capacitação dos treinamentos.

  Antes da confirmação dos convênios, o governo federal já investia nas categorias de base do basquete feminino. Em 2011, com o incentivo, a seleção brasileira feminina sub-19 conquistou a inédita medalha de bronze no Mundial do Chile. Além disso, o Brasil também teve a melhor jogadora da competição, Damires, que hoje joga na WNBA (NBA feminina) e representa a grande revelação do basquete dessa geração. Os resultados dos convênios podem ser percebidos nas exibições das seleções de base em 2013. No Mundial do mesmo ano, o Brasil conquistou o sexto lugar e o resultado, embora pior que o de 2011, foi considerado satisfatório.

  A preparação dessas novas atletas através de experiências internacionais foi um dos principais focos desse investimento. O dinheiro foi utilizado para aumentar o número de treinos e o número de jogos internacionais justamente para as jogadoras não chegarem ao Mundial ou a uma Olimpíada sem nenhuma experiência de jogos contra grandes seleções, o que era um problema até então. Com essa escassez de atletas na base, os técnicos acabavam fazendo o que podiam com o que já tinham e o pouco que conseguiam de sangue novo, tentando transmitir a experiência das mais velhas para as mais jovens, tirando-as do banco e fazendo-as entrar em situações reais de jogos. Porém, isso acabava sendo um desafio, pois muitas das mais novas que chegam tem “pouco tempo de quadra”, ou seja,  não entravam muito no jogo, pois a maioria dos times da liga feminina, que são menos da metade do número de times da Liga Nacional de Basquete Masculino (NBB), acabavam dando preferência para as veteranas  e freando assim a renovação do time.

  Bruno acredita que esse seja um importante passo para o recomeço na formação de atletas técnicas e competitivas para o futuro: “Ao meu ver, [esse investimento] está sendo muito benéfico no feminino. Por enquanto é a solução para a gente já voltar a criar talentos e massificar o basquete feminino. A gente sabe que o processo é lento mas eu acho que hoje esse é o caminho.” Ele destaca a intensificação de um pensamento que vai além das Olimpíadas de 2016, no qual o grande objetivo do Brasil é reintegrar a assinatura no quadro das 8 melhores equipes a partir do Campeonato Mundial de 2014 que ocorre em setembro na Turquia e assim começar uma nova escalada para o pódio pelos próximos anos. “Acredito muito no trabalho do técnico e das jogadoras. Eu acho que elas aguentam o tranco, a gente ta num grupo muito difícil [se referindo ao Mundial], mas a gente vai brigar por estar entre os 8 e estar no quadro dos melhores”.

Damiris Dantas em jogo contra as Australianas  Crédito: FIBA

Damiris Dantas em jogo contra as Australianas / Crédito: FIBA

  Cristiano Cedra, assistente técnico da atual seleção elogiou o apoio dado pelo Ministério e pela Confederação. Cedra, afirma que o convênio entre as duas entidades realmente melhorou as condições de treinamento e estrutura do time, que com isso houve um acréscimo importante no investimento e desenvolvimento das atletas. Porém, ele ainda cita um outro problema fundamental para levar o esporte a novos tempos de glória, como os que ele já obteve antes: a massificação da modalidade. “Acredito que o maior problema é a ausência de uma política pública educacional-esportiva voltada para a formação de novos atletas no nosso país. A nossa formação de professores também não tem contribuído para a diversificação e a aquisição do gosto por esportes que não o futebol nas escolas.”, comenta.

  Em uma terra dominada pela febre do futebol não há como negar que se destacar em outro esporte se torna sempre um pouco mais difícil. A grande paixão do povo brasileiro acaba muitas vezes esmagando o pequeno espaço que as outras modalidades possuem, dentre elas, o basquete. Enquanto o futebol toma as redes de canal aberto durante jogos na semana e predomina nas principais revistas, jornais e telejornais diários do país, o basquete é um esporte que sempre veio lutando para alcançar alguma popularidade, essa a qual mal pode ser comparada com a que tem em outros países, como Estados Unidos, Espanha e Japão, por exemplo.

  Frente a isso, a massificação da modalidade, que já por ser feminina tem menos destaque, tem suas chances de obter sucesso diminuídas, apesar dos incentivos.  Cristiano explica que sem essa massificação intensa, que deve ocorrer desde a base nos colégios, a seleção ficará sempre limitada a convocação sobre um número pequeno de atletas em atividade, a maioria já muito experientes, outras muito jovens e poucas em idade ótima de performance.

  O basquete nunca alcançou no Brasil um patamar elevado de paixão esportiva. Sempre esteve atrás do vôlei ou do futebol e sofreu dificuldade para cair no gosto do brasileiro. Após passar por períodos áureos que registrou uma geração como uma das melhores do mundo, o basquete feminino vem tendo nos últimos anos um maior apoio do governo para que ele tenha mais estrutura e que se consolide como um esporte de prática nacional novamente. Ainda há muito pelo qual lutar, incorporar ainda mais a modalidade nas escolas e nas universidades, deixando o velho modismo de lado e aumentando a divulgação. Porém, aos poucos, surgem novos adeptos, que, espelhados nas glórias do passado, tentam construir um novo futuro que traga ainda mais conquistas não só para o time, mas o esporte em si.

 

Crédito Foto de Capa: A Seleção Brasileira Adulta Feminina conquistou o título invicto do 34º Campeonato Sul-Americano contra a Argentina / Samuel Vélez - FIBA Américas

Posts Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *