A saúde mental no esporte

por • 12 de setembro de 2014 • Saúde & AlimentaçãoComentários (0)2209

 A importância da psicologia esportiva na obtenção de resultados positivos em competições.

Por Marília Fuller | Jornalismo Júnior

A Copa do Mundo FIFA 2014 deixou muitas marcas no esporte mundial: os jogos bem disputados, a grande quantidade de gols e a sua qualidade, seleções com pouca tradição que surpreenderam até as mais experientes. Além das goleadas e atuações, o fator psicológico dos jogadores também esteve em destaque. Com o fraco desempenho da seleção brasileira contra o Chile nas oitavas de final e o estado emocional fragilizado em que os jogadores se mostraram com a disputa de penalidades máximas, a psicologia esportiva, o profissional da área e o seu trabalho com os atletas ganhou espaço no cenário esportivo.

Atleta da Seleção Brasileira de Futebol chorando em campo - Crédito: Acervo Revista Veja

Atleta da Seleção Brasileira de Futebol chora em campo     Foto: Ricardo Corrêa/VEJA

Segundo o professor Antonio Carlos Simões, titular do Departamento de Esportes e coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicossociologia do Esporte da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE/USP), a psicologia do esporte é uma das disciplinas mais jovens no ramo das ciências psicológicas e comportamentais. Um dos principais objetivos dessa especialização é a possibilidade de profissionais das áreas do esporte e da psicologia poderem desenvolver projetos de investigação, intervenção e acompanhamento psicológico. Esses projetos ajudariam a melhorar não apenas as saúdes física, social e psicológica dos atletas, mas também suas competências competitivas.

O Laboratório de Psicossociologia do Esporte (LAPSE) mantém um convênio internacional entre a EEFE/USP e a Universidade de Esporte da Alemanha. Através dessa parceria, os profissionais da USP tiveram a oportunidade de observar como a seleção alemã estava se preparando para a Copa do Mundo. Há dez anos, todos os integrantes da seleção usam um sistema de treinamento mental chamado Sistema de Viena, ou biofeeback, para trabalhar concentração e o controle das distrações. De acordo com Simões, esse foi um dos pontos de divergência entre a Alemanha e o Brasil. “Isto mostra que não adianta um atleta estar bem preparado física, técnica e tática, mas não mentalmente.”

Grande parte dos atletas procura levar adiante um conjunto de atividades físicas e esportivas, em diferentes formas e contextos sociais. Porém, os profissionais envolvidos com práticas esportivas, sejam sociais ou competitivas, salientam que a participação e o desempenho desses atletas dependem de hábitos, inatos ou adquiridos. Todos criam maneiras habituais de pensar, sentir e agir quando se movem ou executam uma sequência de ações. Assim, a aquisição e adoção de atitudes individuais, além de controle das dispersões, concentração da atenção e níveis de comprometimento são alguns elementos determinantes para um bom desempenho.

O estudo da psicologia esportiva mostra que a confiança aumenta a partir das situações em que essas pessoas estão focadas em continuar aprendendo e crescendo no contexto de seu esporte. Buscar tornar-se melhor do que imaginava poder ser, desenvolver autoestima e autoconfiança na jornada até seus objetivos, adotar atitudes e condutas com contribuições significativas: todos são fatores-chave. Em contrapartida, não obter o resultado desejado e esperado pode abalar a confiança do atleta. “A autoconfiança é um fator essencial na vida dos indivíduos, ainda mais no caminho por excelência esportiva competitiva. O desempenho aumenta ou diminui dependendo das condições em que treinam e jogam – da qualidade das capacidades de atenção-concentração, da criação de imagens positivas, etc.”, explicou Simões.

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A presença de profissionais e psicólogos do esporte trabalhando com equipes universitárias é fundamental, pois auxiliaria atletas e treinadores a melhorar suas performances enquanto agentes esportivos. As corriqueiras ocorrências que acontecem nesse ambiente acabam, muitas vezes, por prejudicar o comportamento e o comprometimento dos alunos. Apesar do rigor competitivo, os torneios universitários pecam por excesso de descumprimentos de algumas normas de condutas necessárias para a obtenção de melhores desempenhos.  Do ponto de vista do professor, as atitudes e condutas que impulsionam esses atletas são carentes de foco de atenção, esforço, tenacidade e responsabilidade institucional, grupal e pessoal. Para Simões, uma postura diferente poderia ser tomada com a intenção de levar adiante um projeto coletivo equivalente, por exemplo, ao que se faz no esporte universitário norte-americano.

Contudo, há certo receio em relação à psicologia do esporte por parte de muitas pessoas, inclusive esportistas. Dirigentes e treinadores, especialmente aqueles ligados ao futebol de campo, não aceitam com facilidade a presença de um psicólogo na comissão técnica das equipes, disse Simões. Essa imagem é dominante tanto em federações, ligas e clubes, quanto nos pequenos grupos sociais, como as equipes esportivas. Existe, também, falta de conhecimento por parte da grande mídia, que costumeiramente emite opiniões e comentários errôneos e com pouco embasamento. “Quase ninguém tem uma noção da dimensão daquilo que os profissionais e psicólogos do esporte podem fazer em beneficio dos treinadores e atletas, além de outros diversos agentes que trabalham no mundo dos esportes”, confessou.


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