vôlei brasil kirin

Trabalhar sério, não só como um trampolim

por • 18 de julho de 2014 • Entrevista, VôleiComentários (0)1635

Técnico da Poli USP há 15 anos, Alexandre Rivetti também apresenta o comando do Vôlei Brasil Kirin em seu currículo.

Por Matheus Sacramento

Não é todo técnico universitário que consegue chegar ao profissional. Alexandre Rivetti, treinador de vôlei da Poli USP, não só completou essa façanha como também obteve sucesso. Foi técnico do Vôlei Brasil Kirin de Campinas, terceiro colocado na Superliga Masculina 2013/2014, treinando jogadores como o campeão olímpico André Heller. Nesta entrevista, ele falou sobre oportunidades profissionais no vôlei, corrupção nos esportes olímpicos, seu perfil como treinador e relações entre esporte universitário e profissional. Inclusive revelou que pretende seguir carreira fora do país!

Time de vôlei masculino da Poli-USP, campeão do JUP 2011. Rivetti está na Poli há 15 anos

Time de vôlei masculino da Poli-USP, campeão do JUP 2011. Rivetti está na Poli há 15 anos.

 

As oportunidades profissionais no esporte brasileiro são muito poucas. Para um atleta (ou treinador) universitário que deseja chegar ao profissional, vale a pena ir treinar fora do Brasil?

O atleta que opta por ser universitário no Brasil já largou a carreira de atleta. Dificilmente você vai ver um atleta no nível de Superliga fazendo faculdade. Não há condições de treinar dois períodos e estudar no meio desse processo. Quando o jogador vem para o universitário, ele já escolheu o caminho dos estudos para a vida. Quanto a treinadores, hoje você tem uma competição muito acirrada, com poucas vagas. São 12 times jogando a Superliga, são apenas 12 treinadores. Ter uma vaga no meio dessa elite é muito difícil. Envolve ter o conhecimento de pessoas que gostam do seu trabalho e também ter sorte. Hoje o vôlei lá fora abre muitas oportunidades para técnicos e jogadores. As oportunidades são boas, e eu penso, daqui a pouco, seguir esse caminho e tentar uma carreira fora do Brasil.

Os esportes olímpicos são muito dependentes de patrocínio, e sempre passam por instabilidade. Além disso, as federações, que deveriam organizar o esporte, estão sempre envolvidas em corrupção. O vôlei recentemente vive um escândalo de corrupção entre a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) e o Banco do Brasil. Como resolver essa situação delicada?

O grande problema das federações e confederações é que os dirigentes não são remunerados. Em algo profissional, você tem que ser remunerado por aquilo que você faz. Não dá para a pessoa trabalhar de favor na CBV ou em qualquer federação. Entra muito dinheiro, a grana não é pouca. Existe essa tentação de tirar proveito. É assim no nosso país, não há o profissionalismo que deveria haver.   Agora com a Olimpíada, tem verba de todos os lugares, ministério e tudo mais, e está todo mundo de olho nisso! Em vez de construir alguma coisa legal para o esporte, as pessoas só pensam em tirar proveito para si próprio. E a impunidade é uma das grandes culpadas. Lá fora as coisas são mais sérias, se você roubar alguma coisa, será punido. Nossa política esportiva tem que mudar muito para que a gente consiga ser uma potência olímpica. Infelizmente nossa cultura de esporte é exclusivamente futebol.

É possível aprender algo no vôlei universitário que se aplique ao vôlei profissional?

Independentemente do nível em que você está jogando, as situações se repetem. O jogo se repete. Tem coisa que a gente já viveu no universitário, nas categorias menores, que a gente aproveita no profissional. Você ganha experiência, ganha um feeling do que está acontecendo na quadra, por estar anos e anos ao lado dela. Tem essa relação sim.

O lado psicológico no universitário e no profissional é muito diferente?

Não sei se é muito diferente. O psicológico age tanto no universitário como no profissional. Até nas categorias sub. Sempre em final de partida, ou momentos de pressão, você vê algumas situações que você reconhece dos dois lados. Lógico, guardando as proporções do jogo, que são muito diferentes.   Existem as mesmas situações em que o jogador se sente pressionado. Aquele que rende mais sob pressão, aquele que sente mais dificuldade. Tem sim uma correlação. A psicologia, tanto no universitário quanto no profissional, é importantíssima no trabalho. Hoje você não vê muitos psicólogos atuando no nível profissional, mas acho que seria muito importante tê-los, porque afeta diretamente o resultado do jogo.

Você tem um perfil mais calmo como técnico. Bem diferente do estilo Bernardinho, por exemplo. Por quê? Isso funciona?

Eu sou fã do Bernardo. É um cara que sempre me apoiou. É a personalidade dele, tem aquele jeito explosivo. Eu não acho que aquilo funcione tanto durante um jogo. Tem momentos que você tem que ter uma pegada maior com os jogadores sim. Mas você tem mais que ajudar do que passar nervosismo, descontrole, porque isso é o que faz com que o time vá para um caminho bom ou o time saia do trilho.

Para finalizar, Rivetti fez questão de agradecer à USP e mandar um recado para quem trabalha com esporte universitário: “queria dizer que sou grato à USP e ao esporte universitário, principalmente à Poli por confiar em mim todo esse tempo, tanto que eu não saí mesmo estando na Superliga. Eu optei por continuar. Que as pessoas que trabalham no universitário tenham essa visão: de trabalhar sério, ensinar um esporte, não só na brincadeira, não só como um trampolim para chegar a algum lugar.”

 

Crédito foto de capa: Cinara Piccolo/ Divulgação

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