racismo no esporte

Racismo no esporte, a ponta do iceberg

por • 16 de julho de 2014 • Diversidade, EspecialComentários (0)8294

O racismo no esporte é um problema recorrente: seja no profissional ou no universitário, ainda há muito caminho para percorrer.

Por Cintia Oliveira e Beatriz Quesada

O racismo é ainda é recorrente em muitos setores da sociedade embora venha sendo combatido há décadas no mundo todo, e pôde ser observado no esporte a partir da Copa do Mundo no Brasil de 2014. Tanto jogadores como torcedores foram insultados com comentários racistas. O atleta canarinho Marcelo, após marcar um gol contra na estreia, foi alvo de comentários desse cunho por torcedores compatriotas. E os próprios brasileiros, também sofreram insultos de espanhóis no início do mundial, em resposta a uma provocação do Brasil nas redes sociais pela derrota do país ibérico perante a Holanda. Outro caso emblemático que traduz momentos conturbados na Copa, foi a joelhada do  atleta colombiano Zuñiga no atacante Neymar Jr., gerando vários comentários racistas também nas mídias sociais.  Contudo, o futebol não é a única modalidade vítima de atitudes preconceituosas no esporte: recentemente, o dono do time de basquete Los Angeles Clippers foi banido permanentemente da NBA – liga nacional de basquete norte-americano –  – e multado em 2,5 milhões de dólares por uma fala racista ao telefone, a qual foi divulgada pela revista TMZ, a qual repercutiu no mundo todo.

Em sua fala, Donald Sterling critica a sua namorada, a modelo Vivian Stiviano, por ter postado uma foto na rede social Instagram ao lado do astro do basquete Magic Johnson. Ele se diz “incomodado” quando ela fica ao lado de pessoas negras e que “ela pode interagir com eles como quiser desde que não divulgue isso em lugar nenhum”. Duramente repreendido pela NBA, pelo próprio Magic Johnson – que não voltaria a assistir um jogo dos Clippers enquanto ele fosse dono da franquia – e até mesmo por Barack Obama – primeiro presidente negro dos Estados Unidos – Sterling pediu perdão em rede nacional pelo canal CNN, justificando que sempre foi um bom membro e este havia sido seu primeiro erro em 35 anos.

 crédito: RONALD MARTINEZ/GETTY IMAGES

Donald Sterling (esquerda) e Vivian Stiviano (direita) – Crédito: RONALD MARTINEZ/GETTY IMAGES

 

#somostodosmacacos

Outro caso de racismo que movimentou o mundo do esporte  foi o ocorrido meses atrás com Daniel Alves, jogador do time de futebol espanhol Barcelona e também da seleção brasileira, que comeu uma banana atirada em sua direção por um torcedor do time rival, Villarreal. O episódio ocasionou a liberação da polêmica campanha “Somos Todos Macacos” por Neymar – companheiro de Dani Alves no Barcelona – em parceria com a agência de publicidade Loducca. A ação teve adesão de diversos famosos da TV e música brasileira que postaram fotos segurando bananas em suas redes sociais ao lado da hashtag #somostodosmacacos, seguindo o exemplo do jogador brasileiro que posou com seu filho ao lado da fruta. Ao contrário do que ocorreu com as celebridades, nem todos viram com bons olhos a jogada de marketing, a qual foi acusada inclusive de reforçar preconceitos ao utilizar a palavra “macaco”, historicamente pejorativa. Em parte por repercutir de forma intensa na internet, o ato acarretou na expulsão do torcedor do grupo de sócios do time, além da proibição de assistir jogos no estádio do clube. O Villarreal também foi multado pelo Comitê Disciplinar da Liga Espanhola no valor de 12 mil euros.

Ambos os casos foram duramente reprimidos devido à exposição pública que tiveram na mídia. Contudo, nem todos são assim tão visivelmente identificáveis e, portanto, divulgados e devidamente punidos, tanto no âmbito profissional como no amador. Num dos poucos casos registrados – e conhecidos – na universidade, o atual presidente da atlética da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Guilherme Deboni, conta de um episódio emblemático nos Jogos Jurídicos de 2013. Na competição, que reúne sete faculdades de direito de São Paulo, uma jogadora negra do time de handebol da faculdade se sentiu ofendida com um comentário de uma menina do time adversário acerca de seu cabelo ser “ruim” por sua cor da pele. Na ocasião, o jogo foi interrompido imediatamente e a polícia foi acionada para que a agressora fosse encaminhada diretamente para uma delegacia. “Em algum caso eventual desse caráter, nossa posição como atlética seria repudiar extremamente a atitude e, possivelmente, deixar o campeonato em que o ato de racismo ocorresse”, diz em nota Gustavo Pessutti, presidente da atlética da Escola de Comunicação e Artes – indo de acordo com as outras organizações esportivas universitárias.

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Muitas pessoas chocam-se ao pensar que tais práticas racistas persistam no mundo esportivo e revoltam-se com os preconceitos sofridos por atletas dentro e fora do Brasil. Porém, se esse tipo de pensamento existe no esporte, também existe na sociedade. A discriminação racial é uma herança ainda extremamente presente no mundo inteiro: apenas na década de 1960 os negros americanos foram beneficiados com o fim da segregação racial, através de expoentes como o pacifista Martin Luther King; há exatos 20 anos os sul-africanos viviam um regime de discriminação pela cor da pele, o Apartheid, extinto em 1994; o último país a abolir a escravidão no mundo – a Mauritânia – o fez em 1981 e a prática só foi reconhecida como crime há 7 anos, sendo que ela ainda ocorre de forma velada no país.

Dani Alves em sua atitude emblemática de comer a banana que lhe foi jogada em campo

Dani Alves em sua atitude emblemática de comer a banana que lhe foi jogada em campo

Em países como o Brasil, onde existem legislações dentro e fora do esporte – as quais especificam claramente que o racismo é uma prática intolerável aos olhos da Justiça – ele se manifesta de forma velada, nos pequenos preconceitos cotidianos, nas piadas enraizada e na discriminação injustificada. É visível também nas universidades, na direção de empresas, em empregos com alto rendimento médio, situações nas quais a presença de negros é ainda muito inferior em relação aos brancos. De acordo com o IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, uma pessoa negra ou parda recebeu 57,4% do salário de uma pessoa branca em 2013 – quase metade do rendimento do trabalhador é diminuído em razão da cor de sua pele.

O esporte é um dos poucos redutos onde há uma maior aceitação e equilíbrio racial, contudo o professor Dennis de Oliveira esclarece que o fato haver uma tolerância à presença negra no mundo esportivo não significa a inexistência do racismo. Docente na Universidade de São Paulo (USP), Dennis tem como principal tema de atuação o assunto “mídia e racismo” e é membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro (Neinb). Segundo ele, o racismo no esporte está relacionado à um problema estrutural das organizações esportivas. “Os jogadores podem ser reconhecidos e valorizados por sua qualidade técnica, mas ainda estão submetidos a uma estrutura organizativa hegemonizada por brancos (…) o preço a pagar é ser sempre uma pessoa subservente a toda esta estrutura”. Isso significa que comportamentos racistas por parte da torcida, por exemplo, só seriam punidos caso a estrutura achasse conveniente – como num caso amplamente divulgado pela mídia – e não por ser uma prática ilegal.

Muitas vezes esses episódios de racismo esclarecidos tão comentados e linchados publicamente acabam sendo somente uma pequena parcela dos casos totais, uma vez que diversos outros episódios acontecem cotidianamente sem que ocorra um posicionamento das organizações esportivas ou dos meios de comunicação. Assim, o âmbito do esporte se torna somente a “ponta do iceberg” de um problema muito maior, mas aparentemente pequeno e localizado.

Crédito foto de Capa: Charge do cartunista Carlos Latuff 

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